A Cidade de Deus - Livro VII 30

Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna

Como a piedade distingue o Criador das criaturas, de modo que, em lugar de um só Deus, não se adorem tantos deuses quantas são as obras do único autor

E agora, para começar a percorrer aquelas obras do único Deus verdadeiro, por causa das quais estes fizeram para si muitos e falsos deuses, ao mesmo tempo que tentam dar uma interpretação honrosa aos seus muitos mistérios, os mais abomináveis e os mais infames: nós adoramos aquele Deus que estabeleceu para as naturezas por Ele criadas tanto os princípios quanto o fim do seu existir e do seu mover; que detém, conhece e dispõe as causas das coisas; que criou a virtude das sementes; que deu às criaturas que quis uma alma racional, a qual se chama mente; que concedeu a faculdade e o uso da fala; que comunicou o dom de predizer as coisas futuras aos espíritos que Lhe pareceram bem; que também Ele mesmo prediz as coisas futuras, por meio de quem Lhe apraz, e por meio de quem quer remove as doenças; que, quando o gênero humano deve ser corrigido e castigado por guerras, regula também os princípios, o progresso e os fins dessas guerras; que criou e governa o mais veemente e o mais violento fogo deste mundo, em devida relação e proporção aos demais elementos da imensa natureza; que é o governador de todas as águas; que fez o sol, o mais brilhante de todas as luzes materiais, e lhe deu poder e movimento adequados; que não retirou, nem mesmo dos habitantes do mundo inferior, o seu domínio e o seu poder; que destinou às naturezas mortais a semente e o alimento que lhes convêm, secos ou líquidos; que firma e torna fecunda a terra; que generosamente concede os seus frutos aos animais e aos homens; que conhece e ordena não apenas as causas principais, mas também as causas subsequentes; que determinou para a lua o seu movimento; que oferece no céu e na terra os caminhos para a passagem de um lugar a outro; que concedeu também às mentes humanas, que Ele criou, o conhecimento das várias artes para auxílio da vida e da natureza; que estabeleceu a união do macho e da fêmea para a propagação da prole; que favoreceu as sociedades dos homens com o dom do fogo terrestre para os fins mais simples e mais familiares, para arder no lar e para dar luz.
Estas são, pois, as coisas que aquele homem agudíssimo e doutíssimo, Varrão, se esforçou por distribuir entre os deuses seletos, por meio de não sei que interpretação física, que ele recebeu de outras fontes e também conjeturou por si mesmo. Mas estas coisas o único Deus verdadeiro as faz e realiza, porém como o mesmo Deus, isto é, como Aquele que está inteiro em toda parte, não encerrado em nenhum espaço, não preso por nenhuma cadeia, não mutável em nenhuma parte do seu ser, enchendo o céu e a terra com o seu poder onipresente, não com uma natureza necessitada. Por isso, governa todas as coisas de tal maneira que lhes permite realizar e exercer os seus próprios movimentos.
Pois, embora nada possam ser sem Ele, não são o que Ele é. Ele também faz muitas coisas por meio dos anjos; mas somente de si mesmo torna bem-aventurados os anjos. Assim também, ainda que envie os anjos aos homens para certos fins, não por isso torna os homens bem-aventurados pelo bem que é inerente aos anjos, mas por si mesmo, como o faz aos próprios anjos.