A Cidade de Deus - Livro IV 11
Livro IV: que o império foi dado a Roma pelo único Deus verdadeiro, não pelos deuses pagãos
Sobre os muitos deuses que os doutores pagãos defendem ser um só e o mesmo Júpiter
Afirmem, pois, quantas coisas lhes aprouver em seus raciocínios e disputas físicas. Ora seja Júpiter a alma deste mundo corpóreo, ele que preenche e move toda esta massa, construída e compactada a partir de quatro elementos, ou de quantos elementos quiserem; ora ceda à sua irmã e a seus irmãos as partes que lhes cabem: seja agora o éter, para que do alto possa abraçar Juno, o ar estendido por baixo; seja de novo o céu inteiro juntamente com o ar, e fecunde com chuvas e sementes fertilizadoras a terra, como sua esposa e, ao mesmo tempo, sua mãe (pois isto não é torpe entre os seres divinos); e ainda outra vez (para que não seja necessário percorrê-los todos), seja ele, o único deus, de quem muitos pensam ter sido dito por um nobilíssimo poeta:
"Pois Deus perpassa todas as coisas, todas as terras, e as extensões do mar, e a profundidade dos céus",
seja ele quem no éter é Júpiter; no ar, Juno; no mar, Netuno; nas partes inferiores do mar, Salácia; na terra, Plutão; na parte inferior da terra, Prosérpina; nos lares domésticos, Vesta; na fornalha dos artesãos, Vulcano; entre os astros, o Sol, e a Lua, e as Estrelas; na adivinhação, Apolo; no comércio, Mercúrio; em Jano, o iniciador; em Termino, o que põe fim; Saturno, no tempo; Marte e Belona, na guerra; Líber, nas vinhas; Ceres, nos campos de trigo; Diana, nas florestas; Minerva, no saber.
Por fim, seja ele quem está naquela espécie de multidão de deuses plebeus: presida, sob o nome de Líber, sobre a semente dos homens, e, sob o nome de Libera, sobre a das mulheres: seja Diéspiter, que traz o nascituro à luz do dia: seja a deusa Mena, que puseram sobre a menstruação das mulheres: seja Lucina, invocada pelas mulheres no parto: traga socorro aos que estão nascendo, levantando-os do seio da terra, e seja chamado Ops: abra a boca do bebê que chora, e seja chamado o deus Vaticano: erga-o da terra, e seja chamada a deusa Levana; vele sobre os berços, e seja chamada a deusa Cunina: não seja outro senão ele quem está naquelas deusas que cantam os destinos dos recém-nascidos, e são chamadas Carmentes: presida sobre os acontecimentos fortuitos, e seja chamado Fortuna: na deusa Rumina, ordenhe o seio para o pequenino, porque os antigos chamavam o seio de ruma: na deusa Potina, administre a bebida: na deusa Educa, forneça o alimento: do terror das crianças, seja denominado Paventia: da esperança que vem, Venília; da volúpia, Volúpia; da ação, Agenor: dos estímulos pelos quais o homem é incitado a muita ação, seja chamado de deusa Estímula: seja a deusa Estrênia, por tornar diligente; Numéria, que ensina a contar; Camena, que ensina a cantar: seja tanto o deus Conso, por conceder conselho, quanto a deusa Sêntia, por inspirar sentenças: seja a deusa Juventas, que, depois que se depõe a toga da meninice, toma a si o início da idade juvenil: seja Fortuna Barbata, que reveste de barba os adultos, à qual não quiseram honrar; de modo que esta divindade, qualquer que seja, fosse ao menos um deus masculino, chamado ou Barbato, de barba, como Nodoto, de nó; ou, certamente, não Fortuna, mas, por ter barbas, Fortúnio: una, no deus Jugatino, os casais em matrimônio; e, quando se desata o cinto da esposa virgem, seja invocado como a deusa Virginiense: seja Mutuno ou Tuterno, que, entre os gregos, é chamado Priapo.
Se não se envergonham disso, sejam todos estes que nomeei, e quaisquer outros que não nomeei (pois não julguei conveniente nomeá-los todos), sejam todos estes deuses e deusas aquele único Júpiter, quer, como alguns pretendem, sejam todos estes partes dele, quer sejam seus poderes, como pensam os que se comprazem em considerá-lo a alma do mundo, opinião da maioria de seus doutores, e estes os maiores. Se assim são as coisas (quão más possam ser eu ainda não indago por ora), que perderiam eles se, por um resumo mais prudente, adorassem um só deus?
Pois que parte dele poderia ser desprezada, se ele próprio fosse adorado? Mas, se temem que partes dele se irritem por serem preteridas ou negligenciadas, então não é como pretendem, isto é, que este todo seja como a vida de um único ser vivente, que contém todos os deuses juntos, como se fossem suas virtudes, ou membros, ou partes; mas cada parte tem sua própria vida, separada das demais, se é que uma pode ser irritada, aplacada ou excitada mais do que outra.
Mas, se se diz que o conjunto todo, isto é, o próprio Júpiter inteiro, se ofenderia caso suas partes não fossem também adoradas uma a uma e minuciosamente, isto é dito tolamente. Por certo, nenhuma delas poderia ser preterida, se fosse adorado aquele que sozinho as possui a todas.
Pois, para omitir outras coisas que são inumeráveis, quando dizem que todos os astros são partes de Júpiter, e que todos estão vivos, e têm almas racionais, e portanto, sem controvérsia, são deuses, não conseguem ver quantos eles não adoram, a quantos não erguem templos nem altares, e, na verdade, a quão pouquíssimos dos astros pensaram em erguê-los e oferecer sacrifício? Se, portanto, ficam descontentes aqueles que não são adorados individualmente, não temem viver tendo aplacado apenas alguns poucos, enquanto todo o céu está descontente?
Mas, se adoram todos os astros porque são parte de Júpiter, a quem adoram, pelo mesmo método compendioso poderiam suplicar a todos eles somente nele. Pois, deste modo, ninguém ficaria descontente, visto que somente nele se suplicaria a todos. Ninguém seria desprezado, em vez de haver justa causa de descontentamento dada ao número muito maior dos que são preteridos no culto oferecido a alguns; sobretudo quando Priapo, estendido em vil nudez, é preferido àqueles que resplandecem de sua morada celeste.