A Cidade de Deus - Livro XVIII 8

Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel

Quem reinava quando Moisés nasceu, e quais deuses começaram então a ser adorados

Quando Safro reinava como o décimo quarto rei da Assíria, e Ortópolis como o décimo segundo de Sícion, e Criaso como o quinto de Argos, nasceu Moisés no Egito, por meio de quem o povo de Deus foi libertado da escravidão egípcia, na qual convinha que assim fosse provado para que desejasse o auxílio do seu Criador. Alguns julgaram que Prometeu viveu durante o reinado dos reis ora mencionados. Conta-se que ele formou os homens a partir do barro, porque era tido como o melhor mestre de sabedoria; contudo, não fica claro quais homens sábios houve em seus dias.
Diz-se que seu irmão Atlas foi um grande astrólogo; e isso deu ocasião à fábula de que ele sustentava o céu, ainda que a opinião vulgar acerca de ele sustentar o céu pareça antes ter sido sugerida por uma alta montanha que recebeu o seu nome. De fato, a partir daqueles tempos muitas outras coisas fabulosas começaram a ser inventadas na Grécia; contudo, até Cécrops, rei de Atenas, em cujo reinado aquela cidade recebeu o seu nome, e em cujo reinado Deus tirou o seu povo do Egito por meio de Moisés, conta-se que apenas uns poucos heróis mortos foram divinizados, segundo a superstição dos gregos.
Entre esses estavam Melantômice, esposa do rei Criaso, e Forbas, filho deles, que sucedeu ao pai como sexto rei dos argivos, e Iaso, filho de Tríopas, sétimo rei deles, e o nono rei deles, Stênelas, ou Stêneleu, ou Stênelo, pois o seu nome é dado de modos diferentes por diferentes autores. Naqueles tempos também, diz-se que viveu Mercúrio, neto de Atlas por sua filha Maia, segundo o relato comum dos livros. Ele foi famoso por sua habilidade em muitas artes, e as ensinou aos homens, pelo que estes resolveram fazê-lo, e até creram que ele merecia ser, um deus depois da morte.
Diz-se que Hércules foi posterior, ainda que pertencente ao mesmo período; embora alguns, que penso estarem enganados, lhe atribuam uma data anterior à de Mercúrio. Mas, qualquer que tenha sido o tempo em que nasceram, está acordado entre os historiadores sérios, que confiaram à escrita estas coisas antigas, que ambos foram homens, e que mereceram honras divinas dos mortais porque lhes conferiram muitos benefícios para tornar esta vida mais agradável para eles.
Minerva foi muito mais antiga do que esses; pois conta-se que ela apareceu em idade virginal nos tempos de Ógiges, junto ao lago chamado Tritão, do qual também é denominada Tritônia, ela que foi na verdade a inventora de muitas obras, e tanto mais prontamente tida como deusa porque a sua origem era tão pouco conhecida. Pois o que se canta acerca de ela ter surgido da cabeça de Júpiter pertence à região da poesia e da fábula, e não à da história e do fato real.
E os escritores históricos não estão de acordo quanto a quando floresceu Ógiges, em cujo tempo também ocorreu um grande dilúvio, não aquele maior do qual nenhum homem escapou, exceto os que puderam entrar na arca, pois nem a história grega nem a latina dele tiveram conhecimento, mas um dilúvio maior do que aquele que aconteceu depois, no tempo de Deucalião. Pois Varrão começa o livro que mencionei nesta data, e não se propõe, como ponto de partida a partir do qual possa chegar aos assuntos romanos, nada mais antigo do que o dilúvio de Ógiges, isto é, o que aconteceu no tempo de Ógiges.
Ora, os nossos escritores de crônicas, primeiro Eusébio e depois Jerônimo, que nesta opinião seguem inteiramente alguns historiadores anteriores, relatam que o dilúvio de Ógiges aconteceu mais de trezentos anos depois, durante o reinado de Foroneu, segundo rei de Argos. Mas quando quer que ele tenha vivido, Minerva era adorada como deusa quando Cécrops reinava em Atenas, em cujo reinado se conta que a própria cidade foi reconstruída ou fundada.