A Cidade de Deus - Livro VI 4

Livro VI: contra a teologia tripartida de Varrão e a incapacidade dos deuses de dar a vida feliz

Que, da disputa de Varrão, segue-se que os adoradores dos deuses consideram as coisas humanas mais antigas que as coisas divinas

Em toda esta série de distribuições e distinções belíssimas e sutilíssimas, ficará facilmente evidente, pelas coisas que dissemos e pelas que ainda hão de ser ditas, a qualquer homem que não seja, na obstinação de seu coração, inimigo de si mesmo, que é vão buscar e esperar a vida eterna, e até mesmo extremamente impudente desejá-la.
Pois estas instituições são obra ou dos homens, ou dos demônios, não daqueles que chamam de bons demônios, mas, para falar mais claramente, de espíritos imundos e, sem controvérsia, malignos, os quais, com admirável astúcia e dissimulação, sugerem aos pensamentos dos ímpios, e às vezes apresentam abertamente ao seu entendimento, opiniões nocivas, pelas quais a mente humana se torna cada vez mais insensata e incapaz de adaptar-se à verdade imutável e eterna e de permanecer nela; e buscam confirmar essas opiniões por todo tipo de falaz atestação que está ao seu alcance.
Este mesmo Varrão testemunha que escreveu primeiro acerca das coisas humanas, mas depois acerca das coisas divinas, porque os Estados existiram primeiro, e somente depois estas coisas foram instituídas por eles. Mas a verdadeira religião não foi instituída por nenhum Estado terreno; ao contrário, foi ela que claramente estabeleceu a cidade celestial. Ela, porém, é inspirada e ensinada pelo verdadeiro Deus, doador da vida eterna aos seus verdadeiros adoradores.
Eis a razão que Varrão ao confessar que escrevera primeiro acerca das coisas humanas e depois das coisas divinas, porque essas coisas divinas foram instituídas pelos homens: "Assim como o pintor é anterior à tábua pintada, e o pedreiro anterior ao edifício, assim os Estados são anteriores àquelas coisas que são instituídas pelos Estados." Mas ele diz que teria escrito primeiro acerca dos deuses, e depois acerca dos homens, se estivesse escrevendo sobre toda a natureza dos deuses, como se de fato estivesse escrevendo acerca de alguma porção, e não de toda, a natureza dos deuses; ou como se, na verdade, alguma porção da natureza dos deuses, embora não toda, não devesse ser posta antes da dos homens.
Como, então, sucede que naqueles três últimos livros, ao explicar diligentemente os deuses certos, incertos e seletos, ele pareça não omitir nenhuma porção da natureza dos deuses? Por que, então, diz ele: "Se estivéssemos escrevendo sobre toda a natureza dos deuses, teríamos primeiro concluído as coisas divinas antes de tocar nas humanas"? Pois ou ele escreve acerca de toda a natureza dos deuses, ou acerca de alguma porção dela, ou de nenhuma parte dela. Se acerca de toda ela, certamente deve ser posta antes das coisas humanas; se acerca de alguma parte dela, por que não deveria, pela própria natureza do caso, preceder as coisas humanas?
Acaso nem mesmo alguma parte dos deuses deve ser preferida à totalidade da humanidade? Mas, se é demais preferir uma parte do divino a todas as coisas humanas, essa parte é certamente digna de ser preferida ao menos aos romanos. Pois ele escreve os livros acerca das coisas humanas não com referência ao mundo inteiro, mas somente a Roma; e diz que, na ordem da escrita, colocara apropriadamente esses livros antes dos livros sobre as coisas divinas, como o pintor antes da tábua pintada, ou o pedreiro antes do edifício, confessando muito abertamente que, à maneira de uma pintura ou de uma construção, também essas coisas divinas foram instituídas pelos homens.
Resta apenas a terceira suposição: que se deve entender que ele não escreveu acerca de nenhuma natureza divina, mas que não quis dizê-lo abertamente, deixando aos inteligentes inferi-lo; pois, quando alguém diz "não toda", o uso entende que isso significa "alguma", mas pode ser entendido como significando nenhuma, porque aquilo que é nenhuma não é nem toda nem alguma. De fato, como ele mesmo diz, se estivesse escrevendo acerca de toda a natureza dos deuses, seu devido lugar teria sido antes das coisas humanas na ordem da escrita.
Mas, como a verdade declara, ainda que Varrão se cale, a natureza divina deveria ter tido precedência sobre as coisas romanas, mesmo que não fosse toda, mas apenas alguma. Ora, ela é propriamente posta depois; logo, é nenhuma. Sua disposição, portanto, deveu-se não ao desejo de dar às coisas humanas prioridade sobre as coisas divinas, mas à sua relutância em preferir coisas falsas às verdadeiras. Pois, no que escreveu acerca das coisas humanas, ele seguiu a história dos acontecimentos; mas, no que escreveu acerca daquelas coisas que chamam divinas, que outra coisa seguiu senão meras conjecturas sobre coisas vãs?
Isto, sem dúvida, é o que, de maneira sutil, ele quis dar a entender; não apenas escrevendo acerca das coisas divinas depois das humanas, mas até dando uma razão para tê-lo feito; pois, se houvesse suprimido isso, alguns talvez teriam defendido o seu proceder de um modo, e outros de outro. Mas, naquela própria razão que apresentou, ele nada deixou para os homens conjecturarem à vontade, e provou suficientemente que preferiu os homens às instituições dos homens, e não a natureza dos homens à natureza dos deuses.
Assim, ele confessou que, ao escrever os livros acerca das coisas divinas, não escreveu acerca da verdade que pertence à natureza, mas da falsidade que pertence ao erro; o que ele exprimiu em outro lugar mais abertamente (como mencionei no quarto livro), dizendo que, se ele mesmo estivesse fundando uma cidade nova, teria escrito segundo a ordem da natureza; mas, como apenas encontrara uma cidade antiga, não pôde senão seguir o seu costume.