A Cidade de Deus - Livro VII 28

Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna

Que a doutrina de Varrão acerca da teologia não é coerente consigo mesma em parte alguma

Com que propósito, então, esse homem tão erudito e tão perspicaz, Varrão, tenta, por assim dizer, mediante sutil disputa, reduzir e referir todos esses deuses ao céu e à terra? Ele não o consegue. Escapam-lhe das mãos como água; encolhem-se; escorregam para baixo e caem.
Pois, prestes a falar das fêmeas, isto é, das deusas, ele diz: "Visto que, como observei no primeiro livro acerca dos lugares, o céu e a terra são as duas origens dos deuses, razão pela qual são chamados celestes e terrestres, e visto que comecei nos livros anteriores pelo céu, falando de Jano, a quem alguns disseram ser o céu, e outros, a terra, assim agora começo por Telos ao falar acerca das deusas." Posso compreender o embaraço que tão grande inteligência experimentava.
Pois ele é influenciado pela percepção de certa semelhança plausível, quando diz que o céu é aquilo que age, e a terra, aquilo que padece, e por isso atribui o princípio masculino a um, e o feminino à outra, sem considerar que é antes Aquele que fez tanto o céu quanto a terra que é o autor tanto da atividade quanto da passividade. Segundo esse princípio, ele interpreta os célebres mistérios dos samotrácios, e promete, com ares de grande devoção, que exporá por escrito esses mistérios, que nem sequer foram conhecidos pelos seus compatriotas, e que lhes enviará sua exposição.
Diz, então, que reunira, a partir de muitas provas, que naqueles mistérios, entre as imagens, uma significa o céu, outra a terra, e outra os modelos das coisas, aos quais Platão chama ideias. Faz Júpiter significar o céu, Juno a terra, Minerva as ideias: o céu, pelo qual algo é feito; a terra, da qual é feito; e o modelo, segundo o qual é feito. Mas, no que diz respeito ao último ponto, esqueço-me de dizer que Platão atribuía tão grande importância a essas ideias, a ponto de dizer, não que algo fosse feito pelo céu segundo elas, mas que segundo elas o próprio céu fora feito.
Para retornar, contudo, deve-se observar que Varrão, no livro acerca dos deuses seletos, perdeu aquela teoria desses deuses, nos quais ele, por assim dizer, abrangera todas as coisas. Pois ele atribui os deuses masculinos ao céu, e as femininas à terra; e entre estas últimas colocou Minerva, a quem antes colocara acima do próprio céu. Depois, o deus masculino Netuno está no mar, o qual pertence mais à terra do que ao céu.
Por último de todos, o pai Dite, que é chamado em grego Plúton, outro deus masculino, irmão de ambos (Júpiter e Netuno), também é tido por deus da terra, ocupando ele próprio a região superior da terra e atribuindo a região inferior à sua esposa Prosérpina. Como, então, tentam eles referir os deuses ao céu e as deusas à terra? Que solidez, que coerência, que sobriedade nesta disputa?
Mas, se Telos é a origem das deusas, a grande mãe, a saber, junto da qual continuamente o estrépito da louca e abominável folia de efeminados e de homens mutilados, e de homens que se ferem a si mesmos e se entregam a gesticulações frenéticas, como é, então, que Jano é chamado a cabeça dos deuses, e Telos a cabeça das deusas? Num caso, o erro não faz uma cabeça, e no outro, o frenesi não faz uma cabeça sã. Por que tentam eles em vão referir essas coisas ao mundo? Ainda que pudessem fazê-lo, nenhuma pessoa piedosa adora o mundo como o Deus verdadeiro.
Não obstante, a verdade evidente torna manifesto que eles não são capazes de fazer sequer isto. Que antes os identifiquem com homens mortos e demônios perversíssimos, e nenhuma outra questão restará.