Capítulos

Morôni
O último escritor registra as ordenanças e orações da igreja nefita, transcreve cartas e sermões do pai sobre a caridade e o batismo de crianças, e fecha a obra com a promessa de que o leitor pode conhecer a verdade dela perguntando a Deus
Sobre o livro
Morôni é o último livro do Livro de Mórmon, publicado por Joseph Smith em 1830. Tem 10 capítulos curtos e é escrito por um narrador que se apresenta como o único sobrevivente do seu povo. Ele diz ter concluído o resumo do relato jaredita e ter pensado em parar de escrever, mas continua porque ainda está vivo.
Ora, eu, Morôni, após haver terminado o resumo do relato do povo de Jarede, pensei em não mais escrever; entretanto ainda não pereci.
Pela cronologia interna do texto, a escrita se dá pouco depois de 420 anos a contar do sinal do nascimento de Cristo, o que situaria o livro no início do século V. Fora da tradição santo dos últimos dias, historiadores datam a composição de 1829, quando o texto foi ditado, e não conhecem manuscrito anterior. As duas datações correspondem a pressupostos diferentes sobre a natureza do livro, e nenhuma evidência material decide entre elas.
Apesar do tamanho, tem peso desproporcional na prática da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias: dele saem as orações do sacramento, recitadas toda semana, e a promessa usada no convite missionário.
O que o livro contém
Ordenanças e vida da igreja
- A ordenação de sacerdotes e mestres — (Morôni 3:1)
- A oração sobre o pão — (Morôni 4:3)
- A oração sobre o vinho — (Morôni 5:2)
- Quem é recebido para o batismo, e o cuidado dos membros — (Morôni 6:2)
Ensino, cartas e despedida
- Sermão de Mórmon sobre fé, esperança e caridade — (Morôni 7:45)
- Carta de Mórmon condenando o batismo de criancinhas — (Morôni 8:9)
- Carta sobre a brutalidade da guerra final — (Morôni 9:18)
- A exortação a perguntar a Deus sobre o livro — (Morôni 10:4)
- O convite final: vinde a Cristo — (Morôni 10:32)
As orações sacramentais
Os capítulos 4 e 5 são os mais curtos do livro e os de maior uso litúrgico. Trazem, palavra por palavra, as orações ditas sobre o pão e sobre o vinho.
Ó Deus, Pai Eterno, nós te rogamos em nome de teu Filho, Jesus Cristo, que abençoes e santifiques este pão para as almas de todos os que partilharem dele.
Essas duas orações são recitadas todos os domingos nas congregações santo dos últimos dias até hoje, com variação mínima. O mesmo texto aparece em Doutrina e Convênios 20:77 e 20:79, com um verbo modernizado ("hath given" vira "has given"). Doutrina e Convênios ainda diz vinho, mas uma revelação de agosto de 1830 (seção 27) liberou o uso de outro elemento, e a água se firmou como prática padrão ao longo do século XIX.
Fé, esperança e caridade, e o paralelo com a King James
O capítulo 7 reproduz um sermão atribuído a Mórmon, pai do narrador. É o texto doutrinário mais longo do livro e culmina na definição de caridade.
E a caridade é sofredora e é benigna e não é invejosa e não se ensoberbece; não busca seus interesses, não se irrita facilmente, não suspeita mal.
Mas a caridade é o puro amor de Cristo e permanece para sempre.
O paralelo com 1 Coríntios 13 é o dado textual mais discutido do livro. No original em inglês, os atributos da caridade aparecem em Morôni 7:45 e 7:46 na mesma ordem e quase com as mesmas palavras de 1 Coríntios 13:4 a 13:8 na King James de 1611, incluindo escolhas de tradução próprias daquela versão. O verso 7:48 acompanha de perto 1 João 3:2 e 3:3.
A leitura crítica é que a coincidência verbal indica dependência direta da King James, uma versão inglesa do século XVII, o que seria impossível num texto composto nas Américas no século V. A objeção geral ao uso do Novo Testamento no Livro de Mórmon é antiga (Alexander Campbell, 1831), e o sociólogo Thomas O’Dea aplicou o argumento a Morôni 7 em 1957. A resposta santo dos últimos dias é que a tradução foi vertida para a linguagem bíblica conhecida pelo tradutor, e que o conteúdo doutrinário pode ser comum a duas revelações independentes sem que uma copie a outra. O fato verbal é incontroverso; a explicação dele é o ponto em disputa.
A condenação do batismo de criancinhas
O capítulo 8 é uma carta de Mórmon ao filho sobre disputas a respeito do batismo de crianças pequenas. A rejeição é explícita e dura.
Portanto, as criancinhas são sãs, por serem incapazes de cometer pecado; portanto, a maldição de Adão é delas removida por minha causa.
Sei que é um sério escárnio perante Deus batizar criancinhas.
O contexto histórico importa. O batismo infantil era uma das controvérsias mais quentes do protestantismo do norte do estado de Nova York nos anos 1820, região de intensa atividade religiosa onde Joseph Smith cresceu. Batistas o rejeitavam; presbiterianos, metodistas e congregacionalistas o praticavam, apoiados na doutrina do pecado original. A questão do destino de crianças mortas sem batismo era discutida em púlpitos e panfletos.
Daí as duas leituras. Críticos veem no capítulo 8 uma intervenção num debate dos anos 1820, colocada na boca de um autor do século V, e notam que o vocabulário do texto se parece com o das disputas da época de Joseph Smith. Autores santos dos últimos dias respondem que a carta situa a disputa dentro do próprio tempo de Mórmon, que a discussão sobre a inocência das crianças é antiga na história cristã, e que a relevância para 1830 seria o motivo de Morôni tê-la incluído, não prova de invenção. As duas explicações cobrem os mesmos dados.
A promessa de Morôni
O fecho do livro contém o texto mais citado de toda a literatura santo dos últimos dias, e a base do procedimento missionário de convite ao leitor.
Eu vos exorto a perguntardes a Deus, o Pai Eterno, em nome de Cristo, se estas coisas não são verdadeiras; e se perguntardes com um coração sincero e com real intenção, tendo fé em Cristo, ele vos manifestará a verdade delas pelo poder do Espírito Santo.
A objeção epistemológica é direta: o teste não tem resultado negativo possível. Se a resposta interior vem, ela confirma o livro; se não vem, a explicação disponível é que faltou sinceridade, intenção real ou fé. Críticos acrescentam que experiências de convicção interior semelhantes são relatadas por praticantes de tradições religiosas incompatíveis entre si, o que enfraquece o sentimento como critério para distinguir qual delas é verdadeira.
A resposta santo dos últimos dias tem várias camadas. A promessa vem depois de duas condições anteriores no texto, ler e ponderar, e não pretende substituir o estudo. A convicção religiosa pessoal é tratada como fonte legítima de conhecimento em muitas tradições, e não apenas nesta. E há autores da própria tradição que leem a promessa como convite a uma relação continuada, não como teste de resposta única. A escolha entre objeção e resposta depende de premissas sobre o que conta como evidência, e não se decide aqui.
O livro se encerra com um convite e uma despedida.
Sim, vinde a Cristo, sede aperfeiçoados nele e negai-vos a toda iniquidade.