A Cidade de Deus - Livro X 30
Livro X: Porfírio, o culto devido a Deus e a verdadeira via de redenção da alma
As emendas e modificações de Porfírio ao platonismo
Se se considera inconveniente emendar algo em que Platão tocou, por que o próprio Porfírio fez emendas, e não poucas? Pois é coisa muito certa que Platão escreveu que as almas dos homens retornam, após a morte, aos corpos dos animais. Plotino também, mestre de Porfírio, sustentava essa opinião; contudo, Porfírio a rejeitou com justiça. Era ele de parecer que as almas humanas retornam de fato a corpos humanos, mas não aos corpos que haviam deixado, e sim a outros corpos novos. Recuava ante a outra opinião, para que uma mulher que houvesse retornado a uma mula não viesse, porventura, a carregar o próprio filho às costas.
Não recuou, todavia, ante uma teoria que admitia a possibilidade de uma mãe voltar como uma jovem e desposar o próprio filho. Quão mais honrosa é a crença que foi ensinada pelos santos e verídicos anjos, proferida pelos profetas que eram movidos pelo Espírito de Deus, pregada por Aquele que foi anunciado como o Salvador vindouro por Seus arautos precursores e pelos apóstolos que Ele enviou, e que encheram o mundo inteiro com o evangelho: quão mais honrosa, repito, é a crença de que as almas retornam uma vez por todas aos seus próprios corpos, do que aquela de que retornam vez após vez a diversos corpos?
Não obstante, Porfírio, como eu disse, aperfeiçoou consideravelmente essa opinião, ao menos na medida em que sustentou que as almas humanas só podiam transmigrar para corpos humanos, e não fez escrúpulo algum em demolir os cárceres bestiais nos quais Platão quisera lançá-las. Diz ele também que Deus pôs a alma no mundo para que ela reconhecesse os males da matéria, e retornasse ao Pai, e fosse para sempre emancipada do contato poluidor da matéria.
E embora aqui haja algum pensamento inadequado (pois a alma é antes dada ao corpo para que faça o bem; porquanto não aprenderia o mal se não o praticasse), todavia ele corrige a opinião dos outros platônicos, e isso num ponto de não pequena importância, visto que reconhece que a alma, purgada de todo mal e recebida na presença do Pai, jamais voltará a sofrer os males desta vida.
Por essa opinião ele subverteu inteiramente o dogma platônico predileto, segundo o qual, assim como os mortos são feitos dos vivos, assim os vivos são feitos dos mortos; e refutou a ideia que Virgílio parece ter adotado de Platão, a saber, que as almas purificadas que foram enviadas aos Campos Elísios (o nome poético para as alegrias dos bem-aventurados) são chamadas ao rio Letes, isto é, ao esquecimento do passado,
"Para que de novo desçam à terra, Não recordando as coisas de antes, E com cega inclinação anseiem Por voltar a corpos de carne."
Isso não agradou a Porfírio, e com muita justiça; pois é de fato insensato crer que as almas desejariam retornar daquela vida, que não pode ser muito bem-aventurada senão pela certeza de sua permanência, e voltar a esta vida e à poluição dos corpos corruptíveis, como se o resultado da perfeita purificação fosse apenas tornar desejável a contaminação.
Pois, se a perfeita purificação efetua o esquecimento de todos os males, e o esquecimento dos males gera o desejo de um corpo no qual a alma possa de novo enredar-se nos males, então a suprema felicidade será a causa da infelicidade, e a perfeição da sabedoria a causa da insensatez, e a mais pura purificação a causa da contaminação. E, por mais longa que dure a bem-aventurança da alma, não pode fundar-se na verdade se, para ser bem-aventurada, precisa ser enganada. Pois não pode ser bem-aventurada a menos que esteja livre de temor.
Mas, para estar livre de temor, ela deve estar sob a falsa impressão de que será sempre bem-aventurada: falsa impressão, pois está destinada a ser também, em algum momento, miserável. Como, então, há de a alma alegrar-se na verdade, se a sua alegria se funda na falsidade? Porfírio viu isso e, por isso, disse que a alma purificada retorna ao Pai, para que nunca mais se enrede no contato poluidor com o mal. É falsa, portanto, a opinião de alguns platônicos, segundo a qual há uma revolução necessária que arrebata as almas e de novo as traz de volta às mesmas coisas. Mas, ainda que fosse verdadeira, que vantagem haveria em conhecê-la?
Atrever-se-iam os platônicos a alegar sua superioridade sobre nós, porque nesta vida ignorávamos aquilo que eles próprios estavam fadados a ignorar, quando aperfeiçoados em pureza e sabedoria noutra vida melhor, e que devem ignorar se hão de ser bem-aventurados? Se fosse absurdíssimo e tolo dizê-lo, então certamente devemos preferir a opinião de Porfírio à ideia de uma circulação das almas através de constante alternância de felicidade e miséria.
E se isso é justo, eis aqui um platônico emendando Platão, eis aqui um homem que viu o que Platão não viu, e que não recuou ante a correção de tão ilustre mestre, mas preferiu a verdade a Platão.