A Cidade de Deus - Livro XV 17

Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio

Dos dois pais e chefes que provieram de um único progenitor

Visto, pois, que Adão foi o pai de ambas as linhagens, isto é, tanto o pai da linhagem que pertencia à cidade terrena quanto da que pertencia à cidade celeste, quando Abel foi morto e, por sua morte, manifestou um admirável mistério, houve daí em diante duas linhagens que procediam de dois pais, Caim e Sete; e naqueles filhos deles, que convinha registrar, os sinais destas duas cidades começaram a aparecer mais distintamente. Pois Caim gerou Enoque, em cujo nome edificou uma cidade, terrena, que não estava peregrina neste mundo, mas se contentava satisfeita com sua paz e felicidade temporais.
Caim, ademais, significa "posse"; por isso, ao seu nascimento, seu pai ou sua mãe disse: "Adquiri um homem por meio de Deus." Enoque significa "dedicação"; pois a cidade terrena é dedicada neste mundo em que é edificada, porque é neste mundo que ela encontra o fim ao qual visa e aspira.
Além disso, Sete significa "ressurreição", e Enos, seu filho, significa "homem", não como Adão, que também significa homem, mas é usado em hebraico indistintamente para homem e mulher, conforme está escrito: "Macho e fêmea os criou, e os abençoou, e lhes chamou pelo nome de Adão", não deixando lugar para dúvida de que, embora a mulher fosse distintamente chamada Eva, o nome Adão, significando homem, era comum a ambos. Mas Enos significa homem em sentido tão restrito que os linguistas hebreus nos dizem que não pode ser aplicado à mulher: é o equivalente ao "filho da ressurreição", quando não se casam nem são dados em casamento.
Pois não haverá geração naquele lugar ao qual a regeneração nos houver conduzido. Por isso julgo não ser irrelevante observar que naquelas gerações que se propagam daquele que se chama Sete, embora se diga que foram gerados tanto filhas quanto filhos, nenhuma mulher é expressamente registrada pelo nome; mas naquelas que provieram de Caim, no próprio término a que a linhagem chega, a última pessoa nomeada como gerada é uma mulher. Pois lemos: "Metusael gerou Lameque. E Lameque tomou para si duas mulheres: o nome de uma era Ada, e o nome da outra Zilá."
"E Ada deu à luz Jabal: ele foi o pai dos pastores que habitam em tendas. E o nome de seu irmão era Jubal: ele foi o pai de todos os que tocam harpa e órgão. E Zilá também deu à luz Tubalcaim, instrutor de todo artífice em bronze e ferro; e a irmã de Tubalcaim foi Naamá." Aqui terminam todas as gerações de Caim, em número de oito, incluindo Adão, a saber: sete de Adão até Lameque, que se casou com duas mulheres, e cujos filhos, entre os quais também é nomeada uma mulher, formam a oitava geração.
Com isso se significa elegantemente que a cidade terrena terá, até o seu término, gerações carnais procedentes do intercurso de homens e mulheres. E por isso as próprias mulheres do homem que é o último pai nomeado da linhagem de Caim são registradas com seus próprios nomes, prática em parte alguma seguida antes do dilúvio, exceto no caso de Eva.
Ora, assim como Caim, que significa posse, fundador da cidade terrena, e seu filho Enoque, que significa dedicação, em cujo nome ela foi fundada, indicam que esta cidade é terrena tanto em seu princípio quanto em seu fim, cidade na qual nada mais se espera além do que se pode ver neste mundo, assim Sete, que significa ressurreição, sendo o pai de gerações registradas à parte das outras, devemos considerar o que esta história sagrada diz acerca de seu filho.