A Guerra dos Judeus - Livro I 8

Livro I: dos Macabeus à morte de Herodes, o Grande

Alexandre, filho de Aristóbulo, que fugira de Pompeu, faz uma expedição contra Hircano, mas, vencido por Gabínio, entrega-lhe as fortalezas. Depois disso, Aristóbulo escapa de Roma e reúne um exército, mas, derrotado pelos romanos, é levado de volta a Roma. Com outros fatos relativos a Gabínio, Crasso e Cássio.

Nesse meio-tempo, Escauro fez uma expedição à Arábia, mas foi detido pela dificuldade do terreno em torno de Petra. Ainda assim, devastou a região de Pela, embora ali também passasse por grande aperto, pois seu exército era atormentado pela fome. Para suprir essa falta, Hircano lhe deu alguma ajuda e lhe enviou provisões por intermédio de Antípater. A esse mesmo Antípater, Escauro mandou a Aretas, por ser ele conhecido do rei, para convencê-lo a pagar dinheiro e comprar a paz. O rei da Arábia aceitou a proposta e lhe deu trezentos talentos. Com isso, Escauro retirou seu exército da Arábia.
Quanto a Alexandre, aquele filho de Aristóbulo que fugira de Pompeu, depois de algum tempo reuniu um bando considerável de homens. Ele pressionava Hircano com força, percorria a Judeia toda e parecia prestes a derrubá-lo rapidamente. De fato, teria chegado a Jerusalém e se arriscado a reconstruir a muralha que Pompeu derrubara, se Gabínio, enviado como sucessor de Escauro na Síria, não tivesse mostrado sua coragem, como em muitos outros pontos, também ao fazer uma expedição contra Alexandre. Como temia ser atacado, Alexandre reuniu um grande exército, composto de dez mil soldados de infantaria armados e mil e quinhentos cavaleiros. Também ergueu muralhas em pontos estratégicos: Alexandrium, Hircânio e Maquero, que ficavam sobre as montanhas da Arábia.
Gabínio, no entanto, enviou Marco Antônio à frente e seguiu ele próprio com todo o seu exército. O corpo seleto de soldados que estava com Antípater, e outro corpo de judeus sob o comando de Malico e Pitolau, juntaram-se aos comandantes que estavam com Marco Antônio e foram ao encontro de Alexandre. A esse contingente logo se somou Gabínio, com o grosso do seu exército. Como Alexandre não conseguiu sustentar o ataque das forças inimigas, agora que estavam reunidas, recuou. Mas, ao chegar perto de Jerusalém, foi forçado a lutar e perdeu seis mil homens na batalha: três mil tombaram mortos e três mil foram capturados vivos. Com o restante, fugiu para Alexandrium.
Quando Gabínio chegou a Alexandrium, como encontrou muitos acampados ali, tentou, prometendo perdão por suas ofensas anteriores, convencê-los a passar para o seu lado antes que se chegasse ao combate. Mas, como não quiseram aceitar nenhum acordo, matou um grande número deles e prendeu muitos outros na cidadela. Marco Antônio, líder deles, distinguiu-se nessa batalha. Sempre demonstrara grande coragem, mas nunca a demonstrou tanto quanto agora. Gabínio, deixando tropas para tomar a cidadela, partiu ele próprio e reorganizou as cidades que não tinham sido demolidas, reconstruindo as que tinham sido destruídas. Assim, por ordem dele, foram restauradas as seguintes cidades: Escitópolis, Samaria, Antedon, Apolônia, Jâmnia, Rafia, Marissa, Adoreu, Gamala, Asdode e muitas outras. Grande número de homens acorria de bom grado a cada uma delas e tornava-se seu habitante.
Depois de cuidar dessas cidades, Gabínio voltou a Alexandrium e intensificou o cerco. Quando Alexandre perdeu a esperança de algum dia obter o governo, enviou embaixadores a ele, pediu-lhe que perdoasse as ofensas que cometera e entregou-lhe as fortalezas que restavam, Hircânio e Maquero, e depois pôs também Alexandrium em suas mãos. Gabínio demoliu todas elas, por insistência da mãe de Alexandre, para que não servissem de abrigo a homens em uma segunda guerra. Ela estava ali agora para abrandar Gabínio, preocupada com seus parentes que eram cativos em Roma, ou seja, seu marido e seus outros filhos. Em seguida, Gabínio levou Hircano a Jerusalém e confiou-lhe o cuidado do templo, mas determinou que o restante do governo político fosse uma aristocracia. Dividiu também toda a nação em cinco assembleias, atribuindo uma parte a Jerusalém, outra a Gádara, outra a Amato, uma quarta a Jericó, e à quinta divisão coube Séforis, uma cidade da Galileia. O povo ficou contente de se ver assim livre do governo monárquico, e passou a ser governado dali em diante por uma aristocracia.
Mesmo assim, Aristóbulo deu motivo a novas perturbações. Fugiu de Roma e reuniu de novo muitos dos judeus que desejavam mudança, aqueles que lhe tinham afeição desde os velhos tempos. Tomou primeiro Alexandrium e tentou erguer uma muralha ao seu redor. Mas, assim que Gabínio enviou contra ele um exército sob o comando de Sisena, Antônio e Servílio, ele percebeu o movimento e recuou para Maquero. Quanto à multidão inútil, ele a dispensou e marchou apenas com os homens armados, num total de oito mil, entre os quais estava Pitolau, que tinha sido lugar-tenente em Jerusalém, mas desertara para Aristóbulo com mil de seus homens. Os romanos o perseguiram e, quando se chegou à batalha, o grupo de Aristóbulo lutou com coragem por muito tempo. No fim, no entanto, foram subjugados pelos romanos: cinco mil deles tombaram mortos e cerca de dois mil fugiram para uma pequena colina. Mas os mil que ficaram com Aristóbulo romperam o exército romano e marcharam juntos para Maquero. Tendo o rei passado a primeira noite sobre as ruínas, alimentava a esperança de levantar outro exército, se ao menos a guerra cessasse por algum tempo. Por isso fortificou aquela posição forte, ainda que de modo precário. Mas os romanos avançaram sobre ele, e ele resistiu por dois dias além de suas forças, até que foi capturado e levado prisioneiro a Gabínio, junto com seu filho Antígono, que fugira de Roma com ele. De Gabínio foi levado de novo a Roma. O senado então o pôs em prisão, mas devolveu seus filhos à Judeia, porque Gabínio os informara por carta de que prometera à mãe de Aristóbulo fazê-lo, em troca da entrega das fortalezas.
Quando Gabínio marchava para a guerra contra os partos, foi impedido por Ptolemeu, que, ao voltar do Eufrates, ele reconduziu ao Egito, valendo-se de Hircano e Antípater para prover tudo o que era necessário a essa expedição. Antípater forneceu-lhe dinheiro, armas, trigo e tropas auxiliares. Também convenceu os judeus que ali estavam, e que guardavam as passagens em Pelúsio, a deixá-los passar. Mas, durante a ausência de Gabínio, a outra parte da Síria entrou em agitação, e Alexandre, filho de Aristóbulo, levou os judeus a se rebelarem outra vez. Reuniu um exército muito grande e pôs-se a matar todos os romanos que estavam no país. Diante disso, Gabínio se assustou (pois tinha voltado do Egito, obrigado a regressar rápido por causa desses tumultos) e enviou Antípater, que convenceu alguns dos revoltosos a se acalmarem. Ainda assim, trinta mil permaneceram com Alexandre, que ele próprio estava ansioso por lutar. Gabínio então saiu para a batalha. Os judeus foram ao seu encontro e, como a batalha se travou perto do monte Tabor, dez mil deles foram mortos, e o restante da multidão se dispersou e fugiu. Gabínio veio então a Jerusalém e organizou o governo como Antípater queria. Dali marchou, combateu e derrotou os nabateus. Quanto a Mitrídates e Orsanes, que fugiram da Pártia, ele os deixou partir em segredo, mas espalhou entre os soldados que tinham escapado.
Nesse meio-tempo, Crasso chegou como sucessor de Gabínio na Síria. Levou todo o restante do ouro pertencente ao templo de Jerusalém, a fim de se prover para sua expedição contra os partos. Levou também os dois mil talentos em que Pompeu não tocara. Mas, depois de atravessar o Eufrates, pereceu junto com seu exército. Sobre esses fatos, este não é o momento apropriado para falar [mais detidamente].
Depois de Crasso, foi Cássio quem deteve os partos, que marchavam para entrar na Síria. Cássio fugira para essa província e, ao tomar posse dela, fez uma marcha rápida para a Judeia. Ao capturar Taricheia, levou trinta mil judeus à escravidão. Matou também Pitolau, que apoiara os seguidores sediciosos de Aristóbulo, e foi Antípater quem o aconselhou a fazê-lo. Esse Antípater casara com uma mulher de família ilustre entre os árabes, chamada Cipros, e teve com ela quatro filhos: Fasael, Herodes (que mais tarde foi rei) e, além desses, José e Feroras. Teve também uma filha chamada Salomé. Como fazia amigos entre os homens de poder em toda parte, pelos favores que lhes prestava e pelo modo hospitaleiro com que os tratava, firmou também a maior amizade com o rei da Arábia, ao se casar com uma parente dele, a ponto de, quando entrou em guerra com Aristóbulo, lhe confiar seus filhos. Assim, quando Cássio forçou Alexandre a fazer um acordo e ficar quieto, voltou ao Eufrates para impedir que os partos o atravessassem de novo, assunto sobre o qual falaremos em outro lugar.