A Cidade de Deus - Livro VII 2
Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna
Quem são os deuses seletos, e se são considerados isentos das funções dos deuses comuns
Os seguintes deuses, sem dúvida, Varrão assinala como seletos, dedicando um livro inteiro a este assunto: Jano, Júpiter, Saturno, Gênio, Mercúrio, Apolo, Marte, Vulcano, Netuno, Sol, Orco, o pai Líber, Telos, Ceres, Juno, Lua, Diana, Minerva, Vênus e Vesta. Desses vinte deuses, doze são masculinos e oito femininos. Serão estas divindades chamadas seletas por causa de suas esferas mais elevadas de administração no mundo, ou porque se tornaram mais conhecidas do povo e mais culto lhes foi dispensado?
Se for por causa das obras maiores que por eles são realizadas no mundo, não deveríamos tê-los encontrado entre aquela como que plebeia multidão de divindades, à qual se atribuiu o encargo de coisas minúsculas e insignificantes.
Pois, antes de tudo, na concepção de um feto, ponto a partir do qual começam todas as obras que foram distribuídas em mínimo detalhe a muitas divindades, o próprio Jano abre o caminho para a recepção da semente; ali está também Saturno, por causa da própria semente; ali está Líber, que liberta o homem pela efusão da semente; ali está Líbera, que eles também querem que seja Vênus, a qual confere este mesmo benefício à mulher, isto é, que também ela seja libertada pela emissão da semente: todos estes são do número daqueles que são chamados seletos.
Mas há também a deusa Mena, que preside aos menstruos; embora filha de Júpiter, é contudo ignóbil. E esta província dos menstruos o mesmo autor, em seu livro sobre os deuses seletos, atribui à própria Juno, que é até mesmo rainha entre os deuses seletos; e aqui, como Juno Lucina, juntamente com a mesma Mena, sua enteada, ela preside ao mesmo sangue. Ali estão também dois deuses, sumamente obscuros, Vitumno e Sentino: um deles confere a vida ao feto, e o outro a sensação; e, na verdade, eles concedem, por mais ignóbeis que sejam, muito mais do que concedem todos aqueles nobres e seletos deuses.
Pois, certamente, sem vida e sem sensação, o que é todo o feto que a mulher carrega em seu ventre senão uma coisa vilíssima e sem valor, não melhor que lodo e pó?