A Guerra dos Judeus - Livro I 10
Livro I: dos Macabeus à morte de Herodes, o Grande
César nomeia Antípater procurador da Judeia; e Antípater nomeia Fasael governador de Jerusalém, e Herodes governador da Galileia, o qual, algum tempo depois, é chamado a se defender [diante do Sinédrio], onde é absolvido. Sexto César é morto à traição por Baso e é sucedido por Marco.
Foi por essa época que Antígono, filho de Aristóbulo, foi procurar César e, de modo surpreendente, acabou se tornando a causa de mais um avanço de Antípater. Antígono devia lamentar que seu pai parecia ter sido envenenado por causa das brigas com Pompeu, devia se queixar da crueldade de Cipião contra seu irmão e não devia misturar nenhum sentimento odioso quando pedia clemência. Mas, além disso, ele se apresentou a César e acusou Hircano e Antípater de o terem expulsado, junto com seus irmãos, totalmente da pátria, e de terem agido de muitas maneiras com injustiça e excesso para com o povo deles. Disse ainda que a ajuda que tinham enviado a César no Egito não fora feita por boa vontade para com ele, mas pelo medo que sentiam por causa das brigas antigas, e para obter perdão por sua amizade com Pompeu, o inimigo de César.
Diante disso, Antípater rasgou as roupas, mostrou à multidão as muitas feridas que tinha e disse que, quanto à sua boa vontade para com César, não precisava dizer uma só palavra, porque seu corpo gritava em voz alta ainda que ele nada dissesse. Disse que se admirava da audácia de Antígono: sendo ele próprio apenas o filho de um inimigo dos romanos e de um fugitivo, e tendo herdado do pai o gosto por revoltas e sedições, ousava acusar outros homens diante do governador romano e tentava obter alguma vantagem para si, quando devia se contentar de ter sido deixado vivo. Disse que o motivo de Antígono querer governar os assuntos públicos não era tanto a necessidade, mas o fato de que, se conseguisse o poder uma vez, poderia incitar uma sedição entre os judeus e usar o que recebesse dos romanos em prejuízo dos próprios que lhe haviam dado.
Quando César ouviu isso, declarou que Hircano era o mais digno do sumo sacerdócio e deu permissão a Antípater para escolher a autoridade que quisesse. Mas Antípater deixou a definição dessa honra a cargo de quem a concedia. Foi assim constituído procurador de toda a Judeia e obteve ainda permissão para reconstruir os muros de sua pátria que tinham sido derrubados. César enviou ordens para que essas concessões honoríficas fossem gravadas no Capitólio, para que ficassem ali como sinais de sua própria justiça e da virtude de Antípater.
Assim que Antípater conduziu César para fora da Síria, voltou à Judeia. A primeira coisa que fez foi reconstruir o muro de sua pátria (Jerusalém), que Pompeu havia derrubado. Depois percorreu o território para acalmar os tumultos que havia nele. A cada um ele em parte ameaçava e em parte aconselhava, dizendo que, caso se submetessem a Hircano, viveriam felizes e em paz, e desfrutariam o que possuíam, com paz e tranquilidade gerais. Mas, caso dessem ouvidos a homens que alimentavam esperanças vãs de obter algum ganho criando novos distúrbios, então o encontrariam como senhor deles, em vez de procurador, e encontrariam Hircano como tirano, em vez de rei, e tanto os romanos quanto César como inimigos, em vez de governantes, pois não permitiriam que fosse afastado do governo aquele que eles mesmos haviam feito governador. Enquanto dizia isso, ele próprio organizava os assuntos do território, porque via que Hircano era inativo e incapaz de administrar os negócios do reino. Por isso constituiu seu filho mais velho, Fasael, governador de Jerusalém e das regiões em torno dela. Enviou também seu filho seguinte, Herodes, que era muito jovem, com autoridade igual para a Galileia.
Herodes era um homem de ação e logo encontrou matéria adequada para seu espírito ativo trabalhar. Ao descobrir que Ezequias, o chefe dos bandidos, percorria as regiões vizinhas da Síria com um grande bando de homens, ele o capturou e o matou, junto com muitos outros bandidos. Esse feito foi sobretudo agradável aos sírios, a ponto de se cantarem hinos em louvor a Herodes, tanto nas aldeias quanto nas cidades, por ter garantido a tranquilidade deles e preservado o que possuíam. Nessa ocasião ele travou conhecimento com Sexto César, parente do grande César e presidente da Síria. Uma justa emulação de seus feitos gloriosos levou também Fasael a imitá-lo. Assim, ele conquistou a boa vontade dos habitantes de Jerusalém pela própria administração dos assuntos da cidade e não abusou de seu poder de nenhuma maneira desagradável. Daí veio a acontecer que o povo prestava a Antípater o respeito que só é devido a um rei, e as honras que todos lhe rendiam eram iguais às devidas a um senhor absoluto. Mesmo assim, ele não reduziu em nada a boa vontade ou a fidelidade que devia a Hircano.
No entanto, foi-lhe impossível escapar da inveja em meio a tanta prosperidade. A glória desses jovens já afetava em segredo o próprio Hircano, embora ele não dissesse nada disso a ninguém. O que mais o afligia eram os grandes feitos de Herodes, e o fato de tantos mensageiros chegarem um após o outro, informando-o da grande reputação que ele ganhava em todos os seus empreendimentos. Havia também muita gente no próprio palácio real que inflamava a inveja dele contra Herodes, ou seja, aqueles cujos planos eram bloqueados pela prudência dos jovens ou de Antípater. Esses homens diziam que, por confiar os assuntos públicos à administração de Antípater e de seus filhos, Hircano ficava só com o nome vazio de rei, sem nenhuma de suas atribuições. E perguntavam até quando ele se enganaria a tal ponto, criando reis contra seu próprio interesse. Diziam que eles já não escondiam mais seu governo dos negócios, mas eram claramente senhores do povo e o tinham expulsado de sua autoridade. Diziam que esse era o caso quando Herodes matou tantos homens sem que Hircano lhe tivesse dado ordem alguma de fazê-lo, nem por palavra nem por carta, e isso em contradição com a lei dos judeus. Por isso, caso Herodes não fosse rei, mas um cidadão comum, ainda assim deveria comparecer a julgamento e responder por isso diante de Hircano e das leis de seu país, que não permitem que ninguém seja morto sem ter sido condenado em juízo.
Hircano foi aos poucos inflamado por esses discursos e por fim não pôde mais suportar, e convocou Herodes a comparecer a julgamento. Assim, por conselho do pai, e assim que os assuntos da Galileia lhe permitiram, Herodes subiu a Jerusalém, depois de ter primeiro colocado guarnições na Galileia. Mesmo assim, veio com um corpo de soldados suficiente, em número tal que não parecesse trazer consigo um exército capaz de derrubar o governo de Hircano, nem tão poucos que o expusessem aos insultos dos que o invejavam. No entanto, Sexto César temia pelo jovem, com medo de que fosse capturado pelos inimigos e levado ao castigo. Por isso enviou alguns para declarar expressamente a Hircano que absolvesse Herodes da acusação capital contra ele. Hircano o absolveu, estando aliás também inclinado a fazê-lo, pois gostava de Herodes.
Mas Herodes, supondo que escapara do castigo sem o consentimento do rei, retirou-se para junto de Sexto, em Damasco, e preparou tudo para não obedecer a Hircano caso este o convocasse de novo. Diante disso, os mal-intencionados irritaram Hircano e lhe disseram que Herodes tinha partido com raiva e estava preparado para fazer guerra contra ele. Como o rei acreditou no que diziam, ficou sem saber o que fazer, pois via que seu adversário era mais forte do que ele próprio. E agora, como Herodes fora nomeado general da Celessíria e da Samaria por Sexto César, ele era temível não só pela boa vontade que o povo lhe tinha, mas também pelo poder que ele próprio possuía. Por isso, Hircano caiu no mais alto grau de terror e esperava que Herodes logo marchasse contra ele com seu exército.
E não se enganou na conjectura que fez. Herodes reuniu seu exército, movido pela raiva que tinha de Hircano por tê-lo ameaçado com a acusação num tribunal público, e o conduziu a Jerusalém, a fim de derrubar Hircano de seu reino. E teria feito isso depressa, se seu pai e seu irmão não tivessem saído juntos para quebrar a força de sua fúria. Eles o exortaram a não levar a vingança além de ameaçar e assustar, mas a poupar o rei sob o qual havia sido elevado a tamanho grau de poder. Disseram que ele não devia se irritar tanto por ter sido julgado a ponto de esquecer de ser grato por ter sido absolvido, nem ficar tanto tempo pensando em algo de natureza triste a ponto de ser ingrato por sua libertação. Disseram que, se devemos considerar que Deus é o árbitro do sucesso na guerra, uma causa injusta traz mais desvantagem do que um exército pode trazer de vantagem. Por isso ele não devia confiar inteiramente no sucesso num caso em que ia lutar contra seu rei, seu protetor, alguém que muitas vezes fora seu benfeitor e que nunca fora severo com ele, a não ser quando deu ouvidos a maus conselheiros, e mesmo assim apenas ao trazer sobre ele uma sombra de injustiça. Assim, Herodes foi convencido por esses argumentos e supôs que o que já fizera era suficiente para suas esperanças futuras e que tinha mostrado bastante seu poder ao povo.
Nesse meio-tempo houve uma agitação entre os romanos perto de Apameia, e uma guerra civil provocada pelo assassinato traiçoeiro de Sexto César por Cecílio Baso, que ele cometeu por sua boa vontade para com Pompeu. Baso também assumiu o comando das tropas de Sexto. Mas, como os demais comandantes de César atacaram Baso com todo o seu exército, a fim de puni-lo pelo assassinato de um homem de César, Antípater também lhes enviou ajuda por meio de seus filhos, tanto por causa do que fora assassinado quanto por causa do César que ainda vivia, pois ambos eram amigos deles. E, como essa guerra se prolongou bastante, Marco veio da Itália como sucessor de Sexto.