A Cidade de Deus - Livro X 1

Livro X: Porfírio, o culto devido a Deus e a verdadeira via de redenção da alma

Que os platônicos reconheceram que só o culto ao Deus único pode dar a felicidade, ainda que tenham permitido o culto a muitos deuses

É opinião assente de todos os que usam a razão que todos os homens desejam ser felizes. Mas quem são os felizes, ou como o vêm a ser, eis questões acerca das quais a fraqueza do entendimento humano suscita intermináveis e acaloradas controvérsias, nas quais os filósofos consumiram suas forças e dispenderam seu ócio. Aduzir e discutir suas várias opiniões seria fastidioso e é desnecessário.
O leitor de recordar o que dissemos no oitavo livro, ao fazermos uma seleção dos filósofos com quem poderíamos discutir a questão acerca da vida futura de felicidade, isto é, se podemos alcançá-la prestando honras divinas ao único Deus verdadeiro, Criador de todos os deuses, ou adorando muitos deuses; e não esperará que repitamos aqui o mesmo argumento, sobretudo porque, ainda que o tenha esquecido, pode refrescar a memória relendo-o.
Pois fizemos seleção dos platônicos, justamente tidos por os mais nobres dos filósofos, porque tiveram a perspicácia de perceber que a alma humana, imortal e racional, ou intelectual, como é, não pode ser feliz senão participando da luz daquele Deus por quem tanto ela mesma como o mundo foram feitos; e também que a vida feliz que todos os homens desejam não pode ser alcançada por nenhum que não se una, com amor puro e santo, àquele bem supremo único, o Deus imutável.
Mas como até esses filósofos, quer condescendendo com a tolice e a ignorância do povo, quer, como diz o apóstolo, "tornando-se vãos em seus pensamentos", supuseram ou permitiram que outros supusessem que se devia adorar muitos deuses, de modo que alguns deles consideraram que se deveria render honra divina, por culto e sacrifício, até aos demônios (erro que refutei), devemos agora, com a ajuda de Deus, averiguar o que pensam acerca de nosso culto religioso e de nossa piedade aqueles espíritos imortais e bem-aventurados que habitam os lugares celestiais entre dominações, principados e potestades, a quem os platônicos chamam deuses, e alguns ora bons demônios, ora, como nós, anjos: isto é, para dizê-lo mais claramente, se os anjos desejam que lhes ofereçamos sacrifício e culto, e que lhes consagremos nossos bens e a nós mesmos, ou se desejam que tudo isso seja para Deus, que é deles e nosso.
Pois este é o culto que se deve à Divindade, ou, para falar com mais exatidão, à Deidade; e, para exprimir este culto numa palavra, visto não me ocorrer nenhum termo latino suficientemente preciso, valer-me-ei, sempre que necessário, de uma palavra grega. Latreia, sempre que ocorre na Escritura, é vertida pela palavra serviço.
Mas aquele serviço que se deve aos homens, e em referência ao qual o apóstolo escreve que os servos devem estar sujeitos a seus próprios senhores, é em geral designado por outra palavra em grego; ao passo que o serviço que se presta a Deus pelo culto é sempre, ou quase sempre, chamado latreia no uso daqueles que escreveram a partir dos oráculos divinos. Este não pode ser tão bem chamado simplesmente "culto" (cultus), pois nesse caso não pareceria devido exclusivamente a Deus; porque a mesma palavra se aplica ao respeito que rendemos quer à memória, quer à presença viva dos homens. Dela também derivamos as palavras agricultura, colono e outras.
E os pagãos chamam a seus deuses "coelícolas" (habitantes do céu), não porque adorem o céu, mas porque nele habitam e, por assim dizer, o colonizam: não no sentido em que chamamos colonos àqueles que estão ligados ao solo natal para cultivá-lo sob o domínio dos proprietários, mas no sentido em que o grande mestre da língua latina diz: "Houve uma antiga cidade habitada por colonos tírios." Chamou-lhes colonos, não porque cultivassem o solo, mas porque habitavam a cidade. Assim também, as cidades que se desmembraram de cidades maiores são chamadas colônias.
Por conseguinte, embora seja bem verdade que, usando a palavra num sentido especial, o "culto" não possa ser rendido senão a Deus, todavia, como a palavra se aplica também a outras coisas, o culto devido a Deus não pode em latim ser expresso por esta palavra.
A palavra "religião" poderia parecer exprimir mais definidamente o culto devido a Deus, e por isso os tradutores latinos usaram esta palavra para representar threskeia; contudo, como não os incultos, mas também os mais bem instruídos, usam a palavra religião para exprimir laços humanos, relações e afinidades, introduzir-se-ia inevitavelmente ambiguidade ao usar esta palavra no tratar do culto de Deus, sendo nós incapazes de dizer que religião não é outra coisa senão o culto de Deus sem contradizer o uso comum, que aplica esta palavra à observância das relações sociais.
A "piedade", por sua vez, ou, como dizem os gregos, eusebeia, é comumente entendida como a designação própria do culto de Deus. Contudo, esta palavra também se usa para o cumprimento dos deveres para com os pais. O povo comum também a emprega para as obras de caridade, o que, suponho, provém da circunstância de que Deus ordena a prática de tais obras e declara que com elas se compraz, em lugar de ou de preferência aos sacrifícios. Desse uso veio também a acontecer que o próprio Deus é chamado piedoso, sentido em que os gregos nunca usam eusebein, embora eusebeia seja aplicada às obras de caridade também pelo seu povo comum.
Em algumas passagens da Escritura, portanto, buscaram preservar a distinção usando não eusebeia, a palavra mais geral, mas theosebeia, que literalmente denota o culto de Deus. Nós, por outro lado, não podemos exprimir nenhuma dessas ideias por uma palavra.
Este culto, pois, que em grego se chama latreia, e em latim "servitus" (serviço), mas o serviço devido a Deus; este culto, que em grego se chama threskeia, e em latim "religio", mas a religião pela qual estamos ligados a Deus; este culto, que chamam theosebeia, mas que não podemos exprimir numa palavra, e a que chamamos o culto de Deus: este, dizemos nós, pertence àquele Deus que é o Deus verdadeiro, e que faz deuses aos seus adoradores.
E portanto, quaisquer que sejam esses imortais e bem-aventurados habitantes do céu, se não nos amam e não desejam que sejamos bem-aventurados, então não devemos adorá-los; e se nos amam e desejam a nossa felicidade, não podem querer que sejamos feitos felizes por nenhum outro meio que não aquele de que eles próprios gozaram: pois como poderiam querer que a nossa bem-aventurança brotasse de uma fonte, e a deles de outra?