A Cidade de Deus - Livro XIII 11

Livro XIII: a queda, a entrada da morte e o pecado original

Se alguém pode ao mesmo tempo estar vivo e morto

Mas se é absurdo dizer que um homem está na morte antes de chegar à morte (pois para que corre o seu curso enquanto passa pela vida, se está na morte?), e se ofende o uso comum falar de um homem como estando ao mesmo tempo vivo e morto, tanto quanto ofende falar dele como estando ao mesmo tempo adormecido e desperto, resta perguntar quando é que um homem está morrendo. Pois, antes que a morte venha, ele não está morrendo, mas vivendo; e quando a morte chegou, ele não está morrendo, mas morto. Um estado é antes, o outro depois da morte. Quando, então, está ele na morte, de modo que possamos dizer que está morrendo?
Pois, assim como três tempos, antes da morte, na morte, depois da morte, também três estados correspondentes: vivendo, morrendo, morto. E é muito difícil definir quando um homem está na morte ou morrendo, quando ele nem está vivendo, o que é antes da morte, nem morto, o que é depois da morte, mas morrendo, o que é na morte. Pois, enquanto a alma estiver no corpo, sobretudo se permanecer a consciência, o homem certamente vive; pois corpo e alma constituem o homem. E assim, antes da morte, não se pode dizer que ele esteja na morte; mas quando, por outro lado, a alma partiu, e toda sensação corporal se extinguiu, a morte é passada, e o homem está morto.
Entre estes dois estados a condição de quem morre não encontra lugar; pois, se um homem ainda vive, a morte não chegou; se ele deixou de viver, a morte é passada. Nunca, então, está ele morrendo, isto é, compreendido no estado de morte. Assim também na passagem do tempo: tu tentas pôr o dedo sobre o presente, e não consegues encontrá-lo, porque o presente não ocupa espaço algum, mas é apenas a transição do tempo do futuro para o passado. Devemos então concluir que assim não morte alguma do corpo? Pois, se há, onde está ela, que não está em ninguém, e ninguém pode estar nela?
Visto que, de fato, se ainda vida, a morte ainda não existe; pois este estado é antes da morte, não na morte: e se a vida cessou, a morte não está presente; pois este estado é depois da morte, não na morte. Por outro lado, se não morte nem antes nem depois, que queremos dizer quando dizemos "depois da morte" ou "antes da morte"? Este é um modo tolo de falar, se não morte. E quem dera tivéssemos vivido tão bem no Paraíso, que em pura verdade não houvesse agora morte alguma! Mas ela não existe agora, como é coisa tão grave, que nenhuma habilidade basta nem para explicá-la nem para dela escapar.
Falemos, então, do modo costumeiro, pois ninguém deve falar de outra maneira, e chamemos o tempo antes que a morte venha de "antes da morte"; como está escrito: "A ninguém louves antes da sua morte." E quando ela houver acontecido, digamos que "depois da morte" isto ou aquilo se deu. E do tempo presente falemos o melhor que pudermos, como quando dizemos: "Ele, ao morrer, fez o seu testamento, e deixou isto ou aquilo a tais e tais pessoas", embora, é claro, não pudesse fazê-lo a menos que estivesse vivo, e fizesse isto antes da morte, e não na morte.
E usemos a mesma fraseologia que a Escritura usa; pois ela não tem escrúpulo em dizer que os mortos não estão depois, mas na morte. Assim aquele verso: "Pois na morte não lembrança de Vós." Pois até a ressurreição os homens são justamente ditos estarem na morte; como cada um é dito estar no sono até despertar. Contudo, embora possamos dizer das pessoas que dormem que estão dormindo, não podemos falar deste modo dos mortos, e dizer que estão morrendo. Pois, no que toca à morte do corpo, da qual ora falamos, não se pode dizer que os que estão separados de seus corpos continuem morrendo.
Mas isto, vede, é justamente o que eu dizia: que nenhuma palavra pode explicar como os que morrem são ditos viver, ou como os mortos são ditos, mesmo depois da morte, estar na morte. Pois como podem eles estar depois da morte, se estão na morte, sobretudo quando nem sequer os chamamos de morrendo, como chamamos os que estão no sono de dormindo; e os que estão no langor de lânguidos; e os que estão na tristeza de tristes; e os que estão na vida de vivos? E todavia os mortos, até que ressuscitem, são ditos estar na morte, mas não podem ser chamados de morrendo.
E portanto penso que não foi sem conveniência nem impropriamente que veio a suceder, embora não pela intenção do homem, mas talvez por desígnio divino, que esta palavra latina moritur não pode ser declinada pelos gramáticos segundo a regra seguida por palavras semelhantes. Pois oritur a forma ortus est para o perfeito; e todos os verbos semelhantes formam este tempo a partir de seus particípios perfeitos. Mas se perguntamos o perfeito de moritur, obtemos a resposta regular, mortuus est, com um duplo u.
Pois assim se pronuncia mortuus, como fatuus, arduus, conspicuus, e palavras semelhantes, que não são particípios perfeitos, mas adjetivos, e se declinam sem consideração ao tempo. Mas mortuus, embora na forma um adjetivo, é usado como particípio perfeito, como se houvesse de declinar-se aquilo que não pode ser declinado; e assim convenientemente veio a suceder que, como a própria coisa não pode de fato ser declinada, assim tampouco a palavra que significa o ato pode ser declinada. Contudo, com o auxílio da graça do nosso Redentor, podemos ao menos conseguir declinar a segunda.
Pois aquela é ainda mais grave, e, na verdade, de todos os males o pior, visto que consiste não na separação da alma e do corpo, mas na união de ambos na morte eterna. E ali, em flagrante contraste com a nossa presente condição, os homens não estarão antes nem depois da morte, mas sempre na morte; e assim nunca vivos, nunca mortos, mas morrendo sem fim. E nunca pode um homem estar mais desastrosamente na morte do que quando a própria morte for imortal.