Cartas - Livro IV 17

Cartas sobre casamento, generosidade cívica, processos e a arte de escrever

Caio Plínio a seu caro Clusínio Galo, saudações.

Você me lembra e me pede que eu assuma a causa de Corélia, ausente, contra Caio Cecílio, cônsul designado. Pelo lembrete, eu lhe agradeço; pelo pedido, eu me queixo. Lembrado eu devo ser, para saber; pedido eu não devo ser, para fazer aquilo que não fazer seria, para mim, a maior vergonha.
Eu hesitaria em defender a filha de Corélio? É verdade que tenho com esse homem contra quem você me chama, não exatamente intimidade, mas ainda assim amizade.
Soma-se a isso a dignidade do homem e a própria honra a que ele foi destinado, à qual devo tanto maior respeito quanto a exerci. É natural que cada um queira que aquilo que ele mesmo alcançou seja considerado o mais elevado possível.
Mas, quando penso em defender a filha de Corélio, tudo isso me parece frio e vazio. Vem-me aos olhos aquele homem, mais grave, mais íntegro e mais penetrante do que ninguém que a nossa época produziu, a quem comecei a amar pela admiração, e (ao contrário do que costuma acontecer) admirei ainda mais depois que o conheci a fundo.
Pois eu o conheci a fundo: ele nada me ocultou, nada jocoso, nada sério, nada triste, nada alegre.
Eu era muito jovem, e recebia dele honra e até (ousarei dizê-lo) o respeito que se a um igual. Foi ele meu apoiador e fiador na busca das honras, foi meu guia e companheiro ao começá-las, meu conselheiro e diretor ao exercê-las; foi ele, enfim, em todos os meus deveres, que se mostrava, apesar de doente e velho, como um jovem cheio de vigor.
Quanto ele acrescentou à minha reputação em casa e em público, e até diante do imperador!
Pois, quando por acaso surgiu diante do imperador Nerva uma conversa sobre os bons jovens, e vários me cobriam de elogios, ele se manteve um pouco em silêncio, o que dava ainda mais peso às suas palavras; depois, com aquela gravidade que você conhecia, disse: preciso que eu elogie Segundo com mais parcimônia, pois ele nada faz senão por meu conselho."
Com essas palavras me concedeu mais do que seria desmedido pedir num voto: que eu nada fazia que não fosse sapientíssimo, que tudo fazia por conselho de um homem sapientíssimo. Mais ainda: ao morrer, disse à filha (como ela costuma repetir): "Conquistei muitos amigos para você, como faria se vivesse mais tempo, mas os principais são Segundo e Cornuto."
Quando me lembro disso, entendo que devo me esforçar para não parecer ter desmerecido, em nenhum ponto, a confiança que esse homem tão previdente depositou em mim.
Por isso, estarei ao lado de Corélia com a maior prontidão e não me recusarei a enfrentar inimizades; embora eu creia que vou obter, junto a esse mesmo homem que (como você diz) talvez mova um processo novo contra a mulher, não perdão, mas até elogio, se eu disser essas mesmas coisas na própria ação, mais ampla e abundantemente do que permite a estreiteza de uma carta, seja para me desculpar, seja para me recomendar. Até logo.