A Cidade de Deus - Livro I 23

Livro I: a queda de Roma e a acusação contra os cristãos, e os bárbaros que pouparam os refugiados nas igrejas

O que devemos pensar do exemplo de Catão, que se matou por não suportar a vitória de César

Além de Lucrécia, de quem se disse o suficiente, os nossos defensores do suicídio têm certa dificuldade em encontrar qualquer outro exemplo a que possam recorrer, a não ser o de Catão, que se matou em Útica. Apela-se ao seu exemplo não porque tenha sido o único homem a agir assim, mas porque era tão estimado como homem douto e excelente, que se podia sustentar com aparência de verdade que aquilo que fez era e é coisa boa de se fazer.
Mas dessa ação sua, que posso eu dizer senão que os seus próprios amigos, homens esclarecidos como ele, prudentemente o dissuadiram, e portanto julgaram que o seu ato fora antes de um espírito fraco que de um espírito forte, e ditado não por um sentimento honroso que antecipa a vergonha, mas pela fraqueza que recua diante das dificuldades? Na verdade, Catão condena-se a si mesmo pelo conselho que deu ao filho a quem tão ternamente amava. Pois, se era uma desonra viver sob o domínio de César, por que instou o pai com o filho a essa desonra, ao encorajá-lo a confiar absolutamente na generosidade de César? Por que não o persuadiu a morrer juntamente consigo?
Se Torquato foi aplaudido por condenar o filho à morte, quando este, contra as ordens, travara combate com o inimigo, e travara com êxito, por que Catão vencido poupou o filho vencido, ainda que não se poupasse a si mesmo? Seria mais desonroso ser vencedor contra as ordens do que submeter-se a um vencedor contra as ideias recebidas de honra? Catão, portanto, não pode ter julgado que fosse vergonhoso viver sob o domínio de César, pois, se assim tivesse julgado, a espada do pai teria livrado o filho dessa desonra.
A verdade é que o seu filho, que ele esperava e desejava que fosse poupado por César, não era por ele mais amado do que César era invejado pela glória de o perdoar (como, de fato, se relata que o próprio César disse); ou, se inveja é palavra forte demais, digamos que ele se envergonhava de que essa glória coubesse a César.