Antiguidades Judaicas - Livro II 2

Livro II: José no Egito, Moisés e o Êxodo

Como José, o mais novo dos filhos de Jacó, foi invejado pelos irmãos, depois que certos sonhos anunciaram a sua felicidade futura.

Aconteceu que Jacó alcançou uma felicidade tão grande como poucos jamais alcançaram. Era mais rico do que os demais habitantes daquela terra e ao mesmo tempo era invejado e admirado por ter filhos tão virtuosos, pois nada lhes faltava: tinham almas grandiosas, capazes tanto de trabalhar com as próprias mãos quanto de suportar o esforço, e eram também perspicazes no entendimento. Deus exercia sobre ele tal providência e tamanho cuidado com a sua felicidade que lhe trouxe as maiores bênçãos justamente a partir daquilo que parecia a situação mais dolorosa, e fez dele a causa da saída dos nossos antepassados do Egito, dele e da sua descendência. A ocasião foi esta: quando Raquel deu a Jacó este filho, José, seu pai o amou mais do que aos outros filhos, tanto pela beleza do corpo quanto pelas virtudes da mente, pois ele superava os demais em prudência. Esse afeto do pai despertou a inveja e o ódio dos irmãos, assim como os sonhos que José teve e contou ao pai e a eles, sonhos que previam a sua felicidade futura, sendo comum entre os homens invejar até nos parentes mais próximos a prosperidade deles. Eis as visões que José teve durante o sono.
Quando estavam no meio da colheita e o pai enviou José com os irmãos para recolher os frutos da terra, ele teve uma visão em sonho que ultrapassava em muito as aparições comuns que surgem enquanto dormimos. Ao se levantar, contou-a aos irmãos para que julgassem o que ela anunciava. Disse que na noite anterior vira o seu feixe de trigo ficar em pé, parado, no lugar onde o havia colocado, mas que os feixes deles corriam para se curvar diante do seu, como servos que se curvam diante de seus senhores. Assim que perceberam que a visão anunciava que ele obteria poder e grande riqueza, e que esse poder se voltaria contra eles, não deram a José nenhuma interpretação, como se o sonho não fosse compreendido por eles. Mas oraram para que nada daquilo que suspeitavam ser o seu significado viesse a acontecer, e por causa disso passaram a odiá-lo ainda mais.
Mas Deus, contrariando a inveja deles, enviou a José uma segunda visão, muito mais extraordinária do que a primeira. Pareceu-lhe que o Sol levava consigo a Lua e as demais estrelas, e que todos desciam à terra e se curvavam diante dele. Ele contou essa visão ao pai sem desconfiar de qualquer vontade dos irmãos, que também estavam presentes, e pediu que interpretasse o que aquilo deveria significar. Jacó ficou contente com o sonho, pois, ponderando a previsão em sua mente e adivinhando o seu sentido com sagacidade e sabedoria, alegrou-se com as grandes coisas que ele anunciava. O sonho declarava a felicidade futura do filho e que, pela bênção de Deus, chegaria o tempo em que ele seria honrado e considerado digno de reverência pelos pais e irmãos. Jacó supôs que a Lua e o Sol correspondiam à mãe e ao pai de José, ela como a que crescimento e alimento a todas as coisas, e ele como o que lhes forma e os demais poderes, e que as estrelas correspondiam aos irmãos, que eram onze, como eram onze as estrelas que recebem o seu poder do Sol e da Lua.
Foi assim que Jacó interpretou essa visão, e com grande sagacidade. Mas essas interpretações causaram enorme tristeza aos irmãos de José, e por causa delas passaram a tratá-lo como se ele fosse um estranho destinado àqueles bens anunciados pelos sonhos, e não como um irmão com quem provavelmente os repartiriam, pois, assim como tinham sido sócios no mesmo nascimento, também o seriam na mesma felicidade. Resolveram então matar o rapaz e, depois de confirmarem por completo essa intenção, assim que terminou a colheita dos frutos foram a Siquém, terra boa para criar gado e para pastagem. Ali apascentaram seus rebanhos sem avisar o pai de que tinham ido para lá. Por isso ele teve suspeitas melancólicas a respeito deles, pois não sabia da situação dos filhos e não recebia nenhum mensageiro vindo dos rebanhos que pudesse informá-lo do verdadeiro estado em que se encontravam. Assim, por estar muito temeroso por eles, enviou José aos rebanhos para saber em que circunstâncias estavam os irmãos e para lhe trazer notícia de como passavam.