A Cidade de Deus - Livro XIII 9
Livro XIII: a queda, a entrada da morte e o pecado original
Se devemos dizer que o momento da morte, no qual cessa a sensação, ocorre na experiência dos que morrem ou na dos que já morreram
Quanto ao ponto do tempo em que as almas dos bons e dos maus se separam do corpo, devemos dizer que é depois da morte, ou antes na morte? Se é depois da morte, então não é a morte que é boa ou má, visto que a morte já passou e ficou para trás, mas é a vida na qual a alma agora ingressou. A morte foi um mal enquanto estava presente, isto é, enquanto era padecida pelos que morriam; pois a eles trazia consigo uma experiência severa e penosa, da qual os bons fazem bom uso. Mas, uma vez passada a morte, como pode aquilo que já não existe ser bom ou mau?
Ainda mais, se examinarmos a questão mais de perto, veremos que mesmo aquela dor aguda e penosa que os que morrem experimentam não é a própria morte. Pois, enquanto têm alguma sensação, estão certamente ainda vivos; e, se ainda vivos, deve-se antes dizer que se encontram num estado anterior à morte do que na morte. Pois, quando a morte de fato chega, ela nos rouba toda sensação corporal, a qual, enquanto a morte apenas se aproxima, é dolorosa. E assim é difícil explicar como falamos daqueles que ainda não estão mortos, mas se agonizam em sua última e mortal extremidade, como estando no transe da morte.
Contudo, que outra coisa podemos chamá-los senão pessoas que morrem? Pois, quando a morte que era iminente de fato chegar, já não os poderemos chamar de moribundos, mas de mortos. Ninguém, portanto, está morrendo a não ser estando vivo; pois mesmo aquele que se acha na última extremidade da vida e, como dizemos, exalando o último suspiro, ainda vive. A mesma pessoa está, pois, ao mesmo tempo morrendo e vivendo, mas aproximando-se da morte, afastando-se da vida; todavia na vida, porque seu espírito ainda permanece no corpo; ainda não na morte, porque seu espírito ainda não abandonou o corpo. Mas se, quando o tiver abandonado, o homem nem mesmo então estiver na morte, e sim depois da morte, quem dirá quando ele está na morte?
Por um lado, ninguém pode ser chamado de moribundo, se um homem não pode estar morrendo e vivendo ao mesmo tempo; e, enquanto a alma estiver no corpo, não podemos negar que ele está vivo. Por outro lado, se o homem que se aproxima da morte deve antes ser chamado de moribundo, não sei então quem é que está vivo.