Capítulos

Um jardineiro enxertando um galho numa oliveira frondosa

Jacó

O irmão mais novo de Néfi prega contra o orgulho e a poligamia, transcreve a alegoria da oliveira atribuída ao profeta Zenos, que é o capítulo mais longo da obra, e confronta o dissidente Sherém

O que é este livro

O Livro de Jacó é o terceiro livro do Livro de Mórmon, publicado por Joseph Smith Jr. em 1830. São 7 capítulos, curtos, escritos na voz de Jacó, irmão mais novo de Néfi e filho de Leí. Segundo o próprio texto, Jacó nasceu já no deserto, depois da saída de Jerusalém, e recebeu de Néfi a incumbência de continuar o registro.

É um livro de pregação e de repreensão, não de crônica. Jacó declara logo no início que tratará da história do povo apenas de passagem, e reservará as placas para o que considera precioso. O resultado é um texto curto com dois blocos de grande peso: a condenação da poligamia no capítulo 2 e a alegoria da oliveira no capítulo 5, o capítulo mais longo de toda a obra, com 77 versículos.

Como nos demais livros, coexistem duas leituras sobre a origem: a posição oficial Santo dos Últimos Dias, de tradução de um registro antigo, e a posição majoritária da erudição acadêmica não confessional, de composição do século XIX. Este índice apresenta as duas.

O conteúdo

O ministério de Jacó

  • Jacó recebe de Néfi o encargo das placas menores(Jacó 1:1)
  • A responsabilidade de ensinar, sob pena do sangue do povo(Jacó 1:19)
  • A repreensão do orgulho e da riqueza no templo(Jacó 2:13)
  • A condenação da poligamia e das concubinas(Jacó 2:27)
  • A ressalva: salvo se o Senhor ordenar o contrário(Jacó 2:30)
  • Os lamanitas apresentados como mais justos nesse ponto(Jacó 3:5)

A doutrina e a alegoria

  • A lei de Moisés como aquilo que aponta para Cristo(Jacó 4:5)
  • A cegueira de olhar para além do marco(Jacó 4:14)
  • A alegoria da oliveira, atribuída ao profeta Zenos(Jacó 5:3)
  • Os ramos bravos enxertados na oliveira boa(Jacó 5:7)
  • A última poda antes do fim da vinha(Jacó 5:71)
  • A aplicação da alegoria à casa de Israel(Jacó 6:4)

O episódio de Serém

  • Serém aparece pregando contra a doutrina de Cristo(Jacó 7:1)
  • A acusação de blasfêmia e a exigência de um sinal(Jacó 7:7)
  • A retratação pública diante da multidão(Jacó 7:17)
  • Jacó entrega as placas ao filho Enos e se despede(Jacó 7:27)

A condenação da poligamia no capítulo 2

O capítulo 2 é o mais conhecido do livro por uma razão específica: ele condena o casamento plural em termos absolutos, e a igreja que publicou a obra praticou casamento plural durante décadas.

O argumento do texto é direto. Jacó diz que o povo procura desculpa para a libertinagem no que está escrito sobre Davi e Salomão, e responde que as muitas esposas e concubinas desses reis foram abominação. Em seguida vem a regra.

Portanto, meus irmãos, ouvi-me e atentai para a palavra do Senhor: Pois nenhum homem dentre vós terá mais que uma esposa; e não terá concubina alguma.

Jacó 2:27

Três versículos adiante, porém, o texto abre uma exceção condicional: se o Senhor quiser suscitar posteridade para si, ele ordenará isso ao povo; fora disso, vale a regra da monogamia. Essa ressalva é o ponto de apoio da leitura Santo dos Últimos Dias, que entende a monogamia como padrão e o casamento plural como exceção ordenada por revelação em circunstâncias específicas.

O registro histórico do casamento plural na igreja é público e documentado, e vale expor sem adjetivos. Joseph Smith praticou e ensinou o casamento plural em círculo restrito a partir da década de 1830; ensaios publicados pela própria igreja afirmam que ele foi selado a mais de trinta esposas. A prática foi anunciada publicamente em 1852, em Utah, sob a liderança de Brigham Young, e mantida abertamente até 1890, quando o presidente Wilford Woodruff emitiu o documento conhecido como Manifesto, aceito pela igreja em conferência geral em 6 de outubro daquele ano. Woodruff declarou depois ter agido por revelação; historiadores registram também a pressão legal do governo dos Estados Unidos, que havia criminalizado a prática nas décadas anteriores e confiscado bens da igreja. As duas explicações não se excluem, e a própria igreja hoje menciona as duas. Casamentos plurais continuaram a ocorrer em alguns casos até o Segundo Manifesto de 1904, do presidente Joseph F. Smith, que passou a prever excomunhão para quem os celebrasse ou contraísse. Grupos fundamentalistas que se separaram da igreja mantêm a prática até hoje.

A tensão entre o capítulo 2 e essa história é lida de dois modos. A leitura Santo dos Últimos Dias apela à ressalva do versículo 30 e trata o período de 1852 a 1890 como a exceção prevista, encerrada quando a revelação foi retirada. A leitura crítica observa que a exceção é ampla o bastante para justificar quase qualquer coisa, e que a passagem passou de proibição a permissão condicionada conforme a necessidade institucional. Não há como decidir a questão por análise do texto isolado, porque ele contém as duas coisas: a proibição enfática e a cláusula que a suspende.

A alegoria da oliveira e o diálogo com Romanos 11

O capítulo 5 reproduz uma longa alegoria atribuída a Zenos, profeta que não aparece na Bíblia e é conhecido apenas pelo Livro de Mórmon, que o apresenta como autor presente nas placas de latão trazidas de Jerusalém.

A alegoria narra a história de uma oliveira cultivada, que envelhece e começa a definhar. O dono da vinha poda, cava, aduba, enxerta ramos de oliveira brava na árvore boa e transplanta ramos naturais para outras partes da vinha. Ao longo de sucessivas visitas, colhe frutos bons e maus, queima o que apodreceu e faz uma última poda antes do fim. O capítulo 6 dá a chave: a oliveira é a casa de Israel; os enxertos são os gentios; as podas e transplantes são as dispersões e os recolhimentos do povo ao longo da história.

Comparar-te-ei, ó casa de Israel, a uma boa oliveira que um homem cultivou em sua vinha; e ela cresceu e envelheceu e começou a definhar.

Jacó 5:3

O paralelo com Romanos 11 é evidente e é o principal ponto de contato do livro com o Novo Testamento. Paulo também usa a oliveira para falar de Israel, também descreve ramos naturais quebrados, também fala de ramos de oliveira brava enxertados contra a natureza, e também adverte o enxerto a não se gloriar contra a raiz. Ao fundo dos dois textos está a imagem veterotestamentária de Israel como plantação de Deus, presente em Jeremias 11, em Oseias 14 e no cântico da vinha de Isaías 5.

A explicação dessa semelhança é onde as leituras divergem. Autores Santos dos Últimos Dias, e o volume acadêmico organizado por Stephen Ricks e John Welch sobre o tema, argumentam que Paulo teria acesso a uma tradição comum, possivelmente ao próprio Zenos por via indireta, o que explicaria as coincidências de vocabulário. James Faulconer, no capítulo desse volume dedicado a Jacó 5 e Romanos 11, compara os dois textos em detalhe, registra diferenças reais e sugere que a semelhança de vocabulário apontaria para um texto comum por trás dos dois. A leitura crítica é mais simples: o autor do século XIX conhecia Romanos 11 e desenvolveu a imagem em escala, e a semelhança é dependência direta na direção oposta à proposta pela leitura devocional.

Um dado é objetivo e não depende de qual leitura se adote: Zenos não é atestado em nenhuma fonte judaica, cristã ou arqueológica fora do Livro de Mórmon. Não há manuscrito, citação patrística ou fragmento de Qumran que o mencione.

Os demais paralelos bíblicos

Fora da alegoria, o livro é fortemente marcado pela linguagem profética do Antigo Testamento. A imagem do sangue do povo caindo sobre as vestes de quem não ensinou vem de Ezequiel 33. A denúncia do orgulho e do abuso dos pobres pelos ricos segue o padrão de Amós e de Isaías. A cegueira dos que procuram coisas que não podem compreender, no capítulo 4, aplica a Israel a figura da pedra rejeitada que se torna fundamento, presente no Salmo 118, em Isaías 28 e retomada em Atos 4 e em 1 Pedro 2.

O capítulo 4 também explicita a chave hermenêutica de toda a obra: a lei de Moisés é guardada porque aponta para Cristo, e o sacrifício de Isaque é lido como figura do Filho. É a mesma tipologia de Hebreus e de Gálatas 3, aplicada por um narrador que se apresenta como anterior ao Novo Testamento.

Eis que eles acreditavam em Cristo e adoravam o Pai em seu nome; e também nós adoramos o Pai em seu nome. E com este propósito guardamos a lei de Moisés, que a ele guia nossa alma.

Jacó 4:5

Evidências e o estado da discussão

Este livro oferece pouca matéria para arqueologia, por ser sobretudo sermão. Os pontos gerais permanecem os mesmos dos livros anteriores: não há confirmação arqueológica de nefitas, lamanitas, cidades ou eventos da narrativa nas Américas; a escrita chamada de egípcio reformado não corresponde a nada conhecido pela egiptologia; e os estudos genéticos de populações indígenas americanas apontam origem asiática, sem marcador do Oriente Médio no período relevante. Estudiosos Santos dos Últimos Dias respondem com modelos de geografia limitada e com a observação de que uma população pequena pode desaparecer do registro genético; críticos consideram a resposta insuficiente.

O terreno próprio de discussão deste livro é literário. De um lado, autores como John Welch apontam estruturas de composição hebraica antiga, sobretudo o quiasmo, que aparece com frequência nos capítulos de Jacó. Welch sustenta que o recurso era pouco conhecido no mundo de língua inglesa em 1830; críticos respondem que John Jebb (1820) e Thomas Boys (1824 e 1825) já o haviam descrito, e que o manual bíblico de Thomas Horne, que discute Jebb, teve edição na Filadélfia em 1825. De outro, críticos observam que o vocabulário teológico do livro, incluindo o modo de tratar graça, arrependimento e o inferno como lago de fogo, reflete o protestantismo americano do começo do século XIX, e que o próprio episódio de Serém no capítulo 7 tem a forma de uma disputa doutrinária moderna transposta para o passado. As duas observações são reais e coexistem sem que nenhuma delas encerre a questão.