Antiguidades Judaicas - Livro X 3

Livro X: o exílio, a queda de Jerusalém e Daniel

Como Manassés reinou depois de Ezequias; e como, estando no cativeiro, voltou a Deus, foi restaurado ao seu reino e o deixou a [seu filho] Amom.

Depois que o rei Ezequias viveu o período mencionado, todo ele em paz, morreu, tendo completado cinquenta e quatro anos de vida e reinado por vinte e nove. Quando seu filho Manassés, cuja mãe se chamava Hefzibá, de Jerusalém, assumiu o reino, abandonou a conduta do pai e adotou um modo de vida totalmente oposto. Mostrou-se o mais perverso de todos em seus costumes e não deixou de cometer nenhum tipo de impiedade, imitando as transgressões dos israelitas, exatamente aquelas que, cometidas contra Deus, os tinham levado à destruição. Foi ousado a ponto de profanar o templo de Deus, a cidade e todo o país. Partindo do desprezo por Deus, matou de forma brutal todos os homens justos que havia entre os hebreus. Não poupou nem os profetas: todos os dias matava alguns deles, até Jerusalém ficar inundada de sangue. Deus se indignou com isso e enviou profetas ao rei e ao povo, ameaçando-os com as mesmas calamidades que seus irmãos israelitas sofriam naquele momento por terem ofendido a Deus de modo semelhante. Mas esses homens não quiseram acreditar nas palavras dos profetas, ainda que essa pudesse ter lhes dado a vantagem de escapar de toda aquela miséria. Apesar disso, vieram a aprender de fato que o que os profetas lhes haviam anunciado era verdade.
Como persistiram no mesmo modo de vida, Deus levantou guerra contra eles por meio do rei da Babilônia e da Caldeia, que enviou um exército contra a Judeia e devastou o país. Capturou o rei Manassés por traição, mandou que fosse levado à sua presença e o teve sob seu poder para lhe aplicar o castigo que quisesse. Foi então que Manassés percebeu a condição miserável em que se encontrava e, considerando-se a causa de tudo, suplicou a Deus que tornasse seu inimigo humano e misericordioso com ele. Deus ouviu sua oração e lhe concedeu o que pedia. Assim, Manassés foi libertado pelo rei da Babilônia e escapou do perigo em que estava. Ao chegar a Jerusalém, esforçou-se, se possível, por apagar da memória aqueles seus pecados anteriores contra Deus, dos quais agora se arrependia, e por dedicar-se a uma vida profundamente religiosa. Santificou o templo, purificou a cidade e, pelo resto de seus dias, não se ocupou de outra coisa senão agradecer a Deus por sua libertação e mantê-lo favorável a ele por toda a vida. Ensinou também o povo a fazer o mesmo, pois tinha experimentado de perto a calamidade em que caíra por agir de modo contrário. Reconstruiu o altar e ofereceu os sacrifícios legais, como Moisés ordenara. Depois de restabelecer corretamente tudo o que dizia respeito ao culto divino, cuidou da segurança de Jerusalém. Não reparou com grande empenho os muros antigos, mas acrescentou outro muro ao anterior. Construiu também torres muito altas e fortaleceu as guarnições diante da cidade, não apenas em outros aspectos, mas também com toda sorte de provisões de que precisavam. De fato, depois de mudar seu comportamento anterior, conduziu a vida dali em diante de tal forma que, a partir do momento em que voltou à piedade para com Deus, foi tido por homem feliz e modelo a ser imitado. Tendo vivido sessenta e sete anos, partiu desta vida, depois de reinar cinquenta e cinco anos, e foi sepultado em seus próprios jardins. O reino passou a seu filho Amom, cuja mãe se chamava Mesulemete, da cidade de Jotbá.