Confissões - Livro II 6

Livro II: a adolescência, os desejos da carne e o furto das peras

Que amei eu, miserável, em ti, o furto meu, o crime meu da noite, no décimo sexto ano da minha idade? Pois belo não eras, que furto eras. Ou serias acaso alguma coisa, para que eu te fale assim? Belas eram aquelas peras que furtamos, porque eram criatura vossa, o belíssimo de todas as coisas, criador de todas as coisas, Deus bom, Deus sumo bem e bem verdadeiro meu. Belas eram aquelas peras, mas não foram elas que cobiçou a minha alma miserável. Pois eu tinha fartura de melhores, e aquelas colhi tão somente para furtar. Porque, colhidas, lancei-as fora, banqueteando-me ali apenas com a própria iniquidade, da qual me alegrava ao desfrutá-la. Pois ainda que algo daquelas peras entrasse na minha boca, o tempero que ali havia era o crime. E agora, Senhor Deus meu, procuro o que me deleitou no furto, e eis que beleza nenhuma há: não digo como na justiça e na prudência, mas nem como na mente do homem e na memória e nos sentidos e na vida que vegeta, nem como são belas as estrelas e formosos os seus lugares, e a terra e o mar cheios de crianças que nascendo sucedem às que perecem, nem sequer como uma certa beleza defectiva e sombria nos vícios que enganam.
Pois também a soberba imita a altura, sendo Vós o único Deus excelso sobre todas as coisas. E a ambição que busca senão honras e glória, sendo Vós o único digno de ser honrado acima de tudo e glorioso para sempre? E a crueldade dos poderosos quer ser temida: mas quem de ser temido senão o único Deus, de cujo poder o que pode ser arrebatado ou subtraído, quando, ou onde, ou para onde, ou por quem? E os afagos dos lascivos querem ser amados: mas nada mais afagoso que a vossa caridade, nem coisa alguma se ama mais salutarmente do que a vossa verdade, formosa e luminosa acima de todas. E a curiosidade aparenta zelo da ciência, sendo Vós quem tudo conhece supremamente. A própria ignorância também e a estultice se encobrem com o nome de simplicidade e inocência, pois nada se encontra mais simples que Vós. E que mais inocente que Vós, que aos maus as suas próprias obras são inimigas? E a preguiça como que apetece o repouso: mas que repouso certo além do Senhor? A luxúria deseja ser chamada saciedade e abundância: mas Vós sois a plenitude e a cópia inexaurível de uma suavidade incorruptível. A dissipação ostenta uma sombra de liberalidade: mas o doador abundantíssimo de todos os bens sois Vós. A avareza quer possuir muito: e Vós possuís tudo. A inveja litiga por excelência: que mais excelente que Vós? A ira busca vingança: quem se vinga mais justamente que Vós? O temor se horroriza com o que é insólito e repentino, com as coisas que se opõem ao que se ama, enquanto acautela a sua segurança: pois para Vós que de insólito? Que de repentino? Ou quem aparta de Vós o que amais? Ou onde, senão junto de Vós, segurança firme? A tristeza definha pelas coisas perdidas com que a cobiça se deleitava, porque não quereria que assim lhe fosse, tal como de Vós nada pode ser tirado.
Assim a alma fornica quando se afasta de Vós e busca fora de Vós aquelas coisas que puras e límpidas não encontra, senão quando retorna a Vós. Perversamente vos imitam todos os que para longe de Vós se afastam e se levantam contra Vós. Mas ainda assim, imitando-vos, mostram que Vós sois o criador de toda a natureza, e que por isso não para onde de Vós de todo se recuar. Que amei eu, pois, naquele furto, e em que imitei eu o meu Senhor, ainda que viciosa e perversamente? Acaso me aprouve fazer contra a lei ao menos por fraude, que pelo poder eu não podia, de modo que, cativo, eu arremedasse uma liberdade mutilada, fazendo impunemente o que não era lícito, com uma tenebrosa semelhança da onipotência? Eis ali aquele servo que foge do seu senhor e alcança uma sombra. Ó podridão, ó monstro de vida e profundeza de morte! Pude eu querer livremente o que não era lícito, por nenhum outro motivo senão porque não era lícito?