Antiguidades Judaicas - Livro VIII 12
Livro VIII: Salomão, o Templo e o cisma do reino
Como Zerá, rei dos etíopes, foi derrotado por Asa; como Asa, quando Baasa lhe moveu guerra, convidou o rei dos damascenos a ajudá-lo; e como, com a destruição da casa de Baasa, Zinri tomou o reino, assim como seu filho Acabe depois dele.
Asa, o rei de Jerusalém, tinha um caráter excelente e respeitava a Deus. Não fazia nem planejava nada que não estivesse ligado à observância das leis. Reformou seu reino, eliminou tudo o que havia de iníquo nele e o purificou de toda impureza. Tinha um exército de homens escolhidos, armados com escudos e lanças: trezentos mil da tribo de Judá, e duzentos e cinquenta mil da tribo de Benjamim, que carregavam broquéis e manejavam o arco. Quando já reinava havia dez anos, Zerá, rei da Etiópia, marchou contra ele com um grande exército de novecentos mil soldados de infantaria, cem mil cavaleiros e trezentos carros de guerra, e avançou até Maressa, uma cidade que pertencia à tribo de Judá. Quando Zerá já tinha chegado tão longe com seu exército, Asa saiu ao seu encontro e dispôs suas tropas em formação diante dele, num vale chamado Zefatá, perto da cidade. Ao ver a multidão dos etíopes, Asa clamou e suplicou a Deus que lhe desse a vitória e o capacitasse a matar muitos milhares de inimigos. "Pois", disse ele, "não conto com mais nada além do auxílio que espero de ti, que é capaz de tornar os poucos superiores aos muitos, e os mais fracos, mais fortes que os mais poderosos. Só por causa disso é que ouso enfrentar Zerá e lutar contra ele."
Enquanto Asa dizia isso, Deus lhe deu um sinal de vitória. Travando a batalha com ânimo por causa do que Deus havia anunciado, ele matou um grande número de etíopes. Depois de pô-los em fuga, perseguiu-os até a região de Gerar. Quando pararam de matar os inimigos, dedicaram-se a saqueá-los, pois a cidade de Gerar já havia sido tomada, e a pilhar o acampamento deles. Levaram muito ouro, muita prata e uma enorme quantidade de [outro] despojo, além de camelos, gado e rebanhos de ovelhas. Tendo Asa e seu exército obtido tamanha vitória e tamanha riqueza de Deus, voltaram para Jerusalém. Na volta, um profeta chamado Azarias encontrou-os no caminho, pediu que interrompessem a marcha por um instante e começou a lhes dizer o seguinte: a razão pela qual haviam obtido essa vitória de Deus era que se mostraram homens justos e religiosos e fizeram tudo conforme a vontade de Deus. Por isso, ele afirmou que, se perseverassem nisso, Deus permitiria que vencessem sempre os inimigos e vivessem felizes. Mas, se abandonassem o culto a Deus, tudo aconteceria ao contrário, e chegaria um tempo em que nenhum profeta verdadeiro restaria em toda a sua multidão, nem haveria sacerdote que lhes desse uma resposta verdadeira do Oráculo. Suas cidades seriam destruídas, sua nação seria dispersa por toda a terra e viveriam como estrangeiros e errantes. Por isso, ele os aconselhou a serem bons enquanto havia tempo, e a não se privarem do favor de Deus. Quando o rei e o povo ouviram isso, alegraram-se, e todos juntos, e cada um em particular, cuidaram muito de se comportar com justiça. O rei também enviou homens para garantir que as pessoas do interior do país também observassem as leis.
Essa era a situação de Asa, rei das duas tribos. Volto agora a Baasa, o rei da multidão dos israelitas, que matou Nadabe, filho de Jeroboão, e tomou o governo. Vivia na cidade de Tirza, que escolheu como sua morada, e reinou vinte e quatro anos. Tornou-se mais perverso e ímpio do que Jeroboão ou seu filho. Causou grande dano à população e ofendeu a Deus, que enviou o profeta Jeú e o advertiu de antemão que toda a sua família seria destruída, e que traria sobre a casa dele as mesmas desgraças que haviam arruinado a casa de Jeroboão. Isso porque, tendo sido feito rei por Deus, não retribuiu essa bondade governando o povo com justiça e religiosidade, o que, em primeiro lugar, contribuiria para a própria felicidade deles e, em segundo, agradaria a Deus. Em vez disso, imitou esse rei tão perverso, Jeroboão, e, embora a alma daquele homem já tivesse perecido, reproduziu fielmente a maldade dele. Por isso, disse o profeta, justamente experimentaria a mesma calamidade que Jeroboão, já que cometera a mesma maldade. Mas Baasa, ainda que ouvisse de antemão as desgraças que cairiam sobre ele e sobre toda a sua família por causa do comportamento insolente deles, não abandonou suas práticas perversas no futuro. Não se importou em mostrar-se cada vez pior até morrer, e nem mesmo então se arrependeu de seus atos passados, nem tentou obter o perdão de Deus por eles. Agiu como agem aqueles que, tendo recompensas prometidas, depois de iniciarem o trabalho com empenho, não deixam de se esforçar. Foi assim que Baasa, quando o profeta lhe anunciou o que aconteceria, tornou-se pior, como se aquilo que era ameaçado, a perdição de sua família e a destruição de sua casa, que estão de fato entre os maiores males, fossem coisas boas. Como se fosse um combatente a favor da maldade, dedicava-se a ela cada dia com mais empenho. Por fim, tomou seu exército e atacou uma cidade importante chamada Ramá, que ficava a quarenta estádios de Jerusalém. Depois de tomá-la, fortificou-a, tendo decidido de antemão deixar ali uma guarnição, para que de lá fizessem incursões e causassem dano ao reino de Asa.
Diante disso, Asa ficou apreensivo com os ataques que o inimigo poderia fazer contra ele. Refletindo sobre quantos males esse exército estacionado em Ramá poderia causar à região que ele governava, enviou embaixadores ao rei dos damascenos, com ouro e prata, pedindo seu auxílio e lembrando-lhe que havia entre eles uma amizade desde os tempos dos antepassados. O rei recebeu de bom grado aquela soma de dinheiro, fez uma aliança com Asa, rompeu a amizade que mantinha com Baasa e enviou os comandantes de suas próprias forças contra as cidades sob o domínio de Baasa, com ordens de causar dano a elas. Eles foram, incendiaram algumas e saquearam outras: Ijom, Dã, Abel-Maim e muitas outras. Quando o rei de Israel soube disso, parou de construir e fortificar Ramá e voltou imediatamente para socorrer seu próprio povo nas aflições em que se encontrava. Mas Asa aproveitou os materiais que haviam sido preparados para construir aquela cidade e, no mesmo lugar, construiu duas cidades fortificadas: uma chamada Geba e a outra, Mispá. Depois disso, Baasa não teve mais tempo de fazer expedições contra Asa, pois foi impedido pela morte. Foi sepultado na cidade de Tirza, e seu filho Elá assumiu o reino. Elá, depois de reinar dois anos, morreu, traiçoeiramente assassinado por Zinri, comandante de metade do seu exército. Pois, quando Elá estava em Arza, casa de seu mordomo, Zinri convenceu alguns dos cavaleiros que estavam sob seu comando a atacar Elá, e assim o matou quando ele estava sem seus homens armados e sem seus comandantes, pois todos estavam ocupados no cerco de Gibetom, uma cidade dos filisteus.
Depois de matar Elá, Zinri, o comandante do exército, tomou o reino para si e, conforme a profecia de Jeú, matou toda a casa de Baasa. Pois aconteceu que a casa de Baasa pereceu por completo, por causa da impiedade dele, do mesmo modo como já descrevemos a destruição da casa de Jeroboão. Mas o exército que cercava Gibetom, ao saber o que tinha acontecido com o rei, e que Zinri o havia matado e tomado o reino, proclamou rei seu general Onri. Onri retirou seu exército de Gibetom, foi a Tirza, onde estava o palácio real, atacou a cidade e tomou-a à força. Quando Zinri viu que a cidade não tinha quem a defendesse, fugiu para a parte mais interna do palácio, ateou fogo a ele e queimou-se junto com o palácio, depois de ter reinado apenas sete dias. Em seguida, o povo de Israel logo se dividiu: parte queria Tibni como rei, e parte queria Onri. Mas, quando os partidários de Onri derrotaram Tibni, Onri passou a reinar sobre toda a multidão. Foi no trigésimo ano do reinado de Asa que Onri começou a reinar, e reinou doze anos: seis desses anos reinou na cidade de Tirza, e o restante na cidade chamada Semareon, que os gregos chamam de Samaria. Ele próprio a chamou de Semareon, por causa de Semer, que lhe vendeu o monte onde a construiu. Onri em nada foi diferente dos reis que reinaram antes dele, exceto que se tornou pior do que eles. Pois todos buscavam meios de afastar o povo de Deus por meio de suas práticas perversas diárias. Foi por essa razão que Deus fez com que um deles fosse morto por outro, e que nenhuma pessoa das famílias deles restasse. Esse Onri também morreu em Samaria, e seu filho Acabe o sucedeu.
Por esses acontecimentos podemos aprender quanto Deus se importa com os assuntos da humanidade, como ama os homens bons, odeia os perversos e os destrói pela raiz. Pois muitos desses reis de Israel, eles e suas famílias, foram miseravelmente destruídos e eliminados, um após o outro, em pouco tempo, por causa de sua transgressão e maldade. Mas Asa, que era rei de Jerusalém e das duas tribos, alcançou, pela bênção de Deus, uma velhice longa e abençoada, por causa de sua piedade e justiça, e morreu feliz, depois de reinar quarenta e um anos. Quando morreu, seu filho Josafá o sucedeu no governo. Josafá nasceu de Azuba, esposa de Asa. Todos reconheciam que ele seguia as obras de Davi, seu antepassado, tanto em coragem quanto em piedade. Mas não somos obrigados a falar mais agora dos assuntos desse rei.