A Cidade de Deus - Livro VII 7
Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna
Se é razoável separar Jano e Término como duas divindades distintas
Quem é, então, Jano, por quem Varrão começa? Ele é o mundo. Sem dúvida uma resposta brevíssima e inequívoca. Por que, então, dizem que os princípios das coisas pertencem a ele, mas os fins a um outro que chamam Término? Pois dizem que dois meses foram dedicados a esses dois deuses, em referência aos princípios e aos fins: janeiro a Jano, e fevereiro a Término, além daqueles dez meses que começam com março e terminam com dezembro.
E dizem que essa é a razão pela qual as Terminálias são celebradas no mês de fevereiro, o mesmo mês em que se faz a purificação sagrada que eles chamam de Februum, e da qual o mês deriva seu nome. Os princípios das coisas, portanto, pertencem ao mundo, que é Jano, e não também os fins, visto que outro deus foi posto sobre eles? Não admitem eles que todas as coisas que dizem começar neste mundo também chegam ao fim neste mundo? Que loucura é essa, dar-lhe apenas metade do poder na obra, quando em sua imagem lhe dão duas faces!
Não seria modo muito mais elegante de interpretar a imagem de duas faces dizer que Jano e Término são o mesmo, e que uma face se refere aos princípios e a outra aos fins? Pois aquele que trabalha deve ter consideração por ambos. Porque quem, em todo empreendimento de atividade, não olha para trás, ao princípio, não olha para a frente, ao fim. Por isso é necessário que a intenção prospectiva esteja ligada à memória retrospectiva. Pois como alguém há de descobrir como terminar algo, se esqueceu o que era aquilo que havia começado?
Mas se julgavam que a vida bem-aventurada começa neste mundo e se aperfeiçoa além do mundo, e por essa razão atribuíam a Jano, isto é, ao mundo, somente o poder dos princípios, certamente deveriam ter preferido Término a ele, e não deveriam tê-lo excluído do número dos deuses seletos. Contudo, mesmo agora, quando os princípios e os fins das coisas temporais são representados por esses dois deuses, maior honra se deveria ter dado a Término.
Pois maior é a alegria que se sente quando algo se conclui; mas as coisas começadas são sempre causa de muita ansiedade até que sejam levadas a termo, fim esse que aquele que começa algo grandemente anseia, no qual fixa a mente, que espera, que deseja; nem jamais alguém se regozija de algo que começou, a menos que seja levado a termo.