Antiguidades Judaicas - Livro VIII 7
Livro VIII: Salomão, o Templo e o cisma do reino
Como Salomão enriqueceu e se apaixonou perdidamente por mulheres; como Deus, irado com isso, levantou Áder e Jeroboão contra ele; e a respeito da morte de Salomão.
Por essa mesma época trouxeram ao rei, vindas da Áurea Quersoneso (um país assim chamado), pedras preciosas e pinheiros. Ele usou essa madeira para sustentar o Templo e o palácio, e também como matéria-prima de instrumentos musicais, harpas e saltérios, para que os levitas pudessem empregá-los em seus hinos a Deus. A madeira que lhe trouxeram nessa ocasião era maior e mais bela do que qualquer outra já trazida antes. Mas ninguém imagine que esses pinheiros eram como os que hoje recebem esse nome, designação que vem dos comerciantes, que assim os chamam para que sejam admirados por quem os compra. A madeira de que falamos parecia, à vista, com a da figueira, mas era mais branca e mais brilhante. Dizemos isso para que ninguém ignore a diferença entre esses tipos de madeira nem desconheça a natureza do verdadeiro pinheiro. Achamos oportuno e útil, ao mencionar essa madeira e os usos que o rei lhe deu, explicar essa diferença até onde fizemos.
O peso do ouro que lhe foi trazido era de seiscentos e sessenta e seis talentos, sem incluir nessa soma o que vinha dos comerciantes nem o que os toparcas e reis da Arábia lhe davam de presente. Ele também mandou fundir duzentos escudos de ouro, cada um pesando seiscentos siclos. Fez ainda trezentos escudos menores, cada um pesando três libras de ouro, e mandou levá-los e colocá-los na casa chamada Bosque do Líbano. Fez também taças de ouro e de pedras [preciosas] para receber seus convidados, ornamentadas com a maior arte, e providenciou que toda a sua outra baixela fosse de ouro, pois naquela época não se vendia nem comprava nada por prata. O rei tinha muitos navios que ficavam no mar de Társis, e ordenou que levassem todo tipo de mercadoria às nações mais distantes. Pela venda dessas mercadorias chegavam ao rei prata e ouro, além de grande quantidade de marfim, de etíopes e de macacos. Esses navios completavam a viagem, ida e volta, em três anos.
Por isso espalhou-se enorme fama por todos os países vizinhos, que proclamava a virtude e a sabedoria de Salomão. Todos os reis, em toda parte, desejavam vê-lo, pois não davam crédito ao que se contava, por ser quase inacreditável. Demonstravam também o apreço que tinham por ele com os presentes que lhe enviavam. Mandaram-lhe vasos de ouro e de prata, vestes de púrpura, muitos tipos de especiarias, cavalos, carros e quantas mulas para suas carruagens conseguiram achar próprias para agradar aos olhos do rei pela força e pela beleza. Esse acréscimo aos carros e cavalos que já possuía, vindo do que lhe enviavam, aumentou o número de seus carros em mais de quatrocentos, pois antes tinha mil, e aumentou o número de seus cavalos em dois mil, pois antes tinha vinte mil. Esses cavalos eram tão exercitados, para terem boa aparência e correrem velozes, que nenhum outro, em comparação, parecia mais belo ou mais rápido. Eram ao mesmo tempo os mais belos de todos, e sua velocidade também era incomparável. Os cavaleiros lhes davam ainda mais beleza. Em primeiro lugar, eram jovens na flor mais agradável da idade, notáveis pela estatura e muito mais altos do que os outros homens. Tinham também cabeleiras muito longas, caindo soltas, e vestiam roupas de púrpura de Tiro. Todos os dias borrifavam pó de ouro em seus cabelos, de modo que suas cabeças cintilavam com o reflexo dos raios do sol no ouro. O próprio rei seguia em um carro no meio desses homens, que iam armados e com os arcos prontos. Ele usava uma veste branca e costumava sair da cidade pela manhã. A cerca de cinquenta estádios de Jerusalém há um lugar chamado Etã, muito agradável por seus belos jardins e abundante em córregos de água. Para lá ele costumava ir pela manhã, sentado no alto [de seu carro].
Salomão tinha uma sagacidade divina em todas as coisas e era muito diligente e cuidadoso em fazer tudo de maneira elegante. Por isso não descuidou da conservação das estradas, mas mandou assentar um calçamento de pedra preta ao longo dos caminhos que levavam a Jerusalém, a cidade real, tanto para facilitar a vida dos viajantes quanto para mostrar a grandeza de suas riquezas e de seu governo. Distribuiu também seus carros e os organizou de forma ordenada, de modo que houvesse certo número deles em cada cidade, mantendo apenas alguns consigo. Essas cidades ele chamou de cidades de seus carros. O rei tornou a prata tão abundante em Jerusalém quanto as pedras nas ruas, e multiplicou de tal forma os cedros nas planícies da Judeia, onde antes não cresciam, que se tornaram tão comuns quanto os sicômoros. Ele também determinou que os comerciantes egípcios que lhe traziam suas mercadorias lhe vendessem um carro, com uma parelha de cavalos, por seiscentas dracmas de prata, e os enviava aos reis da Síria e aos reis que ficavam além do Eufrates.
Mas, embora Salomão tivesse se tornado o mais glorioso dos reis e o mais amado por Deus, e tivesse superado em sabedoria e riquezas todos os que antes dele governaram os hebreus, ainda assim não perseverou nesse estado feliz até morrer. Ao contrário, abandonou a observância das leis de seus pais e teve um fim em nada compatível com o que antes contamos a seu respeito. Enlouqueceu de amor pelas mulheres e não impôs nenhum freio aos seus desejos. Não se contentou apenas com as mulheres do próprio país, mas casou-se com muitas esposas de nações estrangeiras: sidônias, tírias, amonitas e edomitas. Assim transgrediu as leis de Moisés, que proibiam os judeus de se casarem com quem não fosse de seu próprio povo. Começou também a adorar os deuses delas, e fez isso para agradar às esposas e por afeição a elas. Foi exatamente isso que nosso legislador suspeitou, e por isso nos advertiu de antemão a não casarmos com mulheres de outros países, para que não nos enredássemos em costumes estrangeiros e apostatássemos dos nossos, para que não deixássemos de honrar o nosso próprio Deus e passássemos a adorar os deuses delas. Mas Salomão caiu de cabeça em prazeres desmedidos e não deu atenção a essas advertências. Pois, depois de ter desposado setecentas mulheres, filhas de príncipes e de pessoas eminentes, e trezentas concubinas, além da filha do rei do Egito, logo ficou dominado por elas, a ponto de imitar suas práticas. Foi forçado a lhes dar essa prova de bondade e afeto, vivendo conforme as leis de seus países. E, à medida que envelhecia e sua razão enfraquecia com o passar do tempo, esta já não bastava para lhe trazer à mente as instituições de seu próprio país. Por isso ele desprezava cada vez mais o seu próprio Deus e continuava a venerar os deuses que seus casamentos haviam introduzido. Antes mesmo disso ele havia pecado e caído em erro quanto à observância das leis, quando fez as imagens de bois de bronze que sustentavam o mar de bronze, e as imagens de leões em torno de seu próprio trono. Ele as fez, embora não fosse condizente com a piedade agir assim. Fez isso apesar de ter tido em seu pai um exemplo doméstico excelente de virtude, e de saber que glorioso legado ele havia deixado por causa de sua piedade para com Deus. Tampouco imitou Davi, ainda que Deus lhe tivesse aparecido duas vezes durante o sono, exortando-o a imitar o pai. Assim ele morreu sem glória. Veio então a ele um profeta, enviado por Deus, e lhe disse que suas más ações não estavam ocultas de Deus. O profeta o ameaçou, dizendo que não se alegraria por muito tempo com o que fizera. O reino, de fato, não lhe seria tirado enquanto vivesse, porque Deus havia prometido a seu pai Davi que o faria seu sucessor, mas Deus cuidaria de que isso recaísse sobre o filho depois de sua morte. Não retiraria dele todo o povo, mas daria dez tribos a um servo dele e deixaria apenas duas tribos ao neto de Davi, por amor a Davi, porque este amava a Deus, e por amor à cidade de Jerusalém, onde queria ter um Templo.
Quando Salomão ouviu isso, ficou aflito e profundamente abalado com essa mudança de quase toda aquela felicidade que o tornara admirado para um estado tão ruim. E não havia passado muito tempo depois que o profeta predisse o que estava por vir, quando Deus levantou contra ele um inimigo chamado Áder, que tomou a seguinte ocasião para sua inimizade. Ele era uma criança da linhagem dos edomitas e do sangue real. Quando Joabe, comandante do exército de Davi, devastou a terra de Edom e destruiu, durante seis meses, todos os homens já crescidos e capazes de pegar em armas, esse Áder fugiu e foi ter com Faraó, rei do Egito, que o recebeu com bondade, designou-lhe uma casa para morar e uma região para lhe fornecer alimento. Quando ele cresceu, Faraó passou a amá-lo muito, a ponto de lhe dar como esposa a irmã da própria mulher, cujo nome era Tafnes. Dela teve um filho, que foi criado junto com os filhos do rei. Quando Áder soube, no Egito, que tanto Davi quanto Joabe haviam morrido, foi a Faraó e pediu permissão para voltar ao seu próprio país. O rei perguntou-lhe o que lhe faltava e que dificuldade ele havia enfrentado, para estar tão desejoso de deixá-lo. E, embora Áder muitas vezes o importunasse e lhe suplicasse que o dispensasse, Faraó não o fazia. Mas, na época em que os assuntos de Salomão começaram a piorar, por causa das transgressões já mencionadas e da ira de Deus contra ele por isso, Áder, com a permissão de Faraó, foi para Edom. E, como não conseguiu fazer o povo abandonar Salomão (pois a região estava controlada por muitas guarnições, e não era seguro provocar uma revolta), ele partiu de lá e foi para a Síria. Ali encontrou um certo Rezom, que havia fugido de Hadadezer, rei de Zobá, seu senhor, e se tornara salteador naquela região. Áder fez amizade com ele, que já tinha um bando de salteadores ao seu redor. Subiu então e apoderou-se daquela parte da Síria, e foi feito rei dela. Fez também incursões na terra de Israel, causando-lhe não pequeno dano, saqueando-a, e isso ainda em vida de Salomão. Essa foi a calamidade que os hebreus sofreram por causa de Áder.
Houve também alguém da própria nação de Salomão que tramou contra ele: Jeroboão, filho de Nabate, que tinha expectativa de ascender, por causa de uma profecia que lhe fora feita muito tempo antes. Ficou órfão de pai ainda criança e foi criado pela mãe. Quando Salomão viu que ele tinha temperamento ativo e ousado, fez dele encarregado das muralhas que construiu em torno de Jerusalém. Jeroboão cuidou tão bem dessas obras que o rei aprovou sua conduta e lhe deu, como recompensa, o comando sobre a tribo de José. Por essa época, ao sair certa vez de Jerusalém, Jeroboão encontrou-se com um profeta da cidade de Siló, chamado Aías, que o saudou. Levando-o um pouco à parte, para um lugar afastado onde não havia mais ninguém presente, o profeta rasgou em doze pedaços a roupa que vestia, mandou Jeroboão pegar dez delas e lhe anunciou de antemão: "Esta é a vontade de Deus. Ele dividirá o domínio de Salomão e dará uma tribo, com a que lhe fica ao lado, ao filho dele, por causa da promessa feita a Davi sobre sua sucessão; e dará dez tribos a você, porque Salomão pecou contra ele e se entregou às mulheres e aos deuses delas. Portanto, já que você conhece a razão pela qual Deus mudou de ideia e se afastou de Salomão, seja justo e guarde as leis, porque tem diante de si a maior de todas as recompensas por sua piedade e pela honra que prestar a Deus: ser tão exaltado quanto você sabe que Davi foi."
Jeroboão ficou exaltado com essas palavras do profeta. Sendo jovem, de temperamento fogoso e ambicioso de grandeza, não conseguiu ficar quieto. Com tão grande cargo no governo, e lembrando-se do que Aías lhe revelara, esforçou-se por convencer o povo a abandonar Salomão, a provocar uma agitação e a transferir o governo para si. Mas, quando Salomão percebeu sua intenção e traição, procurou capturá-lo e matá-lo. Jeroboão foi avisado disso de antemão e fugiu para Sisaque, rei do Egito, onde permaneceu até a morte de Salomão. Com isso obteve duas vantagens: não sofrer nenhum dano de Salomão e ser preservado para o reino. Assim Salomão morreu, já idoso, tendo reinado oitenta anos e vivido noventa e quatro. Foi sepultado em Jerusalém. Ele superou todos os outros reis em felicidade, riquezas e sabedoria, exceto pelo fato de que, ao envelhecer, foi enganado pelas mulheres e transgrediu a lei. Sobre essas transgressões, e sobre as desgraças que por elas recaíram sobre os hebreus, pretendo tratar em outra oportunidade.