A Cidade de Deus - Livro X 19

Livro X: Porfírio, o culto devido a Deus e a verdadeira via de redenção da alma

Da razoabilidade de oferecer, como ensina a verdadeira religião, um sacrifício visível ao único Deus verdadeiro e invisível

Quanto àqueles que julgam que esses sacrifícios visíveis convém serem oferecidos aos outros deuses, mas que os sacrifícios invisíveis, as graças da pureza da mente e da santidade da vontade, devem ser oferecidos, como maiores e melhores, ao Deus invisível, ele próprio maior e melhor do que todos os outros, estes devem estar esquecidos de que tais sacrifícios visíveis são sinais dos invisíveis, assim como as palavras que proferimos são os sinais das coisas.
E, portanto, assim como na oração ou no louvor dirigimos palavras inteligíveis Àquele a quem em nosso coração oferecemos os próprios sentimentos que estamos expressando, do mesmo modo devemos compreender que no sacrifício oferecemos sacrifício visível somente Àquele a quem em nosso coração devemos apresentar-nos como sacrifício invisível. É então que os anjos, e todas aquelas potestades superiores que são poderosas por sua bondade e piedade, nos contemplam com prazer, e se alegram conosco e nos auxiliam até o limite de seu poder. Mas se lhes oferecemos tal culto, eles o recusam; e quando, em alguma missão junto aos homens, se tornam visíveis aos sentidos, eles positivamente o proíbem.
Exemplos disso ocorrem na Sagrada Escritura. Alguns imaginaram que deveriam, por adoração ou sacrifício, prestar aos anjos a mesma honra que é devida a Deus, e foram impedidos de fazê-lo pelos próprios anjos, e ordenados a rendê-la Àquele a quem somente sabem que ela é devida. E os santos anjos foram nisto imitados por santos homens de Deus. Pois Paulo e Barnabé, quando haviam realizado um milagre de cura em Licaônia, foram tidos por deuses, e os licaônios desejaram sacrificar-lhes, mas eles, humilde e piedosamente, recusaram essa honra, e lhes anunciaram o Deus em quem deveriam crer.
E aqueles espíritos enganadores e soberbos, que exigem culto, fazem-no simplesmente porque sabem que ele é devido ao Deus verdadeiro. Pois aquilo em que eles se comprazem não é, como diz Porfírio e alguns imaginam, o cheiro das vítimas, mas as honras divinas. De fato, eles têm abundância de odores por toda parte, e se quisessem mais, poderiam provê-los a si mesmos.
Mas os espíritos que arrogam a si mesmos a divindade deleitam-se não com a fumaça de carcaças, mas com o espírito suplicante que enganam e mantêm em sujeição, e impedem de aproximar-se de Deus, impedindo-o de oferecer-se a si mesmo em sacrifício a Deus, ao induzi-lo a sacrificar a outros.