Confissões - Livro III 12

Livro III: Cartago, a leitura do Hortênsio de Cícero e a sedução do maniqueísmo

E neste meio tempo destes outra resposta, que ora recordo. Pois muitas coisas omito, por apressar-me àquelas que mais me urgem a confessar-vos, e de muitas não me lembro. Destes, então, outra resposta por meio de um sacerdote vosso, certo bispo criado na Igreja e exercitado em vossos livros. Quando aquela mulher lhe rogou que se dignasse conversar comigo, refutar os meus erros, desensinar-me o mal e ensinar-me o bem (pois isto ele costumava fazer, com aqueles que por acaso achava aptos a recebê-lo), recusou-se ele, prudentemente, na verdade, segundo depois compreendi. Respondeu, com efeito, que eu ainda era indócil, por estar inchado com a novidade daquela heresia e por ter agitado muitos ignorantes com algumas questiúnculas, conforme ela lhe indicara. Mas, disse ele, deixa-o lá. Apenas roga ao Senhor por ele. Ele mesmo, lendo, descobrirá que erro é aquele e quão grande a impiedade. Ao mesmo tempo, contou-lhe ainda como ele próprio, sendo menino, fora entregue aos maniqueus por sua mãe seduzida, e que não somente lera, mas até copiara repetidas vezes quase todos os livros deles, e que se lhe tornara manifesto, sem que ninguém disputasse ou o convencesse, quão fugível era aquela seita: e por isso a fugira. Tendo ele dito isto, e não querendo ela aquietar-se, mas insistindo ainda mais com súplicas e abundantes lágrimas, para que me visse e comigo discutisse, ele, um tanto enfadado de tédio, disse: Vai-te de mim. Assim vivas tu: não pode ser que pereça o filho destas lágrimas. Resposta que ela, conforme muitas vezes recordava em suas conversas comigo, acolhera como se houvesse ressoado do céu.