A Cidade de Deus - Livro VI 12
Livro VI: contra a teologia tripartida de Varrão e a incapacidade dos deuses de dar a vida feliz
Que, exposta a vaidade dos deuses das nações, não se pode duvidar de que sejam incapazes de conceder a vida eterna a quem quer que seja, visto que não conseguem auxiliar sequer nas coisas desta vida temporal
Ora, visto que existem três teologias, que os gregos chamam respectivamente de mítica, física e política, e que em latim podem ser chamadas de fabulosa, natural e civil; e visto que nem da fabulosa, que os próprios adoradores de muitos e falsos deuses censuraram com a maior liberdade, nem da civil, que está convicta de ser parte daquela, ou ainda pior do que ela, se pode esperar a vida eterna de nenhuma dessas teologias: se alguém julgar que o que foi dito neste livro não lhe é suficiente, acrescente-lhe também as muitas e variadas dissertações acerca de Deus como o doador da felicidade, contidas nos livros anteriores, especialmente no quarto.
Pois a que outra coisa senão à felicidade haveriam os homens de consagrar-se, fosse a felicidade uma deusa? Contudo, como não é uma deusa, mas um dom de Deus, a que Deus senão ao doador da felicidade devemos consagrar-nos nós, que piamente amamos a vida eterna, na qual há verdadeira e plena felicidade? Mas penso, a partir do que foi dito, que ninguém deve duvidar de que nenhum daqueles deuses é o doador da felicidade, deuses que são adorados com tamanha vergonha e que, se não são assim adorados, mais vergonhosamente se enfurecem, confessando desse modo que são espíritos imundíssimos. Além disso, como pode dar a vida eterna aquele que não pode dar a felicidade?
Pois entendemos por vida eterna aquela vida em que há felicidade sem fim. Porque, se a alma vive em punições eternas, pelas quais também aqueles espíritos imundos serão atormentados, isto é antes morte eterna do que vida eterna. Pois não há morte maior nem pior do que quando a morte nunca morre. Mas, porque a alma, por sua própria natureza, tendo sido criada imortal, não pode estar sem alguma espécie de vida, a sua morte extrema é a alienação da vida de Deus numa eternidade de punição. Assim, pois, somente aquele que dá a verdadeira felicidade dá a vida eterna, isto é, uma vida infinitamente feliz.
E visto que aqueles deuses que esta teologia civil adora foram provados incapazes de dar essa felicidade, não devem ser adorados por causa daquelas coisas temporais e terrestres, como mostramos nos cinco livros anteriores, e muito menos por causa da vida eterna, que há de vir depois da morte, como procuramos mostrar especialmente neste único livro, enquanto também os demais livros lhe prestam a sua cooperação.
Mas, como a força do hábito inveterado lança raízes muito profundas, se alguém julgar que não argumentei suficientemente para mostrar que esta teologia civil deve ser rejeitada e evitada, atenda a outro livro que, com o auxílio de Deus, há de ser ajuntado a este.