A Guerra dos Judeus - Livro I 4
Livro I: dos Macabeus à morte de Herodes, o Grande
Os feitos de Alexandre Janeu, que reinou vinte e sete anos.
A esposa do rei então soltou os irmãos do rei e fez Alexandre rei. Ele era o mais velho em idade e o mais moderado em temperamento entre todos. Ao assumir o governo, matou um dos irmãos, que aspirava reinar em seu lugar. Mas teve o outro em grande estima, pois esse amava uma vida tranquila, sem se envolver com assuntos públicos.
Aconteceu então de haver uma batalha entre ele e Ptolomeu, chamado Latiro, que havia tomado a cidade de Asóquis. Alexandre de fato matou muitos de seus inimigos, mas a vitória pendeu mais para o lado de Ptolomeu. No entanto, quando esse Ptolomeu foi perseguido por sua mãe Cleópatra e se retirou para o Egito, Alexandre sitiou Gádara e a tomou. Tomou também Amato, a mais forte de todas as fortalezas ao redor do Jordão, onde estavam os bens mais preciosos de Teodoro, filho de Zeno. Diante disso, Teodoro marchou contra ele, recuperou o que era seu e ainda a bagagem do rei, e matou dez mil dos judeus. Mesmo assim Alexandre se recuperou desse golpe e voltou suas forças para a região litorânea, tomando Rafia e Gaza, e também Antedon, que mais tarde foi chamada de Agripias pelo rei Herodes.
Mas quando ele escravizou os cidadãos de todas essas cidades, a nação dos judeus se rebelou contra ele durante uma festa, pois é nessas festas que costumam começar as sedições. Pareceu que ele não escaparia do plano que tramaram contra ele, se seus auxiliares estrangeiros, os pisídios e os cilícios, não o tivessem socorrido. Quanto aos sírios, ele nunca os admitiu entre suas tropas mercenárias, por causa da hostilidade que nutriam por natureza contra a nação judaica. Depois de matar mais de seis mil dos rebeldes, ele fez uma incursão na Arábia. Quando conquistou aquele país, junto com os gileaditas e os moabitas, ordenou que lhe pagassem tributo e voltou a Amato. Como Teodoro ficou surpreso com seu grande sucesso, Alexandre tomou a fortaleza e a destruiu.
No entanto, quando lutou contra Obodas, rei dos árabes, que lhe armara uma emboscada perto de Golã e tramara contra ele, Alexandre perdeu todo o seu exército, espremido em um vale profundo e despedaçado pela multidão de camelos. Depois de escapar para Jerusalém, ele provocou a multidão que já o odiava a se rebelar contra ele, por causa da grandeza da calamidade que havia sofrido. Ainda assim, ele foi forte demais para eles. Nas várias batalhas travadas dos dois lados, matou não menos de cinquenta mil judeus ao longo de seis anos. Mas não tinha motivo para se alegrar com essas vitórias, pois apenas consumia o próprio reino. Por fim, cansou de lutar e tentou chegar a um acordo com eles, conversando com seus súditos. Mas essa inconstância e irregularidade de conduta fez com que o odiassem ainda mais. Quando ele lhes perguntou por que o odiavam tanto e o que deveria fazer para apaziguá-los, responderam que se matasse. Disseram que mesmo assim seria o máximo que poderiam fazer para se reconciliarem com alguém que cometera coisas tão trágicas contra eles, ainda que morto. Ao mesmo tempo, eles convidaram Demétrio, chamado Eucero, para ajudá-los. Ele atendeu prontamente ao pedido, na esperança de grandes vantagens, e veio com seu exército. Os judeus se juntaram a esses auxiliares perto de Siquém.
Mesmo assim, Alexandre enfrentou ambas as forças com mil cavaleiros e oito mil mercenários a pé. Tinha consigo também a parte dos judeus que o favorecia, num total de dez mil. O lado adversário tinha três mil cavaleiros e quatorze mil soldados a pé. Antes de travarem batalha, os reis fizeram proclamações e tentaram atrair os soldados um do outro, levando-os à deserção. Demétrio esperava convencer os mercenários de Alexandre a abandoná-lo, e Alexandre esperava convencer os judeus que estavam com Demétrio a abandoná-lo. Mas como nem os judeus deixaram de lado sua fúria, nem os gregos se mostraram desleais, eles travaram combate em luta corpo a corpo com as armas. Nessa batalha, Demétrio venceu, embora os mercenários de Alexandre tenham realizado os maiores feitos, tanto em coragem quanto em força física. Ainda assim, o desfecho dessa batalha foi diferente do esperado para os dois lados. Os que convidaram Demétrio não permaneceram fiéis a ele, mesmo sendo o vencedor. E seis mil judeus, com pena da mudança na situação de Alexandre, que fugira para as montanhas, passaram para o lado dele. Demétrio não suportou essa virada nos acontecimentos. Supondo que Alexandre já voltara a ser páreo para ele e que toda a nação acabaria correndo para o lado dele, abandonou o país e foi embora.
No entanto, o resto da multidão [judaica] não deixou de lado suas disputas com ele quando os auxiliares [estrangeiros] partiram. Mantiveram uma guerra contínua contra Alexandre, até que ele matou a maior parte deles e expulsou os demais para a cidade de Bemeselis. Quando demoliu essa cidade, levou os cativos para Jerusalém. Sua fúria chegou a ser tão extravagante que sua brutalidade alcançou o grau da impiedade. Ele ordenou que oitocentos fossem pendurados em cruzes no meio da cidade e mandou cortar a garganta das mulheres e dos filhos deles diante de seus olhos. Assistiu a essas execuções enquanto bebia, recostado com suas concubinas. Diante disso, um espanto tão profundo tomou conta do povo que oito mil de seus opositores fugiram já na noite seguinte, deixando toda a Judeia. A fuga só terminou com a morte de Alexandre. Assim, por fim, ainda que tarde e com grande dificuldade, ele conseguiu com tais ações trazer paz ao seu reino e parou de lutar.
Mas aquele Antíoco, também chamado Dionísio, voltou a se tornar origem de problemas. Esse homem era irmão de Demétrio e o último da linhagem dos selêucidas. Alexandre temia que ele marchasse contra os árabes. Por isso cavou uma trincheira profunda entre Antipátride, que ficava perto das montanhas, e a costa de Jope. Ergueu também um muro alto diante da trincheira e construiu torres de madeira, para impedir qualquer aproximação repentina. Ainda assim, não conseguiu barrar Antíoco, pois esse queimou as torres, encheu as trincheiras e seguiu adiante com seu exército. Como considerava de menor importância vingar-se de Alexandre por tentar detê-lo, marchou diretamente contra os árabes. O rei deles se retirou para as partes do país mais adequadas para enfrentar o inimigo, e então, de repente, fez sua cavalaria, que somava dez mil homens, dar meia-volta e atacar o exército de Antíoco em desordem. Seguiu-se uma batalha terrível. As tropas de Antíoco, enquanto ele esteve vivo, lutaram até o fim, embora os árabes fizessem uma enorme carnificina entre elas. Mas quando ele caiu, pois estava na linha de frente, no maior perigo, tentando reagrupar suas tropas, todos recuaram. A maior parte de seu exército foi destruída, seja na ação, seja na fuga. Quanto aos que fugiram para a aldeia de Caná, aconteceu que todos pereceram por falta de provisões, exceto uns poucos.
Por essa época, o povo de Damasco, por ódio a Ptolomeu, filho de Meneu, convidou Aretas [a assumir o governo] e o fez rei da Celessíria. Esse homem também fez uma expedição contra a Judeia e venceu Alexandre em batalha, mas depois se retirou por acordo mútuo. Já Alexandre, depois de tomar Pela, marchou novamente para Gérasa, movido pela cobiça que tinha pelos bens de Teodoro. Depois de construir um muro triplo ao redor da guarnição, tomou o lugar à força. Ele também demoliu Golã e Seleucia, e o que se chamava o vale de Antíoco. Além disso, tomou a forte fortaleza de Gamala e despojou Demétrio, que era governador ali, de tudo o que possuía, por causa dos muitos crimes de que era acusado. Depois voltou para a Judeia, após três anos inteiros nessa expedição. Agora ele foi bem recebido pela nação, por causa do bom sucesso que tivera. Quando estava em descanso da guerra, adoeceu, pois foi acometido por uma febre quartã. Supôs que, exercitando-se de novo em assuntos militares, se livraria dessa doença. Mas, ao fazer tais expedições em momentos inoportunos e ao forçar o corpo a suportar dificuldades maiores do que podia aguentar, levou-se à morte. Morreu, portanto, no meio de seus problemas, depois de ter reinado vinte e sete anos.