A Cidade de Deus - Livro I 1

Livro I: a queda de Roma e a acusação contra os cristãos, e os bárbaros que pouparam os refugiados nas igrejas

Prefácio. Dos adversários do nome de Cristo, a quem os bárbaros, por amor a Cristo, pouparam quando tomaram a cidade.

A gloriosíssima Cidade de Deus é o tema desta obra, que vós, meu caríssimo filho Marcelino, sugeristes, e que vos é devida por promessa minha. Empreendi a sua defesa contra aqueles que preferem os seus próprios deuses ao Fundador desta cidade: uma cidade incomparavelmente gloriosa, quer a consideremos tal como ainda vive pela neste fugaz curso do tempo, peregrinando como estrangeira em meio aos ímpios, quer tal como de habitar na firme estabilidade de sua sede eterna, que agora aguarda com paciência, esperando até que a justiça se volte para o juízo, e ela obtenha, em virtude de sua excelência, a vitória final e a paz perfeita.
Grande obra esta, e árdua; mas Deus é o meu auxiliador. Pois bem sei quanta capacidade se requer para persuadir os soberbos de quão grande é a virtude da humildade, que nos eleva, não por uma arrogância de todo humana, mas por uma graça divina, acima de todas as dignidades terrenas que vacilam neste cenário instável. Pois o Rei e Fundador desta cidade de que falamos manifestou ao seu povo, na Escritura, uma sentença da lei divina com estas palavras: Deus resiste aos soberbos, mas graça aos humildes. Mas isto, que é prerrogativa de Deus, a ambição inflada de um espírito soberbo também afeta, e ama profundamente que se conte entre os seus atributos o seguinte:
Poupar a alma submissa, E esmagar os filhos do orgulho.
E por isso, como exige o plano da obra que empreendemos, e à medida que a ocasião o permitir, devemos falar também da cidade terrena, que, embora seja senhora das nações, é ela mesma dominada por sua própria sede de domínio.
Pois a esta cidade terrena pertencem os inimigos contra os quais tenho de defender a Cidade de Deus. Muitos deles, na verdade, resgatados de seu ímpio erro, tornaram-se cidadãos bastante dignos desta cidade; mas muitos de tal modo se inflamam de ódio contra ela, e são tão ingratos para com o seu Redentor por seus assinalados benefícios, que se esquecem de que agora não seriam capazes de proferir uma palavra em prejuízo dela, se não houvessem encontrado em seus lugares sagrados, ao fugirem do ferro do inimigo, aquela vida de que agora se gloriam.
Por acaso não são esses mesmos romanos, que foram poupados pelos bárbaros por respeito a Cristo, que se tornaram inimigos do nome de Cristo? Os relicários dos mártires e as igrejas dos apóstolos disso dão testemunho; pois, no saque da cidade, foram refúgio aberto a todos os que a eles se acolheram, fossem cristãos ou pagãos. Até o próprio limiar deles enfureceu-se o inimigo sedento de sangue; ali a sua fúria assassina reconheceu um limite. Para ali os inimigos que tinham alguma compaixão conduziam aqueles a quem haviam dado quartel, para que nenhum, menos misericordioso, caísse sobre eles.
E, de fato, quando mesmo aqueles assassinos que em toda outra parte se mostravam impiedosos chegavam a esses lugares onde se proibia o que a licença da guerra permitia em qualquer outro sítio, a sua fúria desenfreada de matança era refreada, e o seu afã de fazer prisioneiros se extinguia. Assim escaparam multidões que hoje injuriam a religião cristã, e imputam a Cristo os males que sobrevieram à sua cidade; mas a preservação da própria vida, benefício que devem ao respeito que os bárbaros nutriam por Cristo, atribuem-na não ao nosso Cristo, mas à sua própria boa sorte.
Deveriam antes, se tivessem alguma reta percepção, atribuir os rigores e as durezas infligidos por seus inimigos àquela divina providência que costuma corrigir pelo castigo os costumes depravados dos homens, e que exercita com semelhantes aflições os justos e dignos de louvor: ou transferindo-os, depois de passada a provação, a um mundo melhor, ou retendo-os ainda na terra para ulteriores propósitos.
E deveriam atribuir ao espírito destes tempos cristãos o fato de que, ao contrário do costume da guerra, esses bárbaros sedentos de sangue os pouparam, e os pouparam por amor a Cristo, quer essa misericórdia se mostrasse de fato em lugares indistintos, quer naqueles lugares especialmente consagrados ao nome de Cristo, dentre os quais os maiores foram escolhidos como santuários, para que assim se desse pleno alcance à vasta compaixão que desejava que ali encontrasse abrigo uma grande multidão.
Portanto, deveriam dar graças a Deus, e com sincera confissão refugiar-se em seu nome, para que assim escapem ao castigo do fogo eterno, eles que com lábios mentirosos tomaram sobre si este nome, a fim de escaparem ao castigo da destruição presente. Pois, dentre aqueles que vedes insolente e desavergonhadamente insultando os servos de Cristo, muitos que não teriam escapado àquela destruição e matança se não houvessem fingido que eles mesmos eram servos de Cristo.
Contudo agora, em soberba ingrata e em loucura impiíssima, e ao risco de serem punidos nas trevas eternas, opõem-se perversamente àquele nome sob o qual fraudulentamente se protegeram para gozar a luz desta breve vida.