A Cidade de Deus - Livro VII 26

Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna

Sobre a abominação dos ritos sagrados da Grande Mãe

Acerca dos efeminados consagrados à mesma Grande Mãe, em desafio a todo o pudor que pertence aos homens e às mulheres, Varrão não quis dizer nada, nem me lembro de ter lido em parte alguma coisa alguma a respeito deles. Esses efeminados, não mais tarde do que ontem, percorriam as ruas e praças de Cartago com os cabelos untados, os rostos embranquecidos, os corpos frouxos e o andar feminino, exigindo do povo os meios de sustentar suas vidas ignominiosas. Nada se disse a respeito deles. A interpretação fracassou, a razão corou, a palavra emudeceu.
A Grande Mãe superou a todos os seus filhos, não na grandeza da divindade, mas na do crime. A este monstro nem mesmo a monstruosidade de Jano se pode comparar. A deformidade dele estava apenas em sua imagem; a dela era a deformidade da crueldade em seus ritos sagrados. Ele tem uma redundância de membros nas imagens de pedra; ela inflige aos homens a perda de membros. Esta abominação não é superada pelos atos licenciosos de Júpiter, tantos e tão grandes. Ele, com todas as suas seduções de mulheres, desonrou o céu com um Ganimedes; ela, com tantos efeminados confessos e públicos, contaminou a terra e ultrajou o céu.
Talvez possamos ou comparar Saturno a esta Magna Mater, ou até colocá-lo antes dela neste gênero de crueldade abominável, pois ele mutilou o pai. Mas, nas festas de Saturno, os homens podiam antes ser mortos pelas mãos de outros do que mutilados pelas próprias. Ele devorou os filhos, como dizem os poetas, e os teólogos naturais interpretam isto como lhes apraz. A história diz que ele os matou. Mas os romanos nunca adotaram, como os cartagineses, o costume de sacrificar-lhe os filhos.
Esta Grande Mãe dos deuses, contudo, introduziu homens mutilados nos templos romanos e preservou esse costume cruel, sendo crida promover a força dos romanos pela emasculação de seus homens. Comparados com este mal, que são os furtos de Mercúrio, a lascívia de Vênus e os atos vis e infames dos demais, que poderíamos trazer à baila dos livros, não fosse o caso de serem diariamente cantados e dançados nos teatros?
Mas que são essas coisas diante de mal tão grande, um mal cuja magnitude era proporcional à grandeza da Grande Mãe, especialmente quando se diz que essas coisas foram inventadas pelos poetas? Como se os poetas também tivessem inventado isto, que elas são aceitáveis aos deuses. Impute-se, então, à audácia e à impudência dos poetas que tais coisas tenham sido cantadas e escritas. Mas que elas tenham sido incorporadas ao corpo dos ritos e das honras divinas, exigindo e extorquindo as próprias divindades essa incorporação, que é isso senão o crime dos deuses? Mais ainda, a confissão dos demônios e o engano dos homens miseráveis?
Mas quanto a isto, que se considera ser a Grande Mãe adorada na forma apropriada quando é adorada pela consagração de homens mutilados, isto não é invenção dos poetas; pelo contrário, eles antes recuaram dela com horror do que a cantaram. Deveria, então, alguém ser consagrado a esses deuses seletos, para que viva felizmente após a morte, consagrado àqueles a quem não poderia viver decentemente antes da morte, sujeito a superstições tão imundas e entregue a demônios impuros? Mas todas essas coisas, diz Varrão, devem ser referidas ao mundo. Considere ele se não devem antes ser referidas ao que é imundo.
Mas por que não referir ao mundo aquilo que se demonstra estar no mundo? Nós, porém, buscamos uma mente que, confiando na verdadeira religião, não adora o mundo como seu deus, mas, por amor de Deus, louva o mundo como obra de Deus e, purificada das contaminações mundanas, chega pura ao próprio Deus que fundou o mundo.