A Cidade de Deus - Livro XVIII 54

Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel

Da mentira tolíssima dos pagãos, ao fingirem que a religião cristã não duraria além de trezentos e sessenta e cinco anos

Eu poderia reunir estes e muitos outros argumentos semelhantes, se não houvesse passado aquele ano que a adivinhação mentirosa havia prometido e a vaidade enganada havia acreditado. Mas como, poucos anos, completaram-se trezentos e sessenta e cinco anos desde o tempo em que o culto do nome de Cristo foi estabelecido por sua presença na carne e pelos apóstolos, que outra prova precisamos buscar para refutar aquela falsidade?
Pois, para não colocar o início deste período no nascimento de Cristo, porque, como menino e criança, ele não tinha discípulos, contudo, quando começou a tê-los, sem dúvida a doutrina e a religião cristãs então se tornaram conhecidas por sua presença corpórea, isto é, depois que ele foi batizado no rio Jordão pelo ministério de João.
Pois, por causa disso, aquela profecia foi proferida a respeito dele: "Ele dominará de mar a mar, e desde o rio até os confins da terra." Mas, visto que, antes de padecer e ressuscitar dos mortos, a ainda não havia sido definida a todos, mas foi definida na ressurreição de Cristo (pois assim fala o apóstolo Paulo aos atenienses, dizendo: "Mas agora anuncia aos homens que todos, em toda parte, se arrependam, porque estabeleceu um dia em que de julgar o mundo com equidade, por meio do Homem em quem definiu a a todos os homens, ressuscitando-o dentre os mortos"), é melhor que, ao resolver esta questão, partamos daquele ponto, especialmente porque o Espírito Santo foi então dado, assim como convinha que fosse dado depois da ressurreição de Cristo, naquela cidade de onde a segunda lei, isto é, o novo testamento, devia começar.
Pois a primeira, que se chama o antigo testamento, foi dada no monte Sinai por meio de Moisés. Mas, a respeito desta que havia de ser dada por Cristo, foi predito: "De Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor de Jerusalém"; donde ele mesmo disse que o arrependimento em seu nome devia ser pregado entre todas as nações, mas começando por Jerusalém. Ali, portanto, teve origem o culto deste nome, que se cresse em Jesus, o qual morreu e ressuscitou.
Ali esta irrompeu com tão nobres inícios que vários milhares de homens, convertidos ao nome de Cristo com admirável presteza, venderam seus bens para distribuí-los entre os necessitados, chegando assim, por uma santa resolução e ardentíssima caridade, à pobreza voluntária, e preparando-se, em meio aos judeus que enfureciam e sedeavam pelo seu sangue, para combater pela verdade até a morte, não com poder armado, mas com paciência mais poderosa. Se isto foi realizado por nenhuma arte mágica, por que hesitam em crer que o restante pôde ser feito por todo o mundo pelo mesmo poder divino pelo qual isto foi feito?
Mas, supondo que Pedro tenha operado aquele encantamento de modo que tão grande multidão de homens em Jerusalém fosse assim inflamada a adorar o nome de Cristo, que ou o haviam prendido e cravado na cruz, ou o haviam injuriado quando ali pregado, devemos ainda indagar quando hão de completar-se os trezentos e sessenta e cinco anos, contando a partir daquele ano. Ora, Cristo morreu sendo cônsules os Gêmeos, no oitavo dia antes das calendas de abril. Ressuscitou ao terceiro dia, como os apóstolos comprovaram pelo testemunho dos próprios sentidos. Então, quarenta dias depois, subiu ao céu.
Dez dias depois, isto é, no quinquagésimo dia após sua ressurreição, ele enviou o Espírito Santo; então três mil homens creram quando os apóstolos o pregaram. Então, portanto, surgiu o culto daquele nome, como cremos e segundo a verdadeira realidade, pela eficácia do Espírito Santo, mas, como a vaidade ímpia fingiu ou imaginou, pelas artes mágicas de Pedro.
Pouco depois, também, ao operar-se um sinal admirável, quando, à própria palavra de Pedro, certo mendigo, coxo desde o ventre de sua mãe a ponto de ser carregado por outros e posto à porta do templo, onde pedia esmola, foi tornado são em nome de Jesus Cristo, e levantou-se de um salto, cinco mil homens creram, e dali em diante a Igreja cresceu por diversos acréscimos de crentes. Assim apuramos o próprio dia em que aquele ano começou, a saber, aquele em que o Espírito Santo foi enviado, isto é, durante os idos de maio.
E, ao contar os cônsules, os trezentos e sessenta e cinco anos encontram-se completados nos mesmos idos, no consulado de Honório e Eutiquiano. Ora, no ano seguinte, no consulado de Málio Teodoro, quando, segundo aquele oráculo dos demônios ou invenção dos homens, não devia haver religião cristã alguma, não era necessário indagar o que porventura se fez em outras partes da terra.
Mas, como sabemos, na mais notável e eminente cidade de Cartago, na África, Gaudêncio e Jóvio, oficiais do imperador Honório, no décimo quarto dia antes das calendas de abril, derrubaram os templos e quebraram as imagens dos falsos deuses. E daquele tempo até o presente, durante quase trinta anos, quem não o quanto cresceu o culto do nome de Cristo, especialmente depois que muitos se tornaram cristãos dentre aqueles que haviam sido retidos longe da por julgarem verdadeira aquela adivinhação, mas viram, quando se completou aquele mesmo número de anos, que ela era e ridícula?
Nós, portanto, que somos chamados e somos cristãos, não cremos em Pedro, mas naquele em quem Pedro creu, sendo edificados pelos sermões de Pedro acerca de Cristo, não envenenados por seus encantamentos; e não enganados por seus feitiços, mas auxiliados por suas boas obras. O próprio Cristo, que foi o Mestre de Pedro na doutrina que conduz à vida eterna, é também o nosso Mestre.
Mas terminemos agora, enfim, este livro, depois de ter tratado até aqui, e mostrado tanto quanto pareceu suficiente, qual é o curso mortal das duas cidades, a celeste e a terrena, que estão entremeadas desde o princípio até o fim. Destas, a terrena fez para si, dentre os que quis, seja de qualquer outra parte, seja mesmo dentre os homens, falsos deuses a quem pudesse servir com sacrifício; mas aquela que é celeste, e é peregrina sobre a terra, não faz falsos deuses, mas é ela mesma feita pelo verdadeiro Deus, de quem ela própria deve ser o verdadeiro sacrifício. Contudo, ambas igualmente ou gozam de bens temporais, ou são afligidas por males temporais, mas com diversa, esperança diversa e amor diverso, até que devam ser separadas pelo juízo final, e cada uma deva receber o seu próprio fim, do qual não fim. Acerca destes fins de ambas devemos tratar a seguir.