Antiguidades Judaicas - Livro VII 5
Livro VII: o reinado de Davi
Como Davi submeteu na guerra os filisteus, os moabitas, os reis de Sofene e de Damasco e os sírios, assim como os idumeus; como firmou uma aliança com o rei de Hamate; e como se lembrou da amizade que Jônatas, filho de Saul, tivera por ele.
Pouco depois disso, Davi concluiu que devia fazer guerra contra os filisteus e não permitir nenhuma ociosidade ou indolência na sua administração, para que se cumprisse o que Deus tinha predito: que, depois de derrotar seus inimigos, ele deixaria sua descendência reinar em paz dali em diante. Por isso reuniu o exército de novo. Depois de ordenar que ficassem prontos e preparados para a guerra, e quando julgou que tudo no seu exército estava em boas condições, saiu de Jerusalém e marchou contra os filisteus. Venceu-os em batalha, tomou grande parte do território deles e o anexou ao território dos hebreus. Em seguida levou a guerra contra os moabitas. Depois de vencer em batalha duas partes do exército deles, fez prisioneira a parte restante e lhes impôs um tributo a ser pago todos os anos. Depois fez guerra contra Adadezer, filho de Reobe, rei de Sofene. Quando travou batalha com ele junto ao rio Eufrates, destruiu vinte mil dos seus soldados de infantaria e cerca de sete mil dos seus cavaleiros. Tomou também mil dos seus carros de guerra, destruiu a maior parte deles e ordenou que não se conservassem mais do que cem.
Quando Hadade, rei de Damasco e da Síria, soube que Davi lutava contra Adadezer, que era seu amigo, veio em socorro dele com um exército poderoso, na esperança de resgatá-lo. Mas, quando travou batalha com Davi junto ao rio Eufrates, falhou no seu intento e perdeu na batalha um grande número de soldados, pois foram mortos vinte mil do exército de Hadade, e todos os demais fugiram. Nicolau [de Damasco] também menciona esse rei no quarto livro das suas Histórias, onde fala assim: "Muito tempo depois de tudo isso ter acontecido, houve naquele país um homem chamado Hadade, que se tornou muito poderoso. Reinou sobre Damasco e as outras partes da Síria, exceto a Fenícia. Fez guerra contra Davi, o rei da Judeia, e provou a sorte em muitas batalhas, em especial na última, junto ao Eufrates, na qual foi derrotado. Parece ter sido o mais notável de todos os reis deles em força e bravura." Além disso, ele diz da descendência de Hadade que, "depois da sua morte, eles se sucederam uns aos outros no reino e no seu nome", e fala assim: "Quando Hadade morreu, sua descendência reinou por dez gerações, cada um dos sucessores recebendo do pai aquele domínio e aquele nome, como faziam os Ptolomeus no Egito. Mas o terceiro foi o mais poderoso de todos e quis vingar a derrota que seu antepassado tinha sofrido. Por isso fez uma expedição contra os judeus e devastou a cidade que hoje se chama Samaria." Ele não se afastou da verdade, pois esse é o mesmo Hadade que fez a expedição contra Samaria no reinado de Acabe, rei de Israel, sobre quem falaremos no lugar devido mais adiante.
Depois que Davi fez a expedição contra Damasco e as outras partes da Síria, sujeitou tudo, colocou guarnições no país e determinou que pagassem tributo, voltou para casa. Consagrou também a Deus, em Jerusalém, as aljavas de ouro, a armadura completa que os guardas de Hadade costumavam usar, a mesma que Sisaque, rei do Egito, levou embora quando guerreou contra Roboão, neto de Davi, junto com muita outra riqueza que tirou de Jerusalém. Esses fatos, no entanto, serão explicados nos seus devidos lugares mais adiante. Quanto ao rei dos hebreus, ele foi ajudado por Deus, que lhe deu grande sucesso nas suas guerras. Davi fez uma expedição contra as melhores cidades de Adadezer, Betá e Macom. Tomou-as à força e as devastou. Ali encontrou enorme quantidade de ouro e prata, além daquele tipo de bronze que se diz ser mais valioso que o ouro. Foi com esse bronze que Salomão fez aquele grande recipiente chamado de mar [de bronze] e aquelas pias muito bem trabalhadas, quando construiu o templo para Deus.
[Por volta de 1079.] Mas, quando o rei de Hamate foi informado do fracasso de Adadezer e soube da ruína do exército dele, ficou com medo por si mesmo e resolveu firmar uma aliança de amizade e fidelidade com Davi, antes que este marchasse contra ele. Por isso enviou a ele seu filho Jorão e declarou que devia agradecimentos a Davi por ter lutado contra Adadezer, que era seu inimigo, e firmou com ele uma aliança de assistência mútua e amizade. Enviou-lhe também presentes, objetos de fabricação antiga, de ouro, de prata e de bronze. Assim, quando Davi firmou essa aliança de assistência mútua com Toi (pois esse era o nome do rei de Hamate) e recebeu os presentes que ele lhe enviou, despediu o filho dele com o respeito devido de ambos os lados. Davi então trouxe os presentes enviados por Toi, bem como o restante do ouro e da prata que tinha tomado das cidades das nações que conquistara, e os consagrou a Deus. E Deus não deu vitória e sucesso a Davi apenas quando ele mesmo ia à batalha e liderava seu próprio exército, mas deu vitória a Abisai, irmão de Joabe, general das suas forças, sobre os idumeus, e por meio de Abisai deu vitória a Davi, quando este o enviou com um exército à Idumeia. Pois Abisai destruiu dezoito mil deles na batalha. Diante disso, o rei [de Israel] colocou guarnições por toda a Idumeia e recebeu o tributo do país e de cada pessoa entre eles. Davi era justo por natureza e tomava suas decisões com respeito à verdade. Tinha Joabe como general de todo o seu exército, e fez Josafá, filho de Ailude, cronista. Nomeou também Zadoque, da família de Fineias, sumo sacerdote, junto com Abiatar, pois era seu amigo. Fez ainda Seisã escriba e entregou o comando dos guardas do seu corpo a Benaia, filho de Joiada. Seus filhos mais velhos ficavam perto do seu corpo e também cuidavam da sua proteção.
Davi também se lembrou dos pactos e juramentos que tinha feito com Jônatas, filho de Saul, e da amizade e afeição que Jônatas tivera por ele. Pois, além de todas as suas outras qualidades excelentes, ele se lembrava muito bem dos que em outras ocasiões lhe tinham feito o bem. Por isso ordenou que se investigasse se algum descendente de Jônatas ainda vivia, a quem pudesse retribuir aquela amizade íntima que Jônatas tivera por ele e pela qual ainda era devedor. Quando lhe trouxeram um dos homens libertos de Saul, que conhecia os membros da família ainda vivos, Davi lhe perguntou se podia lhe indicar alguém da família de Jônatas que ainda estivesse vivo e capaz de receber uma retribuição pelos benefícios que ele tinha recebido de Jônatas. O homem respondeu que restava um filho de Jônatas, chamado Mefibosete, mas que ele era manco dos pés, pois, quando a sua ama soube que o pai e o avô da criança tinham caído na batalha, pegou o menino e fugiu, deixou-o cair dos ombros e os pés dele ficaram aleijados. Quando Davi soube onde e por quem o menino fora criado, enviou mensageiros a Maquir, na cidade de Lo-Debar, pois era com ele que o filho de Jônatas estava sendo criado, e mandou chamá-lo para vir até ele. Quando Mefibosete chegou diante do rei, prostrou-se com o rosto em terra e o reverenciou. Mas Davi o encorajou, mandou que tivesse bom ânimo e esperasse tempos melhores. Deu-lhe a casa do seu pai e toda a propriedade que pertencera ao seu avô Saul, e mandou que viesse comer com ele à sua própria mesa e que jamais se ausentasse um único dia daquela mesa. Depois que o jovem o reverenciou por causa dessas palavras e dos presentes que lhe foram dados, Davi chamou Sibá e lhe disse que tinha dado ao jovem a casa do seu pai e toda a propriedade de Saul. Ordenou ainda que Sibá cultivasse a terra dele, cuidasse dela e lhe trouxesse a Jerusalém os lucros de tudo. Assim, Davi o levava à sua mesa todos os dias, e concedeu ao jovem Sibá e seus filhos, que eram quinze ao todo, e seus servos, que eram vinte ao todo. Depois que o rei fez essas determinações, e Sibá o reverenciou e prometeu fazer tudo o que lhe fora ordenado, foi embora. E assim esse filho de Jônatas passou a morar em Jerusalém, comia à mesa do rei e recebia o mesmo cuidado que um filho poderia reivindicar. Ele próprio teve um filho, a quem deu o nome de Mica.