Confissões - Livro I 8

Livro I: a infância e a meninice, o aprendizado da fala e os castigos da escola

Por acaso, vindo da infância para cá, não cheguei à meninice? Ou antes, foi ela que veio a mim e sucedeu à infância? Esta não se retirou: pois para onde foi? E contudo não existia. Eu não era mais o infante que não fala, mas era um menino que falava. E disto me lembro, e depois percebi de onde aprendera a falar. Pois não eram os adultos que me ensinavam, apresentando-me as palavras segundo alguma ordem certa de ensino, como pouco depois as letras; mas eu mesmo, com a mente que me destes, ó meu Deus, quando com gemidos e vozes variadas e variados movimentos dos membros queria exprimir os sentimentos do meu coração, para que se obedecesse à minha vontade, e não conseguia tudo o que queria nem junto a todos a quem queria, retinha na memória. Quando eles davam nome a alguma coisa e, conforme aquela voz, moviam o corpo em direção a algo, eu via e guardava que aquilo que soavam, quando queriam mostrá-lo, era por eles chamado com aquele nome. E que isto eles queriam, revelava-se pelo movimento do corpo, como pelas palavras naturais de todos os povos, que se fazem com o rosto e o aceno dos olhos e o gesto dos demais membros e o som da voz, indicando a afeição do ânimo ao pedir, possuir, rejeitar ou evitar as coisas. Assim, as palavras, postas nos seus lugares em variadas sentenças e ouvidas com frequência, eu pouco a pouco reunia de quais coisas eram sinais e, domada a boca a esses sinais, por meio deles exprimia as minhas vontades. Assim, com aqueles entre os quais eu vivia, partilhei os sinais para exprimir as vontades, e entrei mais fundo na tempestuosa sociedade da vida humana, dependente da autoridade dos pais e do aceno dos adultos.