A Cidade de Deus - Livro XVII 3

Livro XVII: os profetas e as promessas de Cristo e da Igreja desde Samuel

Do tríplice sentido das profecias, que ora se referem à Jerusalém terrena, ora à celeste, ora a ambas

Portanto, assim como aquele divino oráculo dirigido a Abraão, Isaque e Jacó, e todos os demais sinais ou dizeres proféticos que se encontram nos escritos sagrados mais antigos, assim também as outras profecias deste tempo dos reis pertencem em parte à nação descendente da carne de Abraão, e em parte àquela sua semente na qual todas as nações são abençoadas como co-herdeiras de Cristo pelo Novo Testamento, para a posse da vida eterna e do reino dos céus. Portanto, pertencem em parte à escrava que gera para a servidão, isto é, à Jerusalém terrena, que está em servidão com seus filhos; mas em parte à cidade livre de Deus, isto é, à verdadeira Jerusalém, eterna nos céus, cujos filhos são todos aqueles que vivem segundo Deus na terra: há, porém, algumas coisas entre elas que se entende pertencerem a ambas, à escrava propriamente, à mulher livre figuradamente.
Portanto, encontram-se enunciados proféticos de três espécies; visto que alguns que se referem à Jerusalém terrena, alguns à celeste, e alguns a ambas. Julgo conveniente provar o que digo por meio de exemplos. O profeta Natã foi enviado para convencer o rei Davi de um pecado atroz, e predizer-lhe que males futuros dele seriam consequentes. Quem pode pôr em dúvida que isto e coisas semelhantes pertencem à cidade terrestre, seja publicamente, isto é, para a segurança ou auxílio do povo, seja privadamente, quando são proferidos, para o bem particular de cada um, enunciados divinos pelos quais algo do futuro se possa conhecer para uso da vida temporal?
Mas onde lemos: "Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que firmarei para a casa de Israel e para a casa de Judá um novo testamento: não segundo o testamento que estabeleci para seus pais no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egito; porque não permaneceram no meu testamento, e eu não me importei com eles, diz o Senhor.
Pois este é o testamento que firmarei para a casa de Israel: depois daqueles dias, diz o Senhor, porei as minhas leis na sua mente, e as escreverei sobre os seus corações, e cuidarei deles; e serei para eles um Deus, e eles serão para mim um povo", sem dúvida isto é profetizado à Jerusalém de cima, cuja recompensa é o próprio Deus, e cujo bem supremo e inteiro consiste em tê-Lo, e em ser Dele. Mas pertence a ambas o fato de a cidade de Deus chamar-se Jerusalém, e de ser profetizado que nela estará a casa de Deus; e esta profecia parece cumprir-se quando o rei Salomão edifica aquele nobilíssimo templo.
Pois estas coisas ambas aconteceram na Jerusalém terrena, como mostra a história, e foram figuras da Jerusalém celeste. E esta espécie de profecia, como que composta e mesclada das duas outras nos antigos livros canônicos, que contêm narrativas históricas, é de grandíssima importância, e exercitou e exercita grandemente os engenhos daqueles que perscrutam a sagrada Escritura. Por exemplo, aquilo que lemos historicamente como predito e cumprido na semente de Abraão segundo a carne, devemos também investigar quanto ao sentido alegórico, como se de cumprir na semente de Abraão segundo a fé.
E a tal ponto isto é assim, que alguns julgaram não haver nesses livros nada predito e realizado, ou realizado embora não predito, que não insinue alguma outra coisa que se deva referir, por significação figurativa, à cidade de Deus do alto, e a seus filhos que são peregrinos nesta vida. Mas, se isto for assim, então os enunciados dos profetas, ou antes, o conjunto daquelas Escrituras que se contam sob o título de Antigo Testamento, serão não de três, mas de duas espécies diferentes.
Pois não haveria ali nada que pertencesse somente à Jerusalém terrestre, se tudo o que ali se diz e se cumpre dela ou a seu respeito significasse algo que também se refere, por prefiguração alegórica, à Jerusalém celeste; mas haveria apenas duas espécies, uma que pertence à Jerusalém livre, a outra a ambas. Mas, assim como, a meu ver, erram grandemente os que são de opinião que nenhum dos registros dos acontecimentos nesse gênero de escritos significa nada mais do que o fato de assim terem sucedido, assim também considero por demais atrevidos os que sustentam que toda a essência de seu conteúdo reside em significações alegóricas.
Portanto, disse que são tríplices, não duplos. Contudo, ao sustentar esta opinião, não censuro aqueles que sejam capazes de extrair de tudo ali um sentido espiritual, salvaguardando apenas, antes de mais nada, a verdade histórica. De resto, que crente pode duvidar de que são ditas em vão aquelas coisas que são tais que, quer se diga terem sido feitas, quer estarem ainda por vir, não convêm nem aos negócios humanos nem aos divinos? Quem não as reconduziria à compreensão espiritual, se pudesse, ou não confessaria que devem ser reconduzidas por quem é capaz?