A Guerra dos Judeus - Livro I 5

Livro I: dos Macabeus à morte de Herodes, o Grande

Alexandra reina por nove anos, período em que os fariseus foram os verdadeiros governantes da nação.

Alexandre deixou o reino para Alexandra, sua esposa, confiante de que os judeus se submeteriam a ela com boa vontade. Afinal, ela sempre fora contrária à crueldade com que ele os tratava e tinha se oposto à violação das leis dele, o que lhe rendera a simpatia do povo. Suas expectativas se confirmaram. Essa mulher manteve o poder graças à reputação de piedade que tinha diante do povo, pois dedicava grande atenção aos antigos costumes do país e afastava do governo os homens que ofendiam as leis sagradas. Ela tivera dois filhos com Alexandre. Fez de Hircano, o mais velho, sumo sacerdote, tanto por causa da idade quanto por seu temperamento apático, que não o inclinava a perturbar a ordem pública. Manteve consigo o mais novo, Aristóbulo, como cidadão comum, por causa do temperamento exaltado dele.
Os fariseus então se uniram a ela para ajudá-la no governo. São uma seita de judeus que aparenta ser mais religiosa que as demais e que a impressão de interpretar as leis com mais rigor. Alexandra os ouvia de modo extraordinário, pois ela mesma era uma mulher de grande devoção a Deus. Mas esses fariseus, com habilidade, foram aos poucos ganhando o favor dela e acabaram se tornando os verdadeiros administradores dos assuntos públicos. Baniam e rebaixavam quem quisessem, prendiam e soltavam homens a seu bel-prazer e, em resumo, desfrutavam da autoridade real, enquanto as despesas e as dificuldades do cargo recaíam sobre Alexandra. Ela era uma mulher perspicaz na condução de grandes assuntos e estava sempre empenhada em reunir soldados. Aumentou o exército pela metade e formou um grande contingente de tropas estrangeiras, a ponto de a nação não ficar muito poderosa internamente como também temível aos governantes estrangeiros. Ela governava os outros povos, e os fariseus a governavam.
Por isso mataram Diógenes, um homem de destaque que tinha sido amigo de Alexandre. Acusaram-no de ter aconselhado o rei a crucificar os oitocentos homens mencionados. Convenceram também Alexandra a executar os demais que o haviam instigado contra eles. Ela era tão supersticiosa que atendia aos desejos deles, e assim mataram quem bem entenderam. Os principais entre os ameaçados, no entanto, fugiram para Aristóbulo, que persuadiu a mãe a poupar esses homens por causa da posição que ocupavam, mas a expulsá-los da cidade, a não ser que ela os considerasse inocentes. Assim, eles ficaram sem punição e se espalharam por todo o país. Quando Alexandra enviou seu exército a Damasco, sob o pretexto de que Ptolomeu vivia oprimindo a cidade, ela tomou posse dela, que quase não ofereceu resistência. Convenceu também Tigranes, rei da Armênia, que estava acampado com suas tropas perto de Ptolemaida e cercava Cleópatra, a ir embora, mediante acordos e presentes. Tigranes logo abandonou o cerco, por causa das revoltas internas provocadas pela campanha de Luculo na Armênia.
Nesse meio-tempo, Alexandra adoeceu. Aristóbulo, seu filho mais novo, aproveitou a oportunidade. Com seus criados, que eram muitos e todos amigos dele por causa do ardor da juventude, tomou posse de todas as fortalezas. Usou também o dinheiro que encontrou nelas para reunir um número de soldados mercenários e se proclamou rei. Diante da queixa de Hircano à mãe, ela teve pena dele e mandou prender a esposa e os filhos de Aristóbulo na Antônia, uma fortaleza ligada à parte norte do templo. Como disse, ela antigamente se chamava Cidadela, mas depois recebeu o nome de Antônia, quando Antônio era senhor do Oriente, assim como as cidades de Sebaste e Agripeia tiveram os nomes alterados, recebendo-os de Sebasto e Agripa. Mas Alexandra morreu antes de poder punir Aristóbulo por ter deserdado o irmão, depois de ter reinado nove anos.