Antiguidades Judaicas - Livro II 3
Livro II: José no Egito, Moisés e o Êxodo
Como José foi assim vendido pelos irmãos ao Egito, por causa do ódio que tinham dele, e como ali se tornou famoso e ilustre, e teve os irmãos sob seu poder.
Esses irmãos se alegraram assim que viram o irmão chegando até eles, mas não como diante de um parente próximo, nem como diante de alguém enviado pelo pai, e sim como diante de um inimigo entregue às suas mãos pela providência divina. Já estavam decididos a matá-lo e a não desperdiçar a oportunidade que tinham pela frente. Quando Rúben, o mais velho deles, os viu nessa disposição e percebeu que tinham combinado executar o plano, tentou contê-los. Mostrou a eles a gravidade do que iam fazer e a natureza horrível do ato: aquela ação pareceria má aos olhos de Deus e ímpia diante dos homens, ainda que matassem alguém sem parentesco com eles, mas seria muito mais infame e detestável aparecer como assassinos do próprio irmão. Por esse ato o pai seria tratado com injustiça na morte do filho, e a mãe ficaria angustiada ao lamentar que seu filho lhe foi tirado, e isso nem sequer de modo natural. Por isso pediu que respeitassem a própria consciência e considerassem com sabedoria que mal recairia sobre eles com a morte de uma criança tão boa, o irmão mais novo. Pediu também que temessem a Deus, que já era espectador e testemunha dos planos que tinham contra o irmão, e que os amaria se desistissem do ato e se voltassem ao arrependimento e à correção. Mas, caso prosseguissem na obra, todo tipo de castigo viria de Deus sobre eles por esse assassinato do irmão, pois profanavam a providência divina, que está presente em toda parte e não ignora o que se faz, seja no deserto, seja nas cidades. Onde quer que um homem esteja, ali deve supor que Deus também está. Disse a eles ainda que a própria consciência se tornaria inimiga deles se tentassem levar adiante empreendimento tão perverso, algo que jamais poderiam evitar, fosse uma consciência boa, fosse a consciência que carregariam dentro de si depois de matar o irmão. Acrescentou ainda ao que já havia dito que não era justo matar um irmão, mesmo que ele os tivesse ofendido, e que é coisa boa esquecer os atos de parentes tão próximos, até naquilo em que pareciam ter pecado. Mas eles iam matar José, que não havia cometido nada de mal contra eles, e em cujo caso a fragilidade da pouca idade deveria antes lhe garantir misericórdia e movê-los a se unir no cuidado de o preservar. Disse também que a causa de matá-lo tornava o próprio ato muito pior, já que decidiam eliminá-lo por inveja da prosperidade futura dele, prosperidade da qual eles naturalmente teriam parte igual enquanto ele a desfrutasse, pois não eram estranhos a ele, mas os parentes mais próximos. Podiam contar o que Deus concedesse a José como algo próprio, e convinha crer que a ira de Deus seria por isso mais severa sobre eles se matassem aquele que Deus julgava digno da prosperidade que se podia esperar, e que, ao assassiná-lo, tornariam impossível a Deus concedê-la a ele.
Rúben disse essas e muitas outras coisas, e recorreu a súplicas, e com isso tentou desviá-los do assassinato do irmão. Mas, quando viu que seu discurso não os havia abrandado em nada e que se apressavam a cometer o ato, aconselhou-os a atenuar a maldade que iam praticar pelo modo de eliminar José. Assim como os havia exortado primeiro, quando iam se vingar, a se deixarem dissuadir, agora que a decisão de matar o irmão tinha prevalecido, disse que mesmo assim não seriam tão grosseiramente culpados se aceitassem seguir o conselho atual, que incluía o que tanto queriam, mas não era tão terrível, e sim, dentro da situação aflitiva em que estavam, de natureza mais branda. Por isso pediu que não matassem o irmão com as próprias mãos, mas que o lançassem no poço ali perto e o deixassem morrer, com o que ganhariam ao menos isto: não sujariam as próprias mãos com o sangue dele. A isso os jovens concordaram de imediato. Então Rúben tomou o rapaz, amarrou-o a uma corda e o desceu com cuidado ao poço, pois ele não tinha nenhuma água. Depois de fazer isso, foi embora à procura de pastagem adequada para alimentar seus rebanhos.
Mas Judá, também filho de Jacó, vendo alguns árabes, da descendência de Ismael, levando especiarias e mercadorias sírias da terra de Gileade para os egípcios, depois que Rúben partiu, aconselhou os irmãos a tirar José do poço e vendê-lo aos árabes. Se ele morresse entre estranhos, bem longe, ficariam livres dessa ação bárbara. Foi o que decidiram. Tiraram José do poço e o venderam aos mercadores por vinte libras. Ele tinha então dezessete anos. Mas Rúben, vindo de noite ao poço, decidiu salvar José sem o conhecimento dos irmãos. Quando o chamou e não obteve resposta, temeu que o tivessem matado depois que ele saíra. Queixou-se disso aos irmãos, mas, depois que eles lhe contaram o que tinham feito, Rúben parou de lamentar.
Depois que os irmãos de José fizeram isso com ele, pensaram no que fariam para escapar das suspeitas do pai. Tinham tomado de José a túnica que ele vestia quando chegou até eles, no momento em que o desceram ao poço. Então acharam melhor rasgar essa túnica em pedaços e mergulhá-la em sangue de cabra, e em seguida levá-la e mostrá-la ao pai, para que ele acreditasse que o filho fora morto por feras. Feito isso, foram até o velho, mas só depois que o que acontecera ao filho já tinha chegado ao conhecimento dele. Então disseram que não tinham visto José, nem sabiam que desgraça o atingira, mas que haviam encontrado a túnica ensanguentada e rasgada em pedaços, donde suspeitavam que ele tivesse caído entre feras e assim perecido, caso fosse aquela a túnica que vestia quando saíra de casa. Jacó antes tinha alguma esperança de que o filho tivesse sido apenas feito cativo, mas agora abandonou essa ideia e supôs que aquela túnica era prova evidente de que ele estava morto, pois lembrava bem que era essa a túnica que José vestia quando o enviou aos irmãos. Daí em diante chorou o rapaz como morto, e como se fosse pai de um único filho, sem encontrar consolo nos demais. Já estava afetado por essa desgraça antes mesmo de se encontrar com os irmãos de José, quando também conjeturou que José fora morto por feras. Sentou-se vestido de pano de saco e em pesado luto, a ponto de não achar alívio quando os filhos o consolavam, e suas dores não diminuíam com o passar do tempo.