A Cidade de Deus - Livro I 26
Livro I: a queda de Roma e a acusação contra os cristãos, e os bárbaros que pouparam os refugiados nas igrejas
Que em certos casos peculiares os exemplos dos santos não devem ser seguidos
Mas, dizem eles, no tempo da perseguição algumas santas mulheres escaparam daqueles que as ameaçavam com ultraje, lançando-se em rios que sabiam que as afogariam; e, tendo morrido desse modo, são veneradas na Igreja católica como mártires. Acerca de tais pessoas não me atrevo a falar levianamente. Não sei dizer se não terá sido concedida à Igreja alguma autoridade divina, comprovada por testemunhos dignos de fé, para assim honrar a memória delas: pode ser que assim seja. Pode ser que não tenham sido enganadas por juízo humano, mas impelidas por sabedoria divina ao seu ato de autodestruição. Sabemos que este foi o caso de Sansão.
E quando Deus ordena algum ato, e indica por evidência clara que o ordenou, quem chamará de criminosa a obediência? Quem acusará uma submissão tão religiosa? Mas, então, nem todo homem se justifica em sacrificar seu filho a Deus, porque Abraão foi louvável ao fazê-lo. O soldado que matou um homem em obediência à autoridade sob a qual está legitimamente comissionado não é acusado de homicídio por nenhuma lei do seu Estado; ao contrário, se não o tiver matado, é então que é acusado de traição ao Estado e de desprezo pela lei.
Mas se tiver agido por sua própria autoridade e por seu próprio impulso, terá neste caso incorrido no crime de derramar sangue humano. E assim é punido por fazer sem ordens a mesma coisa pela qual é punido por negligenciar fazer quando lhe foi ordenado. Se as ordens de um general fazem tão grande diferença, não farão diferença alguma as ordens de Deus? Aquele, pois, que sabe ser ilícito matar-se a si mesmo, pode, não obstante, fazê-lo se lhe for ordenado por Aquele cujas ordens não nos é permitido negligenciar. Que apenas tenha plena certeza de que a ordem divina foi manifestada.
Quanto a nós, só podemos tornar-nos conhecedores dos segredos da consciência na medida em que estes nos são revelados, e somente até esse ponto julgamos: "Ninguém conhece as coisas de um homem, senão o espírito do homem que nele está." Mas isto afirmamos, isto sustentamos, isto de todo modo declaramos ser justo: que nenhum homem deve infligir a si mesmo a morte voluntária, pois isso é fugir dos males do tempo precipitando-se nos da eternidade; que nenhum homem deve fazê-lo por causa dos pecados de outro homem, pois isso seria fugir de uma culpa que não poderia maculá-lo, incorrendo em grande culpa própria; que nenhum homem deve fazê-lo por causa dos seus próprios pecados passados, pois tanto mais necessita desta vida para que esses pecados sejam curados pela penitência; que nenhum homem deve pôr fim a esta vida para obter aquela vida melhor que esperamos após a morte, pois os que morrem por sua própria mão não têm vida melhor após a morte.