A Cidade de Deus - Livro III 9

Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses

Se é crível que a paz durante o reinado de Numa tenha sido obra dos deuses

Crê-se também que foi com o auxílio dos deuses que o sucessor de Rômulo, Numa Pompílio, desfrutou de paz durante todo o seu reinado e fechou as portas de Jano, que é costume manter abertas em tempo de guerra. E supõe-se que ele foi assim recompensado por haver instituído muitas observâncias religiosas entre os romanos. Decerto aquele rei mereceria nossas felicitações por um ócio tão raro, se houvesse sido sábio o bastante para empregá-lo em ocupações saudáveis e, dominando uma curiosidade perniciosa, houvesse buscado o verdadeiro Deus com verdadeira piedade.
Mas, na verdade, não foram os deuses os autores de seu ócio; e talvez o tivessem enganado menos se o houvessem encontrado mais ocupado. Pois, quanto mais desocupado o achavam, tanto mais eles próprios lhe absorviam a atenção. Varrão informa-nos de todos os seus esforços e das artes que ele empregou para associar esses deuses a si mesmo e à cidade; e, em seu devido lugar, se Deus quiser, hei de discutir essas matérias.
Entrementes, que falamos dos benefícios concedidos pelos deuses, admito de boa vontade que a paz é um grande benefício; mas é um benefício do verdadeiro Deus, o qual, como o sol, a chuva e os demais sustentos da vida, é frequentemente concedido aos ingratos e aos ímpios. Mas, se este grande dom foi concedido a Roma e a Pompílio pelos seus deuses, por que jamais o concederam depois ao império romano, mesmo em períodos mais merecedores? Acaso os ritos sagrados eram mais eficazes em sua primeira instituição do que em sua celebração posterior?
Ora, eles não tinham existência no tempo de Numa, até que ele os acrescentou ao ritual; ao passo que, depois, haviam sido celebrados e preservados, para que deles pudesse provir algum benefício.
Como é, então, que aqueles quarenta e três, ou, como outros preferem, trinta e nove anos do reinado de Numa transcorreram em paz ininterrupta, e, no entanto, depois, quando o culto estava estabelecido e os próprios deuses, que por ele eram invocados, eram os reconhecidos guardiões e patronos da cidade, mal conseguimos achar, em todo o período que vai da fundação da cidade até o reinado de Augusto, um único ano, a saber, o que se seguiu ao término da primeira guerra púnica, em que, por prodígio, os romanos puderam fechar as portas da guerra?