A Guerra dos Judeus - Livro IV 8
Livro IV: os zelotes, Gamala e a ascensão de Vespasiano
Como Vespasiano, ao saber de algumas agitações na Gália, apressou-se para terminar a guerra judaica. Uma descrição de Jericó e da grande planície, com um relato também sobre o lago Asfaltite.
Nesse meio-tempo chegou a notícia de que havia agitações na Gália e de que Vindex, junto com os homens de poder daquela região, tinha se revoltado contra Nero. Esse episódio está descrito com mais detalhe em outro lugar. A notícia, relatada assim a Vespasiano, levou-o a tocar a guerra com mais energia, pois ele já previa as guerras civis que se aproximavam. Mais ainda: o próprio governo estava em perigo. Ele pensava que, se conseguisse primeiro pacificar as regiões orientais do império, tornaria mais leves os temores quanto à Itália. Como o inverno o impedia de sair a campo, ele instalou guarnições nas aldeias e nas cidades menores, para protegê-las. Pôs também decuriões nas aldeias e centuriões nas cidades, e reconstruiu muitas das cidades que tinham sido arrasadas. No começo da primavera ele tomou a maior parte do exército e marchou de Cesareia até Antipátris. Lá passou dois dias organizando os assuntos daquela cidade. No terceiro dia retomou a marcha, devastando e incendiando todas as aldeias vizinhas. Depois de arrasar todos os lugares em torno da toparquia de Tamnas, avançou até Lida e Jâmnia. Quando essas duas cidades passaram para o seu lado, ele instalou nelas muitos dos que tinham vindo de outros lugares para o seu lado, fazendo deles moradores. Em seguida chegou a Emaús, onde tomou as passagens que de lá levavam à capital deles e fortificou seu acampamento. Deixando ali a quinta legião, seguiu até a toparquia de Betletefon. Destruiu aquele lugar e os arredores pelo fogo e fortificou, em pontos adequados, as fortalezas em volta da Idumeia. Quando tomou duas aldeias situadas bem no meio da Idumeia, Betáris e Cafartoba, matou mais de dez mil pessoas, levou mais de mil ao cativeiro, expulsou o resto da multidão e instalou nelas boa parte das suas próprias forças. Essas tropas percorreram e devastaram toda a região montanhosa. Enquanto isso, ele, com o restante das forças, voltou a Emaús. De lá desceu pelo território da Samaria, passando junto à cidade que outros chamam de Neápolis, mas que os habitantes daquela região chamam de Maborta, até Coreia, onde montou acampamento, no segundo dia do mês de Désio [Sivã]. No dia seguinte chegou a Jericó. Naquele mesmo dia, Trajano, um de seus comandantes, juntou-se a ele com as forças que trouxe da Pereia, pois todos os lugares além do Jordão já tinham sido subjugados.
Diante disso, uma grande multidão se antecipou à chegada deles, saiu de Jericó e fugiu para as regiões montanhosas que ficam em frente a Jerusalém. A parte da população que ficou para trás foi em boa medida destruída. Eles encontraram a cidade deserta. Jericó fica numa planície, mas uma montanha nua e estéril, de grande extensão, paira sobre ela. Essa montanha se estende até a terra de Citópolis ao norte, e até o território de Sodoma e os limites extremos do lago Asfaltite ao sul. Toda ela é muito acidentada e desabitada, por causa da aridez. Há uma montanha oposta, situada de frente para ela, do outro lado do Jordão. Essa última começa em Júlias e nas regiões do norte, e se estende para o sul até Somorron, que é a fronteira de Petra, na Arábia. Nessa cadeia de montanhas há uma chamada Montanha de Ferro, que se prolonga até Moabe. A região que fica no meio, entre essas cadeias de montanhas, é chamada de grande planície. Vai da aldeia de Ginabris até o lago Asfaltite. Seu comprimento é de duzentos e trinta estádios, e sua largura de cento e vinte, e é dividida ao meio pelo Jordão. Há nela dois lagos, o Asfaltite e o de Tiberíades, cujas naturezas são opostas entre si, pois o primeiro é salgado e infértil, mas o de Tiberíades é doce e fértil. Essa planície fica muito ressecada no verão e, por causa do calor extraordinário, tem um ar muito insalubre. É toda desprovida de água, com exceção do rio Jordão. É essa água do Jordão que faz com que os palmeirais próximos às suas margens sejam mais viçosos e muito mais frutíferos, enquanto os que ficam longe dele não são tão viçosos nem tão frutíferos.
Apesar disso, há uma fonte junto a Jericó que corre em abundância e é muito adequada para irrigar o solo. Ela brota perto da cidade antiga, que Josué, filho de Num, general dos hebreus, foi a primeira de todas as cidades da terra de Canaã que ele tomou por direito de guerra. Conta-se que essa fonte, no princípio, causava não só o ressecamento da terra e das árvores, mas também a morte das crianças que as mulheres davam à luz. Ela era inteiramente de natureza doentia e corruptora para todas as coisas. Mas foi tornada suave, muito saudável e fértil pelo profeta Eliseu. Esse profeta foi próximo de Elias e seu sucessor. Quando ele certa vez foi hóspede do povo de Jericó, e os homens do lugar o trataram com muita bondade, ele os recompensou, e ao território também, com um favor duradouro. Ele saiu da cidade até essa fonte e lançou na correnteza um vaso de barro cheio de sal. Depois estendeu a mão justa para o céu, derramou uma oferta de bebida suave e fez esta súplica: que "a correnteza fosse abrandada, que as veias de água fresca se abrissem, que Deus também trouxesse ao lugar um ar mais temperado e fértil para a correnteza, e concedesse ao povo daquela região abundância dos frutos da terra e uma sucessão de filhos, e que essa água fecunda nunca lhes faltasse, enquanto continuassem a ser justos". A essas orações Eliseu juntou as operações certas de suas mãos, de modo hábil, e transformou a fonte. Aquela água, que antes fora causa de esterilidade e fome, a partir daquele momento passou a sustentar uma numerosa descendência e a dar grande abundância ao território. O poder dela em irrigar o solo é tão grande que, se ela apenas toca uma vez uma região, oferece um alimento mais doce do que outras águas dão quando ficam tanto tempo sobre o solo até saturá-lo. Por isso, a vantagem obtida com outras águas, mesmo quando elas correm em grande abundância, é pequena, enquanto a dessa água é grande, ainda que ela corra em pouca quantidade. Ela irriga uma faixa de terra maior do que qualquer outra água e percorre uma planície de setenta estádios de comprimento por vinte de largura. Nela alimenta aqueles jardins excelentes, densamente cobertos de árvores. Há nela muitos tipos de palmeiras, regadas por ela, diferentes umas das outras no sabor e no nome. As melhores delas, quando prensadas, produzem um excelente tipo de mel, não muito inferior em doçura aos outros méis. Essa região produz, além disso, mel de abelhas. Ela também dá aquele bálsamo, que é o mais precioso de todos os frutos do lugar, além de ciprestes e árvores que produzem o mirobálano. De modo que quem declarasse esse lugar divino não estaria enganado. Nele produz-se tanta variedade de árvores, muito raras e do tipo mais excelente. E, de fato, se falarmos dos outros frutos, não será fácil encontrar algum clima na terra habitada que possa de fato ser comparado a ele. O que aqui se semeia brota em tais cachos. A causa disso me parece ser o calor do ar e a fertilidade das águas. O calor faz despontar os brotos e os faz se espalhar, e a umidade faz cada um deles criar raízes firmes e fornece aquela força de que ele precisa no verão. Essa região fica então tão ressecada que ninguém se importa em chegar perto dela. E se a água for tirada antes do nascer do sol e depois exposta ao ar, ela fica extremamente fria, de natureza totalmente contrária ao ar ao redor. No inverno, ao contrário, ela fica morna. E se você entrar nela, parece muito suave. O ar ao redor aqui é também de temperatura tão boa que o povo da região se veste só de linho, mesmo quando a neve cobre o resto da Judeia. Esse lugar fica a cento e cinquenta estádios de Jerusalém e a sessenta do Jordão. A região até Jerusalém é deserta e pedregosa. Mas a que vai até o Jordão e o lago Asfaltite fica mais baixa, ainda que seja igualmente deserta e estéril. Mas isto baste sobre Jericó e sobre a grande felicidade de sua localização.
A natureza do lago Asfaltite também merece descrição. Ele é, como já disse, amargo e infértil. É tão leve [ou denso] que sustenta as coisas mais pesadas que se atiram nele. E não é fácil para ninguém fazer afundar algo até o fundo, mesmo que queira. Por isso, quando Vespasiano foi vê-lo, ordenou que alguns que não sabiam nadar fossem amarrados pelas mãos atrás das costas e lançados nas águas fundas. Aconteceu então que todos boiaram, como se um vento os tivesse empurrado para cima. Além disso, a mudança de cor desse lago é admirável, pois ele muda de aparência três vezes por dia. Conforme os raios do sol caem sobre ele de modo diferente, a luz se reflete de várias maneiras. Ele lança também torrões negros de betume em muitas partes. Esses torrões boiam na superfície da água e lembram, na forma e no tamanho, touros sem cabeça. Quando os trabalhadores que cuidam do lago chegam até eles e os agarram, na forma como ficam grudados, puxam-nos para dentro dos barcos. Mas, quando o barco está cheio, não é fácil cortar o resto, pois o betume é tão pegajoso que faz o barco ficar preso aos seus torrões, até que o soltem com o sangue menstrual de mulheres e com urina, às únicas coisas a que ele cede. Esse betume é útil não só para calafetar barcos, mas também para curar o corpo das pessoas. Por isso é misturado em muitos remédios. O comprimento desse lago é de quinhentos e oitenta estádios, onde se estende até Zoar, na Arábia, e sua largura é de cento e cinquenta. A região de Sodoma faz fronteira com ele. Antigamente era uma terra muito feliz, tanto pelos frutos que dava quanto pela riqueza de suas cidades, embora agora esteja toda calcinada. Conta-se que, pela impiedade de seus habitantes, ela foi queimada por raios. Em consequência disso ainda há os restos daquele fogo divino, e ainda se podem ver os vestígios [ou sombras] das cinco cidades, bem como as cinzas que crescem em seus frutos. Esses frutos têm uma cor como se estivessem prontos para ser comidos, mas, se você os colhe com as mãos, eles se desfazem em fumaça e cinzas. E assim o que se conta dessa terra de Sodoma tem essas marcas de credibilidade que a nossa própria visão nos oferece.