Antiguidades Judaicas - Livro VII 3
Livro VII: o reinado de Davi
Como Davi sitiou Jerusalém; e, depois de tomar a cidade, expulsou dela os cananeus e trouxe os judeus para habitá-la.
Os jebuseus, que habitavam Jerusalém e eram cananeus de origem, fecharam os portões e colocaram sobre a muralha os cegos, os coxos e todos os mutilados, para zombar do rei. Disseram que “os próprios coxos seriam suficientes para impedir a entrada dele na cidade”. Fizeram isso por desprezarem o poder de Davi e por confiarem na força das muralhas. Davi se enfureceu com aquilo, deu início ao cerco de Jerusalém e empregou no ataque toda a sua diligência e energia, pois pretendia, ao tomar aquela praça, demonstrar o próprio poder e intimidar todos os outros que pudessem nutrir disposição igualmente hostil contra ele. Assim, tomou à força a cidade baixa, mas a cidadela ainda resistia. Por isso o rei, sabendo que a oferta de honras e recompensas estimularia os soldados a feitos maiores, prometeu que quem primeiro atravessasse os fossos abaixo da cidadela, subisse até a própria cidadela e a tomasse receberia o comando de todo o povo. Então todos quiseram fazer a escalada e julgavam que nenhum esforço era grande demais para subir até lá, movidos pelo desejo do comando supremo. Mas Joabe, filho de Zeruia, antecipou-se aos demais e, assim que alcançou a cidadela, gritou para o rei e reivindicou o comando supremo.
Depois de expulsar os jebuseus da cidadela, Davi também reconstruiu Jerusalém e a chamou de Cidade de Davi, e ali permaneceu durante todo o seu reinado. Quanto ao tempo em que reinou apenas sobre a tribo de Judá, em Hebrom, foram sete anos e seis meses. Tendo escolhido Jerusalém como sua cidade real, seus assuntos prosperavam cada vez mais, pela providência de Deus, que cuidava para que progredissem e se ampliassem. Hirão, rei dos tírios, também lhe enviou embaixadores e firmou com ele uma aliança de amizade e auxílio mútuos. Enviou-lhe ainda presentes: cedros, artesãos e homens hábeis em construção e arquitetura, para que lhe edificassem um palácio real em Jerusalém. Davi fez construções ao redor da cidade baixa, uniu a cidadela a ela e formou um só conjunto. Depois de cercar tudo com muralhas, encarregou Joabe de zelar por elas. Foi, portanto, Davi quem primeiro expulsou os jebuseus de Jerusalém e a chamou pelo próprio nome: [Cidade de Davi]. No tempo de nosso antepassado Abraão, ela se chamava [Salém ou] Solima. Alguns dizem que, depois daquele tempo, Homero a menciona por esse nome de Solima. [[Pois ele chamou o templo de Solima, conforme a língua hebraica, que denota segurança.]] Ora, todo o tempo desde a guerra conduzida por Josué, nosso general, contra os cananeus, e desde aquela guerra em que os venceu e distribuiu a terra entre os hebreus (sem que os israelitas jamais conseguissem expulsar os cananeus de Jerusalém até este momento, quando Davi a tomou por cerco), todo esse tempo somou quinhentos e quinze anos.
Mencionarei agora Arauna, homem rico entre os jebuseus, que não foi morto por Davi no cerco de Jerusalém por causa da boa vontade que tinha para com os hebreus e de uma benevolência e afeição especiais que dedicava ao próprio rei. Falarei disso em ocasião mais oportuna, um pouco adiante. Davi tomou outras esposas além das que já possuía, e teve também concubinas. Os filhos que teve foram onze, e seus nomes eram: Amnom, Emnos, Eban, Natã, Salomão, Jeban, Elien, Falna, Enafen, Janae, Elifale, e uma filha, Tamar. Nove deles nasceram de esposas legítimas, e os dois últimos mencionados, de concubinas. Tamar tinha a mesma mãe que Absalão.