A Guerra dos Judeus - Livro I 23
Livro I: dos Macabeus à morte de Herodes, o Grande
Calúnias contra os filhos de Mariane. Antípater é preferido a eles. São acusados diante de César, e Herodes se reconcilia com eles.
Os filhos de Mariane herdaram o ódio que pesava sobre a mãe. Quando consideravam a enormidade do crime de Herodes contra ela, passaram a desconfiar dele como de um inimigo. Esse sentimento já existia enquanto eram educados em Roma, mas cresceu ainda mais depois que voltaram para a Judeia. A disposição deles se intensificou à medida que se tornavam adultos. Quando chegaram à idade de casar, um deles se casou com a filha da tia Salomé (a mesma Salomé que havia acusado a mãe deles), e o outro se casou com a filha de Arquelau, rei da Capadócia. Agora eles falavam com ousadia, além de carregar o ódio na mente. Os que os caluniavam aproveitaram essa ousadia, e alguns deles passaram a dizer ao rei, com mais clareza, que ambos os filhos tramavam contra ele. O genro de Arquelau, confiando no sogro, estaria se preparando para fugir e acusar Herodes diante de César. Depois que a cabeça de Herodes ficou tempo suficiente cheia dessas calúnias, ele trouxe de volta ao favor Antípater, filho que tivera com Doris, como defesa contra os outros filhos, e começou a fazer tudo o que podia para favorecê-lo acima deles.
Mas esses filhos não conseguiam suportar tal mudança em sua situação. Ao ver elevado aquele que era filho de uma mãe sem linhagem, a nobreza de seu nascimento os impedia de conter a indignação, e sempre que se sentiam incomodados, mostravam a raiva que sentiam. E enquanto esses filhos aumentavam dia após dia a própria ira, Antípater já empregava todas as suas habilidades, que eram muitas, em adular o pai e em arquitetar todo tipo de calúnia contra os irmãos. Ele mesmo contava algumas histórias sobre eles e encarregava outras pessoas adequadas de inventar outras, até que por fim cortou completamente os irmãos de toda esperança de herdar o reino. Antípater já fora publicamente incluído no testamento do pai como sucessor. Por isso foi enviado a César com ornamentos reais e outros sinais de realeza, exceto o diadema. Com o tempo conseguiu também reconduzir a própria mãe ao leito de Mariane. As duas armas que usou contra os irmãos foram a adulação e a calúnia, e com elas levou as coisas em segredo a tal ponto que o rei passou a pensar em mandar matar os filhos.
Então o pai levou Alexandre até Roma e o acusou diante de César de ter tentado envenená-lo. Alexandre mal conseguia falar de tanto lamentar, mas, tendo diante de si um juiz mais hábil que Antípater e mais sábio que Herodes, evitou com modéstia lançar qualquer acusação contra o pai. Ainda assim, com grande força de razão, refutou as calúnias levantadas contra ele. Depois de demonstrar a inocência do irmão, que corria o mesmo perigo que ele, lamentou por fim a astúcia de Antípater e a desonra a que estavam submetidos. Conseguiu justificar-se não só pela consciência limpa que trazia consigo, mas também pela eloquência, pois era homem perspicaz na arte de discursar. E ao dizer, por último, que se o pai lhes imputava esse crime, estava em seu poder mandá-los matar, fez toda a plateia chorar. Levou César a tal ponto que este rejeitou as acusações e reconciliou imediatamente o pai com eles. As condições dessa reconciliação foram estas: que eles fossem em tudo obedientes ao pai, e que ele tivesse o poder de deixar o reino a qual deles preferisse.
Depois disso o rei voltou de Roma e parecia ter perdoado os filhos dessas acusações, mas de tal modo que não ficava sem suas suspeitas a respeito deles. Eram seguidos por Antípater, que era a nascente daquelas acusações. Ainda assim ele não revelava abertamente o ódio que sentia, por respeito a quem os havia reconciliado. Mas, enquanto Herodes navegava ao longo da Cilícia, aportou em Eleusa, onde Arquelau os tratou da maneira mais gentil. Arquelau lhe agradeceu pela salvação do genro e ficou muito satisfeito com a reconciliação, ainda mais porque antes havia escrito a seus amigos em Roma para que ajudassem Alexandre no julgamento. Assim, acompanhou Herodes até Zefírio e lhe deu presentes no valor de trinta talentos.
Quando Herodes chegou a Jerusalém, reuniu o povo, apresentou-lhe os três filhos e prestou contas de sua ausência. Agradeceu muito a Deus e agradeceu muito também a César por ter posto ordem em sua casa quando ela estava em desordem, e por ter promovido a concórdia entre seus filhos, coisa de maior importância que o próprio reino. "E essa concórdia eu a tornarei ainda mais firme, pois César pôs em meu poder dispor do governo e nomear meu sucessor. Por isso, em retribuição à bondade dele e para prover minha própria vantagem, declaro que estes três filhos meus serão reis. E, em primeiro lugar, peço a aprovação de Deus para o que vou fazer; em segundo lugar, desejo também a vossa aprovação. A idade de um deles e a nobreza dos outros dois lhes garantirão a sucessão. Aliás, meu reino é tão grande que pode bastar para mais de um rei. Mantende, então, em seus lugares aqueles que César uniu e que o pai nomeou. Não lhes presteis respeito indevido ou desigual, mas a cada um conforme a prerrogativa de seu nascimento. Quem presta tais respeitos de forma indevida não tornará o que é honrado além do que sua idade requer tão alegre quanto tornará triste aquele que é desonrado. Quanto aos parentes e amigos que devem conviver com eles, eu os designarei a cada um e os disporei de modo que sirvam de garantia para a concórdia entre eles, pois sei bem que o mau caráter daqueles com quem convivem produzirá brigas e disputas entre eles, mas que, se aqueles com quem convivem forem de bom caráter, conservarão o afeto natural que têm uns pelos outros. Ainda assim, desejo que não só estes, mas todos os comandantes do meu exército, ponham por ora suas esperanças unicamente em mim, pois não entrego meu reino a estes meus filhos, mas apenas lhes dou honras reais. Disso resultará que eles desfrutarão as partes doces do governo como governantes, mas o peso da administração recairá sobre mim, queira eu ou não. E que cada um considere a idade que tenho, como conduzi minha vida e que piedade exerci, pois minha idade não é tão avançada que se possa esperar logo o fim da minha vida, nem me entreguei a um modo de viver tão dissoluto a ponto de cortar a vida dos homens enquanto jovens. E temos sido tão religiosos para com Deus que [temos razão de esperar que] possamos chegar a uma idade bem avançada. Mas quanto aos que cultivam amizade com meus filhos a fim de visar minha destruição, serão punidos por mim em razão deles. Não sou homem que tenha inveja dos próprios filhos a ponto de proibir que lhes prestem grande respeito, mas sei que tais respeitos [excessivos] são o caminho para torná-los insolentes. E se cada um que deles se aproxima refletir sobre isto em sua mente, que, se for bom homem, receberá de mim recompensa, mas que, se for sedicioso, sua bajulação mal-intencionada nada lhe renderá da parte daquele a quem é dirigida, suponho que todos estarão do meu lado, isto é, do lado dos meus filhos, pois será vantagem deles que eu reine e que eu esteja em concórdia com eles. Mas vós, ó meus bons filhos, refleti sobre a santidade da própria natureza, pela qual se preserva o afeto natural até entre as feras. Em segundo lugar, refleti sobre César, que promoveu esta reconciliação entre nós. E, em terceiro lugar, refleti sobre mim, que vos peço o que tenho poder de vos ordenar: continuai irmãos. Eu vos dou vestes reais e honras reais, e peço a Deus que preserve o que determinei, contanto que estejais em concórdia uns com os outros." Quando o rei terminou de falar e saudou cada um dos filhos de modo afetuoso, dispensou a multidão. Alguns concordaram com o que ele dissera e desejaram que se cumprisse assim, mas os que desejavam uma mudança na situação fingiram nem sequer ter ouvido o que ele disse.