Capítulos

Um pregador segurando uma semente erguida à luz, parábola da fé

Alma

O livro mais longo da obra. Reúne as missões de Alma e dos filhos de Mosias entre os lamanitas, o discurso sobre a fé como semente, o relato quiástico da conversão de Alma e as guerras nefitas sob o capitão Morôni

Sobre o livro

O Livro de Alma é o mais longo do Livro de Mórmon: 63 capítulos, cerca de um terço da obra inteira. Segue diretamente o Livro de Mosias e cobre pouco menos de quarenta anos da história nefita, situados na narrativa entre 91 e 52 a.C., os primeiros anos do governo dos juízes.

O título completo na edição é O Livro de Alma, Filho de Alma, e o protagonista é Alma, o filho, o perseguidor convertido que se torna primeiro juiz supremo e sumo sacerdote. A partir do capítulo 43 o foco muda para as guerras nefitas e o comandante militar Morôni. Alma sai de cena no capítulo 45, quando parte de Zaraenla e o texto declara que nada mais se soube dele. Essa mudança de gênero, do sermão para a crônica de guerra, é uma das características mais discutidas do livro.

Na primeira edição, de 1830, o livro não tinha a divisão em 63 capítulos que se usa hoje. A capitulação e a versificação atuais foram introduzidas por Orson Pratt na edição de 1879, o que explica por que blocos como os mandamentos de Alma aos filhos, nos capítulos 36 a 42, funcionam como unidades contínuas.

Autoria e data de composição

Na leitura de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o livro reúne registros nefitas do século I a.C.: sermões pregados por Alma, epístolas trocadas entre comandantes durante a guerra e crônicas dos missionários filhos de Mosias, tudo abreviado no século IV d.C. pelo editor Mórmon e traduzido por Joseph Smith em 1829. A hipótese explica a variação forte de estilo entre as partes doutrinárias, epistolares e militares.

Fora da tradição SUD, o consenso é que o texto foi ditado por Joseph Smith entre abril e junho de 1829, em Harmony (Pensilvânia) e Fayette (Nova York), e publicado em 1830, em prosa que imita a King James Version. Nessa leitura, os sermões de Alma tratam de disputas teológicas do protestantismo americano de então, e as guerras refletem a memória cultural das guerras de independência e de 1812. As duas reconstruções são incompatíveis, e este índice apresenta ambas sem arbitrar.

O que o livro narra

Alma como juiz e pregador

  • Neor é executado pela morte de Gideão, no primeiro caso de artimanhas sacerdotais(Alma 1:15)
  • Alma deixa o cargo de juiz para pregar em tempo integral(Alma 4:19)
  • As perguntas de Alma à igreja de Zaraenla sobre a mudança de coração(Alma 5:14)
  • Alma anuncia que o Cristo tomará sobre si as dores do povo(Alma 7:11)
  • Amuleque se junta a Alma para pregar em Amonia(Alma 8:30)
  • Zeezrom pergunta a Amuleque se o Filho de Deus é o próprio Pai Eterno(Alma 11:38)
  • Alma expõe o sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque(Alma 13:14)

A missão entre os lamanitas

  • Os filhos de Mosias partem para pregar aos lamanitas(Alma 17:9)
  • Amon defende os rebanhos do rei Lamôni(Alma 18:16)
  • Aarão ensina o pai de Lamôni sobre o plano de redenção(Alma 22:13)
  • Os ânti-néfi-leítas enterram as armas e recusam lutar(Alma 24:17)
  • Amon se gloria em Deus ao rever o êxito da missão(Alma 26:12)
  • Alma confronta Corior sobre a exigência de um sinal(Alma 30:43)

A fé, a conversão e os mandamentos aos filhos

  • Alma prega aos zoramitas pobres expulsos das sinagogas(Alma 32:5)
  • A comparação da palavra com uma semente plantada no coração(Alma 32:28)
  • Amuleque expõe a expiação infinita e o sacrifício(Alma 34:10)
  • Alma narra a Helamã a própria conversão(Alma 36:18)
  • Alma instrui Siblon sobre moderação(Alma 38:12)
  • Alma repreende Coriânton pelo pecado e pela deserção da missão(Alma 39:3)
  • A explicação sobre justiça, misericórdia e o estado da alma após a morte(Alma 42:25)

As guerras nefitas

  • Morôni prepara o exército com couraças e escudos(Alma 43:19)
  • O estandarte da liberdade é erguido contra Amaliquias(Alma 46:12)
  • Amaliquias obtém o reino lamanita por fraude, depois de mandar matar o rei(Alma 47:35)
  • Os dois mil jovens de Helamã entram na guerra(Alma 53:22)
  • Nenhum dos dois mil jovens morre em combate(Alma 56:56)
  • Morôni acusa o governo de negligência em carta a Paorão(Alma 60:33)
  • Morôni morre no trigésimo sexto ano do governo dos juízes(Alma 63:3)

A fé como semente

O capítulo 32 é a passagem doutrinária mais conhecida do livro. Alma prega a zoramitas pobres, expulsos das sinagogas que ajudaram a construir, e propõe um experimento: plantar a palavra no coração como quem planta uma semente e observar se ela cresce. A metáfora é desenvolvida por dezenas de versículos, com a distinção entre fé e conhecimento perfeito no centro.

E agora, conforme falei com referência à fé, fé não é ter um perfeito conhecimento das coisas; portanto, se tendes fé, tendes esperança nas coisas que se não veem e que são verdadeiras.

Alma 32:21, Alma 32:21

A formulação é próxima da definição de fé em Hebreus 11:1, na redação da King James, e o desenvolvimento da semente lembra a parábola do semeador nos evangelhos sinóticos. Para leitores SUD, isso reflete um ensino comum aos profetas de todos os tempos. Para leitores críticos, é dependência do Novo Testamento em um discurso ambientado antes dele. O paralelo textual não é contestado por nenhum lado.

Compararemos a palavra a uma semente. Ora, se derdes lugar em vosso coração para que uma semente seja plantada, eis que, se for uma semente verdadeira, ou seja, uma boa semente, se não a lançardes fora por vossa incredulidade, resistindo ao Espírito do Senhor, eis que ela começará a inchar em vosso peito.

Alma 32:28, Alma 32:28

A conversão de Alma e o argumento do quiasmo

No capítulo 36, Alma conta ao filho Helamã como foi detido por um anjo, ficou três dias em tormento pela lembrança dos próprios pecados, invocou o nome de Cristo e passou a uma alegria igualmente intensa. É o terceiro relato do mesmo episódio na obra, depois de Mosias 27 e ao lado de Alma 38.

Ora, tendo fixado a mente nesse pensamento, clamei em meu coração: Ó Jesus, tu que és Filho de Deus, tem misericórdia de mim que estou no fel da amargura e rodeado pelas eternas correntes da morte.

Alma 36:18, Alma 36:18

Em 1967, servindo como missionário em Regensburg, na Alemanha, John W. Welch identificou no capítulo inteiro um quiasmo, isto é, uma estrutura em espelho na qual os elementos da primeira metade reaparecem em ordem inversa na segunda, com o clamor a Jesus no centro. Publicou a análise a partir de 1969 e depois a desenvolveu como professor de direito na Universidade Brigham Young. O quiasmo é uma figura reconhecida na poesia hebraica e na literatura do Antigo Oriente Próximo. Welch argumentou que uma estrutura tão ampla seria improvável em um ditado oral rápido, feito por autor sem formação em retórica semítica.

A objeção mais desenvolvida é de Earl M. Wunderli, na revista Dialogue em 2005. Wunderli sustenta que a estrutura proposta deixa de fora boa parte do texto do capítulo, que os pares apontados dependem de palavras comuns e de escolhas seletivas do analista, e que o mesmo método aplicado a textos modernos produz quiasmos onde ninguém os pretendeu. Os físicos Boyd F. Edwards e W. Farrell Edwards responderam na mesma revista com critérios formais e um cálculo estatístico de intencionalidade; Wunderli replicou que o cálculo depende dos mesmos pares que estão em disputa. O debate segue aberto e é um dos mais técnicos em torno da obra.

Justiça e misericórdia: a instrução a Coriânton

Os capítulos 39 a 42 são uma repreensão e uma catequese dirigidas a Coriânton, filho de Alma que abandonou a missão entre os zoramitas por causa de um pecado sexual. A sequência responde a três perguntas do jovem: o que acontece com a alma entre a morte e a ressurreição, se a ressurreição alcança todos, e como Deus pode punir o pecador sendo misericordioso.

Acaso supões que a misericórdia possa roubar a justiça? Afirmo-te que não; de modo algum. Se assim fosse, Deus deixaria de ser Deus.

Alma 42:25, Alma 42:25

Essa é a exposição mais sistemática da expiação em todo o Livro de Mórmon, e a base do ensino SUD sobre o plano de salvação. O argumento é o de uma lei violada que exige reparação, satisfeita por um sacrifício que permite ao arrependido escapar da pena sem anular a justiça. Críticos apontam que a estrutura corresponde de perto à teologia da satisfação penal corrente no protestantismo anglo-americano dos séculos XVIII e XIX. Autores SUD respondem que a lógica de justiça e substituição já está em Isaías e em Paulo, e que o texto a formula em vocabulário próprio, com o período probatório da mortalidade e o estado intermediário das almas.

As guerras nefitas e o capitão Morôni

A partir do capítulo 43 o livro vira crônica militar. O comandante Morôni equipa os soldados com couraças, escudos e capacetes, fortifica cidades com valas e paliçadas de madeira, e enfrenta o dissidente Amaliquias, que se torna rei dos lamanitas por assassinato. No capítulo 46, ao reagir a uma insurreição interna, Morôni rasga a própria túnica e escreve nela uma divisa que se torna o símbolo mais reproduzido da obra.

E aconteceu que rasgou sua túnica e, pegando um pedaço dela, nele escreveu: Em lembrança de nosso Deus, nossa religião e nossa liberdade e nossa paz, nossas esposas e nossos filhos.

Alma 46:12, Alma 46:12

O episódio dos dois mil jovens comandados por Helamã, filhos dos convertidos que haviam jurado nunca mais pegar em armas, aparece nos capítulos 53 e 56 a 58 e é lido nas congregações SUD como narrativa de fé transmitida pelas mães. Já a troca de cartas entre Morôni e o juiz supremo Paorão, nos capítulos 59 a 61, é uma peça sobre acusação precipitada e sedição interna, com Morôni acusando o governo de negligência antes de descobrir que Paorão fora deposto por rebeldes.

Do ponto de vista literário, essas dezenas de capítulos militares são incomuns em um livro apresentado como escritura, e comentaristas SUD e não SUD divergem sobre a função delas. A leitura devocional as toma como estudo de liderança justa. A leitura crítica observa que a guerra ocupa mais espaço que a doutrina justamente na parte final do livro e vê nisso um traço de composição narrativa.

O problema dos anacronismos materiais

O Livro de Alma é onde a cultura material nefita aparece com mais detalhe, e por isso concentra a discussão sobre anacronismos. O texto menciona cavalos e carros, espadas e cimitarras, couraças, aço, gado, ovelhas, cevada e trigo em um cenário americano anterior ao contato europeu.

Item citadoObjeção arqueológicaResposta apresentada por autores SUD
Cavalos e carrosO cavalo americano nativo se extinguiu no fim do Pleistoceno e só reaparece com os espanhóis no século XVI. Não há roda usada em transporte na Mesoamérica.O termo poderia designar outro animal, como anta ou veado, por deslocamento de nome na tradução. O texto nunca mostra cavalos montados nem usados em batalha.
Aço e espadas de metalNão há metalurgia de ferro ou aço documentada na Mesoamérica pré colombiana no período em questão.A palavra poderia designar liga endurecida ou obsidiana em arma de madeira, como o macuahuitl asteca. Referências a aço somem depois de certo ponto da narrativa.
Gado, ovelhas, trigo e cevadaEssas espécies domésticas do Velho Mundo não estão atestadas nas Américas antes do contato europeu.Nomes conhecidos podem ter sido aplicados a espécies locais. Uma cevada nativa pré-colombiana foi identificada nos Estados Unidos nos anos 1980, embora não na Mesoamérica.
Cimento e construçõesEra citado como anacronismo até meados do século XX.O uso de cimento na Mesoamérica do século I a.C. foi documentado depois e deixou de ser objeção.

A posição de referência da arqueologia americana profissional, incluindo a Smithsonian Institution em declarações públicas do século XX, é que não há evidência arqueológica que sustente a narrativa do Livro de Mórmon como história das Américas. A resposta SUD mais comum é de escala e de geografia: propõe que os eventos ocorreram em área limitada da Mesoamérica, entre populações maiores já presentes, e que a ausência de evidência de um grupo pequeno em dois milênios não é evidência de ausência. Críticos respondem que várias das objeções não dependem de encontrar um povo específico, mas de espécies e tecnologias que deixariam rastro amplo.

Dois itens mudaram de posição com descobertas posteriores: o cimento mesoamericano e a cevada nativa deixaram de funcionar como objeções diretas. Cavalos, carros e aço seguem na lista, e as respostas propostas para eles circulam sobretudo na erudição SUD, sem adesão da arqueologia americanista em geral. Nenhum desses pontos isolados decide a questão de fundo, e há literatura extensa e ativa dos dois lados.

Como o livro é lido

Para os Santos dos Últimos Dias, Alma é escritura de primeira ordem. O sermão sobre a semente, as perguntas do capítulo 5, a resposta a Coriânton e o estandarte da liberdade estão entre os textos mais pregados e memorizados da tradição, e o livro inteiro entra no currículo Vem, e Segue-Me a cada quatro anos. A Comunidade de Cristo também o mantém no cânone, sem exigir dos membros posição definida sobre sua historicidade nem uso obrigatório na pregação.

Fora dessas comunidades, o livro é lido como documento religioso americano do século XIX e, mais recentemente, como objeto de estudo literário. A edição anotada organizada por Grant Hardy e publicada pela Oxford University Press em 2023 é o exemplo mais visível dessa recepção acadêmica, que analisa narradores, estrutura e retórica sem antes decidir a questão da origem do texto.

Este índice descreve as duas leituras porque as duas existem e porque o leitor cristão de outra tradição vai encontrá las assim que procurar. O texto disponível aqui é tido por sagrado por milhões de pessoas, e um índice bibliográfico não é o lugar de decidir sua origem.