Cartas - Livro IV 2

Cartas sobre casamento, generosidade cívica, processos e a arte de escrever

Caio Plínio a Átio Clemente, seu amigo, saudações.

Régulo perdeu o filho, a única desgraça que ele não merecia, embora eu duvide que a considere uma desgraça. Era um menino de inteligência aguda, mas ambígua, que ainda assim poderia seguir o caminho certo, se não saísse ao pai.
Régulo o emancipou, para que ele herdasse os bens da mãe; depois de emancipá-lo (as pessoas falavam assim, conhecendo o caráter do homem), tentava cativá-lo com uma simulação de indulgência tão repugnante quanto incomum num pai. Parece inacreditável, mas pense que é Régulo.
Ainda assim, agora que o perdeu, chora como um louco. O menino tinha muitos pôneis, atrelados e soltos, tinha cães grandes e pequenos, tinha rouxinóis, papagaios e melros: Régulo matou todos em volta da pira.
Aquilo não era dor, era ostentação de dor. As pessoas acorrem a ele numa multidão impressionante. Todos o detestam, o odeiam, e como se o aprovassem, como se o estimassem, correm e o frequentam, e para dizer em poucas palavras o que penso: ao bajular Régulo, imitam Régulo.
Ele se mantém do outro lado do Tibre, em jardins onde ocupou um terreno vastíssimo com pórticos imensos e a margem do rio com estátuas suas, pois é, no auge da avareza, perdulário, e no auge da infâmia, vaidoso.
Por isso atormenta a cidade na estação mais insalubre, e o fato de atormentar, ele considera um consolo. Diz que quer tomar uma esposa, e nisto também, como em tudo, age de modo perverso.
Você logo vai ouvir falar do casamento de um homem de luto, do casamento de um velho; o primeiro é prematuro, o segundo, tardio demais. Você pergunta de onde tiro esse augúrio?
Não porque ele mesmo afirme isso (não nada mais mentiroso do que ele), mas porque é certo que Régulo fará tudo o que não se deve fazer. Até logo.