A Cidade de Deus - Livro IV 5
Livro IV: que o império foi dado a Roma pelo único Deus verdadeiro, não pelos deuses pagãos
Dos gladiadores fugitivos cujo poder veio a assemelhar-se ao da dignidade real
Não me deterei, portanto, a indagar que espécie de homens Rômulo reuniu, visto que muito deliberou a respeito deles: de como, sendo arrancados daquela vida que levavam e introduzidos na comunidade de sua cidade, pudessem deixar de pensar no castigo que mereciam, cujo temor os havia impelido a vilanias ainda maiores; de modo que, dali em diante, se tornassem membros mais pacíficos da sociedade.
Mas digo isto: que o império romano, o qual, por haver subjugado muitas nações, já se tornara grande e objeto de temor universal, foi ele próprio grandemente alarmado, e só com muita dificuldade evitou uma derrocada desastrosa, porque um mero punhado de gladiadores na Campânia, escapando dos jogos, recrutou um grande exército, nomeou três generais e devastou a Itália do modo mais amplo e cruel. Que digam eles qual deus auxiliou esses homens, de sorte que, de um pequeno e desprezível bando de salteadores, alcançaram um reino temido até pelos romanos, que dispunham de forças e fortalezas tão grandes.
Ou negarão que foram divinamente auxiliados porque não duraram muito tempo? Como se, na verdade, a vida de qualquer homem que fosse durasse muito tempo. Nesse caso, também os deuses a ninguém auxiliam a reinar, pois todos os indivíduos morrem depressa; nem se há de considerar o poder soberano um benefício, porque em pouco tempo, em cada homem, e assim em todos eles um a um, ele se desvanece como um vapor. Pois que importa àqueles que adoraram os deuses sob Rômulo, e há muito estão mortos, que após a sua morte o império romano se tenha tornado tão grande, enquanto eles pleiteiam as suas causas diante das potências de baixo?
Quer essas causas sejam boas ou más, isso nada importa para a questão que temos diante de nós. E isto deve entender-se de todos aqueles que carregam consigo o pesado fardo de suas ações, tendo, nos poucos dias de sua vida, atravessado rápida e apressadamente o palco do ofício imperial, ainda que o próprio ofício tenha perdurado através de longos espaços de tempo, sendo preenchido por uma constante sucessão de homens que morrem.
Se, porém, mesmo aqueles benefícios que duram apenas por brevíssimo tempo hão de ser atribuídos ao auxílio dos deuses, não pouco foram auxiliados esses gladiadores, que romperam os grilhões de sua condição servil, fugiram, escaparam, levantaram um grande e poderosíssimo exército, obediente à vontade e às ordens de seus chefes e muito temido pela majestade romana, e, permanecendo invictos diante de vários generais romanos, apoderaram-se de muitos lugares e, havendo conquistado muitíssimas vitórias, gozaram de quantos prazeres desejaram, e fizeram o que a sua concupiscência sugeria, e, até que enfim foram vencidos, o que se deu com a máxima dificuldade, viveram sublimes e dominadores.
Mas passemos a assuntos maiores.