Antiguidades Judaicas - Livro VIII 3

Livro VIII: Salomão, o Templo e o cisma do reino

A construção do Templo.

Salomão começou a construir o Templo no quarto ano de seu reinado, no segundo mês, que os macedônios chamam de Artemísio e os hebreus, de Jar. Isso se deu quinhentos e noventa e dois anos depois do Êxodo do Egito, mil e vinte anos depois da saída de Abraão da Mesopotâmia para Canaã e mil quatrocentos e quarenta anos depois do dilúvio. Desde Adão, o primeiro homem criado, até Salomão construir o Templo, passaram-se ao todo três mil cento e dois anos. O ano em que se começou a construir o Templo era o décimo primeiro ano do reinado de Hirão. E, da fundação de Tiro até a construção do Templo, passaram-se duzentos e quarenta anos.
O rei lançou as fundações do Templo bem fundo no solo, usando pedras resistentes, capazes de suportar a ação do tempo. Elas deveriam unir-se à terra e formar a base e o alicerce firme da estrutura que se ergueria sobre elas. Precisavam ser fortes a ponto de sustentar com facilidade aquelas imensas construções e os preciosos ornamentos, cujo peso não seria menor que o das outras edificações altas e pesadas que o rei planejava erguer com grande beleza e magnificência. Levantaram o corpo inteiro do edifício, até o teto, em pedra branca. Sua altura era de sessenta côvados, seu comprimento era igual, e a largura era de vinte côvados. Sobre ele havia outra construção, de mesmas medidas, de modo que a altura total do Templo era de cento e vinte côvados. A frente voltava-se para o oriente. Diante do Templo construíram o pórtico. Tinha vinte côvados de comprimento, ajustado à largura da casa, e doze côvados de largura. Sua altura chegava a cento e vinte côvados. O rei também construiu ao redor do Templo trinta pequenos compartimentos que envolviam todo o edifício, encostados uns aos outros e dispostos em número e posição em volta dele. Fez passagens entre eles, de modo que se podia ir de um a outro. Cada um desses compartimentos tinha cinco côvados de largura e cinco de comprimento, mas vinte de altura. Acima deles havia outros compartimentos, e ainda outros acima destes, iguais em medidas e em número, de modo que alcançavam altura igual à da parte inferior da casa, pois a parte superior não tinha construções ao redor. O teto sobre a casa era de cedro. Cada um desses compartimentos tinha seu próprio teto, sem ligação com os demais. Mas, para as outras partes, havia um teto comum a todas, feito de vigas muito longas que atravessavam o restante e o edifício inteiro, de modo que as paredes do meio, reforçadas por essas mesmas vigas de madeira, ficassem mais firmes. A parte do teto que ficava sob as vigas era feita do mesmo material, toda lisa, com ornamentos próprios de tetos e placas de ouro pregadas sobre elas. Assim como revestiu as paredes com tábuas de cedro, também fixou nelas placas de ouro com esculturas, de modo que o Templo inteiro brilhava e ofuscava os olhos de quem entrava, pelo esplendor do ouro espalhado por toda parte. Toda a estrutura do Templo foi feita com grande habilidade, em pedras polidas, dispostas com tanta harmonia e suavidade que aos espectadores não aparecia sinal algum de martelo ou de qualquer outro instrumento de construção. Era como se, sem o uso deles, todo o material tivesse naturalmente se unido, e o encaixe de uma parte com a outra parecesse mais fruto da natureza do que da força de ferramentas. O rei também idealizou um engenhoso acesso ao compartimento superior sobre o Templo, por meio de degraus abertos na espessura da parede, pois esse compartimento não tinha porta grande na extremidade oriental, como a casa inferior tinha. As entradas ficavam nas laterais, por portas bem pequenas. Ele revestiu o Templo, por dentro e por fora, com tábuas de cedro mantidas firmes por correntes grossas, de modo que esse arranjo servia de apoio e reforço ao edifício.
Tendo dividido o Templo em duas partes, o rei fez do compartimento interno, de vinte côvados [em todas as direções], a câmara mais reservada, e destinou o de quarenta côvados a ser o santuário. Abriu uma passagem na parede e nela colocou portas de cedro, revestidas com muito ouro trabalhado em esculturas. Mandou fazer véus de azul, púrpura e escarlate, e do linho mais brilhante e macio, com flores delicadamente bordadas, para serem corridos diante dessas portas. Para o lugar mais reservado, cuja largura era de vinte côvados e o comprimento igual, dedicou dois querubins de ouro maciço. Cada um tinha cinco côvados de altura e duas asas estendidas por cinco côvados. Por isso Salomão os colocou perto um do outro, de modo que, com uma asa, tocassem a parede sul do lugar reservado e, com outra, a parede norte. As demais asas, que se juntavam entre si, cobriam a arca, colocada entre eles. Mas ninguém é capaz de dizer, nem sequer imaginar, qual era a forma desses querubins. Ele também revestiu o piso do Templo com placas de ouro. Acrescentou portas à entrada do Templo, ajustadas à medida da altura da parede, mas com vinte côvados de largura, e sobre elas colou placas de ouro. Em resumo, não deixou parte alguma do Templo, interna ou externa, que não estivesse coberta de ouro. Também mandou correr cortinas diante dessas portas, do mesmo modo que se faziam diante das portas internas do lugar santíssimo. Mas o pórtico do Templo não tinha nada disso.
Salomão mandou buscar em Tiro um artesão chamado Hirão. Por parte de mãe, era da tribo de Naftali (pois ela era dessa tribo), mas seu pai, Ur, era de origem israelita. Esse homem era hábil em todo tipo de trabalho, mas sua maior perícia estava em trabalhar o ouro, a prata e o bronze. Foi ele quem executou todas as obras mecânicas do Templo, conforme a vontade de Salomão. Esse Hirão fez também duas colunas [ocas], cuja superfície externa era de bronze, com a espessura do bronze de quatro dedos. As colunas tinham dezoito côvados de altura e doze côvados de circunferência. Em cada capitel foi fundido um trabalho em forma de lírio que se erguia sobre a coluna, elevando-se cinco côvados. Em volta dele havia uma rede entrelaçada com pequenas palmas, feita de bronze, que cobria o trabalho dos lírios. A isso também penduraram duzentas romãs, em duas fileiras. Uma das colunas ele colocou à direita da entrada do pórtico e chamou-a de Jaquim, e a outra à esquerda, e chamou-a de Boaz.
Salomão fundiu também um mar de bronze, em forma de hemisfério. Esse recipiente de bronze foi chamado de mar por causa do seu tamanho, pois o tanque tinha dez pés de diâmetro e foi fundido com a espessura de um palmo. Sua parte central apoiava-se sobre uma coluna baixa que tinha dez espirais ao redor, e essa coluna tinha um côvado de diâmetro. Em volta ficavam doze bois, voltados para os quatro pontos cardeais, três para cada direção, com a parte traseira rebaixada, de modo que o recipiente hemisférico repousasse sobre eles. O próprio recipiente também era rebaixado para dentro ao redor. Esse mar comportava três mil batos.
Ele fez também dez bases de bronze, para igual número de tanques quadrangulares. Cada uma dessas bases tinha cinco côvados de comprimento, quatro côvados de largura e seis côvados de altura. Esse objeto era em parte torneado, e foi concebido assim: havia quatro pequenas colunas quadrangulares, uma em cada canto. Os lados da base encaixavam-se nelas por todos os lados. Estavam divididos em três partes, e cada intervalo tinha uma moldura que servia para sustentar [o tanque]. Sobre ela estavam gravados, em um lugar um leão, em outro um touro e uma águia. As pequenas colunas traziam gravados os mesmos animais que apareciam nos lados. Toda a estrutura ficava elevada e apoiada sobre quatro rodas, igualmente fundidas, com cubos e aros, de um e meio de diâmetro. Quem visse os raios das rodas, tão perfeitamente torneados e unidos aos lados das bases, e com que harmonia se ajustavam aos aros, ficaria admirado. A construção era a seguinte: certos braços estendidos sustentavam os cantos por cima, e sobre eles repousava uma coluna espiral baixa, que ficava sob a parte oca do tanque, apoiada nas patas dianteiras da águia e do leão, ajustadas a elas, de modo que quem as olhasse pensaria que eram de uma peça. Entre elas havia gravações de palmeiras. Essa era a construção das dez bases. Ele fez também dez grandes recipientes redondos de bronze, que eram os próprios tanques. Cada um comportava quarenta batos, pois tinha quatro côvados de altura, e suas bordas distavam outro tanto entre si. Ele colocou esses tanques sobre as dez bases chamadas Meconote. Pôs cinco dos tanques no lado esquerdo do Templo, voltado para o norte, e outros tantos no lado direito, voltado para o sul, mas todos voltados para o oriente. Do mesmo lado [oriental] colocou o mar. O mar foi destinado a lavar as mãos e os pés dos sacerdotes, quando entravam no Templo e iam subir ao altar, e os tanques serviam para limpar as vísceras dos animais que seriam holocaustos, junto com as patas.
Ele fez também um altar de bronze, com vinte côvados de comprimento, vinte de largura e dez de altura, para os holocaustos. Fez de bronze todos os utensílios dele: os caldeirões, as pás, as bacias e, além desses, os espevitadores e as tenazes. Todos os demais utensílios também fez de bronze, um bronze tão esplêndido e belo quanto o ouro. O rei dedicou ainda grande número de mesas, sendo uma grande e feita de ouro, sobre a qual se punham os pães de Deus. Fez outras dez mil semelhantes a ela, mas feitas de outra maneira, sobre as quais ficavam as âmbulas e as taças. As de ouro eram vinte mil, e as de prata, quarenta mil. Fez também dez mil candelabros, conforme a ordem de Moisés. Um deles dedicou ao Templo, para que ardesse durante o dia, segundo a lei, e uma mesa com pães sobre ela, no lado norte do Templo, defronte ao candelabro, que ele pôs no lado sul. O altar de ouro ficava entre os dois. Todos esses utensílios estavam na parte da casa sagrada que tinha quarenta côvados de comprimento, diante do véu do lugar mais reservado, onde a arca seria colocada.
O rei fez também vasos de derramamento, em número de oitenta mil, cem mil âmbulas de ouro e o dobro de âmbulas de prata. De pratos de ouro, para neles oferecer no altar a flor de farinha amassada, havia oitenta mil, e o dobro de prata. De grandes bacias, nas quais misturavam a flor de farinha com azeite, havia sessenta mil de ouro e o dobro de prata. Das medidas como as que Moisés chamava de Hin e de Asaron [um décimo], havia vinte mil de ouro e o dobro de prata. Os turíbulos de ouro, com que levavam o incenso ao altar, eram vinte mil. Os outros turíbulos, com que levavam fogo do grande altar ao pequeno altar dentro do Templo, eram cinquenta mil. As vestes sacerdotais que pertenciam ao Sumo Sacerdote, com os mantos longos, o oráculo e as pedras preciosas, eram mil. Mas a coroa sobre a qual Moisés escreveu [o nome de] Deus era apenas uma, e permanece até o dia de hoje. Ele fez ainda dez mil vestes sacerdotais de linho fino, com cintos de púrpura, para cada sacerdote, e duzentas mil trombetas, conforme a ordem de Moisés. Também duzentas mil vestes de linho fino para os cantores, que eram levitas. E fez instrumentos musicais, do tipo inventado para o canto de hinos, chamados Nablas e Cíniras [saltérios e harpas], feitos de electro [o bronze mais fino], em número de quarenta mil.
Salomão fez todas essas coisas em honra de Deus, com grande variedade e magnificência, sem poupar gastos, usando toda liberalidade possível para adornar o Templo. E essas coisas dedicou aos tesouros de Deus. Ele também colocou uma divisória em volta do Templo, que em nossa língua chamamos de Gison [γείσιον], mas que os gregos chamam de ϴρικνὸς. Elevou-a à altura de três côvados, e ela servia para impedir que a multidão entrasse no Templo, mostrando que era um lugar livre e aberto apenas aos sacerdotes. Além desse pátio, ele construiu um recinto em forma de quadrado e ergueu para ele pórticos grandes e largos. Entrava-se nele por portões muito altos, cada um com a fachada voltada para um dos [quatro] pontos cardeais, fechados por portas de ouro. Nesse recinto entrava todo o povo que se distinguia dos demais por ser puro e observante das leis. Mas o recinto que ficava além deste ele tornou de fato admirável, superior a toda descrição em palavras e, posso dizer, dificilmente acreditável mesmo quando visto. Pois, depois de encher com terra grandes vales, cuja profundidade imensa não se podia olhar sem dor ao inclinar-se para vê-los, e de elevar o terreno em quatrocentos côvados, ele o nivelou com o alto do monte sobre o qual o Templo fora construído. Por esse meio, o recinto externo, exposto ao ar, ficou no mesmo nível do próprio Templo. Ele cercou esse recinto também com uma construção de dupla fileira de pórticos, que se erguiam ao alto sobre colunas de pedra nativa, enquanto os tetos eram de cedro, polidos de maneira própria para tetos tão altos. E fez de prata todas as portas desse recinto.