A Cidade de Deus - Livro XIV 24
Livro XIV: as duas cidades e os dois amores, e a concupiscência depois do pecado
Que, se os homens tivessem permanecido inocentes e obedientes no Paraíso, os órgãos generativos teriam estado sujeitos à vontade, assim como os demais membros
O homem, portanto, teria semeado a semente, e a mulher a teria recebido, conforme a necessidade exigisse, sendo os órgãos generativos movidos pela vontade, e não excitados pela concupiscência. Pois movemos à vontade não apenas aqueles membros que são providos de articulações de osso sólido, como as mãos, os pés e os dedos, mas movemos também à vontade aqueles que são compostos de nervos frouxos e moles: podemos pô-los em movimento, ou estendê-los, ou dobrá-los e torcê-los, ou contraí-los e enrijecê-los, como fazemos com os músculos da boca e do rosto.
Os pulmões, que são as mais delicadas de todas as vísceras, exceto o cérebro, e que por isso são cuidadosamente abrigados na cavidade do peito, contudo, para todos os fins de inalar e exalar o ar, e de emitir e modular a voz, obedecem à vontade quando respiramos, expiramos, falamos, gritamos ou cantamos, assim como o fole obedece ao ferreiro ou ao organista.
Não insistirei no fato de que alguns animais têm um poder natural de mover um único ponto da pele com que todo o seu corpo é coberto, caso tenham sentido sobre ela algo de que desejam livrar-se: um poder tão grande que, por esse tremor estremecedor da pele, podem não só sacudir as moscas que sobre eles pousaram, mas até mesmo as lanças que se cravaram em sua carne. O homem, é verdade, não possui esse poder; mas será isso razão para supor que Deus não pudesse concedê-lo a tais criaturas que Ele quisesse que o possuíssem?
E portanto o próprio homem também poderia muito bem ter gozado de poder absoluto sobre os seus membros, se não o tivesse perdido por sua desobediência; pois não era difícil para Deus formá-lo de tal modo que aquilo que agora se move em seu corpo apenas pela concupiscência se movesse somente pela vontade.
Sabemos também que alguns homens são constituídos de maneira diferente dos outros, e possuem alguma faculdade rara e notável de fazer com seu corpo o que outros homens não conseguem por esforço algum, e de fato mal acreditam quando ouvem dizer que outros o fazem. Há pessoas que conseguem mover as orelhas, ou uma de cada vez, ou ambas ao mesmo tempo. Há algumas que, sem mover a cabeça, conseguem fazer descer o cabelo sobre a testa, e mover todo o couro cabeludo para trás e para frente à vontade. Algumas, comprimindo levemente o estômago, fazem subir uma quantidade e variedade incríveis de coisas que engoliram, e produzem o que bem quiserem, inteiramente intactas, como se de um saco.
Algumas imitam com tanta precisão as vozes de aves, de feras e de outros homens que, a menos que sejam vistas, não se pode perceber a diferença. Algumas têm tal domínio sobre os intestinos que conseguem soltar ventos continuamente à vontade, de modo a produzir o efeito de um canto. Eu mesmo conheci um homem que tinha o costume de suar sempre que quisesse. É bem sabido que alguns choram quando querem, e derramam uma torrente de lágrimas. Mas muito mais incrível é o que alguns de nossos irmãos viram há bem pouco tempo.
Havia um presbítero chamado Restituto, na paróquia da Igreja Calamense, que, tantas vezes quantas quisesse (e era solicitado a fazê-lo por aqueles que desejavam testemunhar fenômeno tão notável), quando alguém imitava os lamentos dos que choram, ficava de tal modo insensível, e jazia em estado tão semelhante à morte, que não só não tinha sensação alguma quando o beliscavam e o picavam, mas até mesmo quando lhe aplicavam fogo, e por ele era queimado, não tinha nenhuma percepção da dor, exceto depois, por causa da ferida.
E que seu corpo permanecia imóvel, não por força de seu autocontrole, mas porque estava insensível, comprovava-se pelo fato de que ele não respirava mais do que um morto; e, contudo, ele dizia que, quando alguém falava com mais clareza do que o habitual, ouvia a voz, mas como se viesse de muito longe.
Vendo, pois, que mesmo nesta vida mortal e miserável o corpo serve a alguns homens por meio de muitos movimentos e disposições notáveis, além do curso ordinário da natureza, que razão há para duvidar de que, antes que o homem se envolvesse por seu pecado nesta condição fraca e corruptível, seus membros pudessem ter servido à sua vontade para a propagação da prole sem concupiscência? O homem foi entregue a si mesmo porque abandonou a Deus, ao buscar bastar-se a si próprio; e, desobedecendo a Deus, não pôde obedecer nem a si mesmo. Daí provém que ele esteja envolvido na evidente miséria de não poder viver como deseja.
Pois, se vivesse como deseja, julgar-se-ia bem-aventurado; mas não poderia sê-lo se vivesse perversamente.