A Guerra dos Judeus - Livro I 22

Livro I: dos Macabeus à morte de Herodes, o Grande

O assassinato de Aristóbulo e Hircano, os sumos sacerdotes, e também da rainha Mariane.

Em meio a tantos e tão grandes sucessos, a fortuna se vingou de Herodes provocando-lhe problemas domésticos. Ele começou a enfrentar desordens violentas dentro da própria família, por causa da esposa que tanto amava. Quando assumiu o governo, repudiou a mulher com quem havia se casado ainda como cidadão comum, uma natural de Jerusalém chamada Doris, e desposou Mariane, filha de Alexandre, filho de Aristóbulo. Foi por causa dela que surgiram as turbulências em sua casa, em parte logo cedo, mas sobretudo depois de seu retorno de Roma. Primeiro, ele expulsou da cidade Antípater, filho de Doris, em favor dos filhos que tivera com Mariane, e lhe permitia entrar nas festas religiosas. Em seguida, matou Hircano, avô de sua esposa, depois que este voltou da Pártia para junto dele, sob o pretexto de suspeitar que tramava contra ele. Esse Hircano havia sido levado cativo por Barzafarnes, quando este invadiu a Síria. Os judeus de seu próprio povo, do outro lado do Eufrates, queriam que ele permanecesse com eles, por compaixão de sua condição. Se ele tivesse atendido a esse pedido, quando o exortaram a não atravessar o rio rumo a Herodes, não teria morrido. Mas o casamento de sua neta com Herodes foi a sua tentação. Confiando em Herodes e amando demais sua terra natal, ele voltou para ela. O motivo de Herodes não foi que Hircano tivesse feito qualquer tentativa de tomar o reino, mas o fato de que ele era mais apto a ser rei dos judeus do que o próprio Herodes.
Dos cinco filhos que Herodes teve com Mariane, dois eram meninas e três eram meninos. O mais novo dos filhos foi educado em Roma e ali morreu. Os dois mais velhos ele tratava como de sangue real, por causa da nobreza da mãe e porque nasceram depois que ele era rei. Mas, mais forte que tudo isso, era o amor que ele tinha por Mariane, que se inflamava a cada dia em grau intenso e se somava de tal modo aos outros motivos que ele não sentia preocupação alguma por causa daquela que amava com tanto ardor. No entanto, o ódio de Mariane por ele não era menor que o amor dele por ela. Ela tinha, de fato, motivo justo demais para indignação, pelo que ele havia feito, e sua ousadia vinha justamente do afeto que ele lhe dedicava. Por isso, ela o repreendia abertamente pelo que ele fizera a seu avô Hircano e a seu irmão Aristóbulo. Pois Herodes não poupara esse Aristóbulo, embora fosse apenas uma criança. Tendo-lhe concedido o sumo sacerdócio aos dezessete anos, ele o matou logo depois de lhe conferir aquela dignidade. Quando Aristóbulo vestiu as vestes sagradas e se aproximou do altar, numa festa, a multidão, em grandes aglomerações, caiu em pranto. Por isso, o menino foi enviado de noite a Jericó e ali foi mergulhado pelos gauleses, por ordem de Herodes, dentro de uma piscina, até morrer afogado.
Por essas razões, Mariane repreendia Herodes, sua irmã e sua mãe da maneira mais ofensiva, enquanto ele permanecia mudo por causa do afeto que sentia por ela. Ainda assim, as mulheres tinham grande indignação contra ela e levantaram uma calúnia, dizendo que ela era infiel ao leito do marido, algo que julgaram ser o mais provável para mover Herodes à ira. Elas também tramaram fazer com que outras circunstâncias fossem acreditadas, para tornar a acusação mais crível, e a acusaram de ter enviado seu retrato ao Egito, para Marco Antônio, e de que sua lascívia era tão extravagante que ela se mostrara assim, mesmo ausente, a um homem que enlouquecia por mulheres e que tinha em seu poder a capacidade de usar de violência contra ela. Essa acusação caiu como um raio sobre Herodes e o lançou em desordem, especialmente porque o amor que sentia por ela o tornava ciumento, e porque considerava consigo mesmo que Cleópatra era uma mulher astuta e que, por causa dela, o rei Lisânias fora eliminado, assim como Malico, o árabe. Pois o medo dele não se estendia apenas à dissolução do casamento, mas ao perigo de sua própria vida.
Por isso, quando estava prestes a empreender uma viagem ao exterior, ele confiou sua esposa a José, marido de sua irmã Salomé, como a alguém que lhe seria fiel e lhe dedicava boa vontade por causa do parentesco. Deu-lhe também uma ordem secreta: se Marco Antônio o matasse, José deveria matá-la também. Mas José, sem nenhuma intenção, e apenas para demonstrar o amor do rei pela esposa, mostrando como ele não suportava a ideia de ser separado dela nem mesmo pela própria morte, revelou a ela esse grande segredo. Quando Herodes voltou e os dois conversavam, ele confirmou seu amor por ela com muitos juramentos e garantiu que nunca tivera por nenhuma outra mulher o afeto que tinha por ela. Ela respondeu: "Sim, é claro que você demonstrou seu amor por mim com as ordens que deu a José, quando mandou que ele me matasse."
Quando ele ouviu que esse grande segredo havia sido revelado, ficou como um homem fora de si e disse que José jamais teria divulgado aquela ordem se não tivesse seduzido a esposa. Sua paixão o deixou completamente louco. Saltando da cama, ele corria pelo palácio de maneira desvairada. Nesse momento, sua irmã Salomé também aproveitou a oportunidade para destruir a reputação de Mariane e confirmou a suspeita dele a respeito de José. Então, tomado de ciúme e fúria incontroláveis, ele ordenou que ambos fossem mortos imediatamente. Mas, assim que sua paixão passou, ele se arrependeu do que havia feito, e, assim que sua ira se desfez, seu afeto se reacendeu. A chama de seu desejo por ela era tão ardente que ele não conseguia acreditar que estava morta. Em seus delírios, chegava a falar com ela como se ainda estivesse viva, até que o tempo o ensinou melhor. Então, agora que ela estava morta, sua dor e sua aflição se mostraram tão grandes quanto havia sido seu amor por ela enquanto estava viva.