A Cidade de Deus - Livro I 10

Livro I: a queda de Roma e a acusação contra os cristãos, e os bárbaros que pouparam os refugiados nas igrejas

Que os santos nada perdem ao perder os bens temporais

Estas são as considerações que se devem ter em vista para responder à questão de saber se algum mal acontece aos fiéis e piedosos que não possa ser convertido em proveito. Ou diremos que a pergunta é desnecessária, e que o apóstolo fala em vão quando diz: "Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus"?
Perderam tudo o que tinham. A sua fé? A sua piedade? As posses do homem oculto do coração, que aos olhos de Deus são de grande valor? Acaso perderam essas coisas? Pois estas são as riquezas dos cristãos, aos quais o apóstolo, ele mesmo rico, disse: "A piedade com contentamento é grande fonte de lucro. Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele. Tendo, porém, sustento e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes. Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que afundam os homens na destruição e na perdição. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da e a si mesmos se traspassaram com muitas dores".
Aqueles, pois, que perderam todos os seus bens mundanos no saque de Roma, se possuíam as suas posses tal como haviam sido ensinados pelo apóstolo, que ele mesmo era pobre por fora, mas rico por dentro, isto é, se usavam do mundo como quem não usa, podiam dizer, com as palavras de Jó, duramente provado mas não vencido: "Nu saí do ventre de minha mãe, e nu para tornarei: o Senhor o deu, e o Senhor o tomou; como aprouve ao Senhor, assim sucedeu: bendito seja o nome do Senhor". Como um bom servo, tinha por grande posse a vontade de seu Senhor, em cuja obediência se enriquecia a sua alma; nem o afligia perder, ainda em vida, aqueles bens que em breve teria de deixar na sua morte.
Quanto, porém, àqueles espíritos mais fracos que, embora não se possa dizer que prefiram as posses terrenas a Cristo, ainda assim se apegam a elas com afeição algo imoderada, descobriram pela dor de as perder quão grandemente pecavam ao amá-las. Pois a sua tristeza é obra deles mesmos; nas palavras do apóstolo acima citadas, "a si mesmos se traspassaram com muitas dores". Pois foi bom que aqueles que por tanto tempo haviam desprezado tais advertências em palavras recebessem o ensino da experiência.
Pois quando o apóstolo diz: "Os que querem ser ricos caem em tentação", e assim por diante, o que ele censura nas riquezas não é a posse delas, mas o desejo delas.
Pois em outro lugar diz: "Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus vivo, que abundantemente nos todas as coisas para delas gozarmos; que façam o bem, que sejam ricos em boas obras, prontos a repartir, dispostos a comunicar; entesourando para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a vida eterna". Aqueles que faziam tal uso de seus bens foram consolados de leves perdas com grandes ganhos, e tiveram mais prazer naquelas posses que com segurança haviam guardado, distribuindo-as livremente, do que tristeza naquelas que de todo perderam por as entesourarem com ansiedade e egoísmo.
Pois nada poderia perecer na terra senão aquilo que teriam vergonha de levar consigo para fora da terra.
A ordem de nosso Senhor é esta: "Não ajunteis tesouros para vós na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam: porque onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração". E aqueles que deram ouvidos a esta ordem provaram, no tempo da tribulação, quão bem aconselhados estavam em não desprezar este mestre tão digno de confiança, e tão fiel e poderoso guardião de seu tesouro.
Pois se muitos se alegravam por seu tesouro estar guardado em lugares que o inimigo por acaso não encontrou, quão melhor fundada era a alegria daqueles que, pelo conselho de seu Deus, haviam fugido com seu tesouro para uma cidadela que nenhum inimigo pode de modo algum alcançar!
Assim o nosso Paulino, bispo de Nola, que voluntariamente abandonou imensas riquezas e se tornou bastante pobre, embora abundantemente rico em santidade, quando os bárbaros saquearam Nola e o fizeram prisioneiro, costumava orar em silêncio, como ele depois me contou: Senhor, que eu não seja atormentado por ouro e prata, pois onde está todo o meu tesouro Vós o sabeis". Pois todo o seu tesouro estava onde fora ensinado a escondê-lo e guardá-lo por Aquele que também havia predito que estas calamidades aconteceriam no mundo.
Por conseguinte, aquelas pessoas que obedeceram a seu Senhor quando ele as advertiu onde e como entesourar não perderam sequer as suas posses terrenas na invasão dos bárbaros; ao passo que aquelas que agora se arrependem de não lhe ter obedecido aprenderam o reto uso dos bens terrenos, se não pela sabedoria que lhes teria evitado a perda, ao menos pela experiência que a segue.
Mas alguns homens bons e cristãos foram submetidos à tortura para que fossem forçados a entregar seus bens ao inimigo. Na verdade, eles não podiam nem entregar nem perder aquele bem que os tornava bons. Se, contudo, preferiram a tortura à entrega do mamom da iniquidade, então digo que não eram homens bons.
Antes, dever-se-ia lembrar-lhes que, se sofriam tão duramente por causa do dinheiro, deveriam suportar todo tormento, se necessário fosse, por causa de Cristo; para que aprendessem a amar antes Aquele que enriquece com eterna felicidade todos os que sofrem por ele, e não a prata e o ouro, pelos quais era lamentável sofrer, quer os conservassem dizendo uma mentira, quer os perdessem dizendo a verdade. Pois sob essas torturas ninguém perdeu a Cristo por confessá-lo, ninguém conservou riqueza senão negando a sua existência.
De modo que possivelmente a tortura que lhes ensinou que deviam pôr suas afeições numa posse que não podiam perder foi mais útil do que aquelas posses que, sem nenhum fruto útil, inquietavam e atormentavam seus ansiosos donos. Mas então lembram-nos que alguns foram torturados sem terem riqueza alguma a entregar, mas em quem não se acreditou quando assim o diziam. Estes também, contudo, talvez tivessem algum desejo de riqueza, e não eram pobres de boa vontade, com santa resignação; e a tais cumpria deixar claro que não a posse efetiva, mas também o desejo de riqueza, merecia tão excruciantes dores.
E ainda que estivessem destituídos de quaisquer reservas ocultas de ouro e prata, por viverem na esperança de uma vida melhor, na verdade não sei se alguma tal pessoa foi torturada na suposição de que tivesse riqueza; mas, se assim foi, então certamente, ao confessar, quando interrogado, uma santa pobreza, ele confessava a Cristo. E embora dificilmente se pudesse esperar que os bárbaros lhe dessem crédito, ainda assim nenhum confessor de uma santa pobreza poderia ser torturado sem receber um galardão celestial.
De novo, dizem eles que a longa fome prostrou muitos cristãos. Mas também isto os fiéis converteram em bons usos por uma piedosa resignação. Pois aqueles a quem a fome de pronto matou, ela os arrancou dos males desta vida, como o teria feito uma doença benigna; e aqueles que foram apenas mordidos pela fome aprenderam a viver com mais parcimônia, e habituaram-se a jejuns mais prolongados.