A Cidade de Deus - Livro VII 6

Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna

Sobre a opinião de Varrão, de que Deus é a alma do mundo, a qual, contudo, em suas diversas partes, possui muitas almas cuja natureza é divina

O mesmo Varrão, então, ainda falando de modo antecipado, diz que pensa ser Deus a alma do mundo (que os gregos chamam κόσμος), e que este próprio mundo é Deus; mas, assim como um homem sábio, embora seja constituído de corpo e mente, é todavia chamado sábio por causa da mente, assim o mundo é chamado Deus por causa da mente, ainda que seja constituído de mente e corpo.
Aqui ele parece, ao menos de algum modo, reconhecer um Deus; mas, para introduzir outros mais, acrescenta que o mundo se divide em duas partes, o céu e a terra, as quais novamente se dividem cada uma em duas partes, o céu em éter e ar, a terra em água e solo; de todas estas, o éter é a mais alta, o ar a segunda, a água a terceira, e a terra a mais baixa. Todas estas quatro partes, diz ele, estão cheias de almas: as que estão no éter e no ar são imortais, e as que estão na água e na terra são mortais.
Desde a parte mais alta dos céus até a órbita da lua almas, a saber, as estrelas e os planetas; e estes não são apenas tidos por deuses, mas também vistos como tais. E entre a órbita da lua e o começo da região das nuvens e dos ventos almas aéreas; mas estas são vistas com a mente, não com os olhos, e são chamadas Heróis, Lares e Gênios. Esta é a teologia natural que se expõe brevemente nestes enunciados antecipatórios, e que satisfez não Varrão, mas também muitos outros filósofos.
Isto eu devo discutir com mais cuidado quando, com a ajuda de Deus, eu houver concluído o que ainda me resta dizer acerca da teologia civil, no que ela diz respeito aos deuses seletos.