Antiguidades Judaicas - Livro II 10
Livro II: José no Egito, Moisés e o Êxodo
Como Moisés fez guerra contra os etíopes.
Moisés, depois de nascer e ser criado da maneira já descrita, chegou à idade adulta e demonstrou sua virtude diante dos egípcios. Ele mostrou que tinha nascido para humilhá-los e para erguer os israelitas. A oportunidade que aproveitou foi esta: os etíopes, vizinhos imediatos dos egípcios, invadiram o território egípcio, tomaram posse dele e levaram embora os bens dos egípcios. Estes, enfurecidos, lutaram contra eles e tentaram vingar as ofensas que tinham sofrido, mas foram derrotados na batalha. Alguns deles morreram, e os demais fugiram de forma vergonhosa, salvando a vida apenas por isso. Diante disso os etíopes saíram em perseguição e, julgando que seria sinal de covardia não subjugar todo o Egito, avançaram com ainda mais violência para dominar o restante. Quando provaram as riquezas do país, jamais abandonaram a guerra. Como as regiões mais próximas não tiveram coragem de enfrentá-los no início, eles avançaram até Mênfis e até o próprio mar, sem que nenhuma das cidades conseguisse resistir. Os egípcios, sob essa terrível opressão, recorreram aos seus oráculos e profecias. Quando Deus lhes deu este conselho, recorrer a Moisés, o hebreu, e contar com a ajuda dele, o rei ordenou que sua filha o apresentasse, para que ele fosse o general do exército. Ela, então, depois de fazê-lo jurar que não lhe causaria mal algum, entregou-o ao rei, supondo que a ajuda dele traria grande vantagem para eles. Ao mesmo tempo, ela repreendeu os sacerdotes que antes haviam aconselhado os egípcios a matá-lo e que agora não tinham vergonha de admitir que precisavam do auxílio dele.
Assim Moisés, persuadido tanto por Termútis quanto pelo próprio rei, assumiu de bom grado a missão. E os escribas sagrados das duas nações ficaram contentes: os dos egípcios, porque venceriam de imediato os inimigos pela coragem de Moisés e porque, pelo mesmo plano, Moisés seria morto; e os dos hebreus, porque escapariam dos egípcios, já que Moisés seria o general deles. Mas Moisés antecipou-se aos inimigos: tomou e conduziu seu exército contra eles antes que percebessem o ataque. Ele não marchou pelo rio, mas por terra, e ali deu uma demonstração admirável de sua sagacidade. O terreno era difícil de atravessar por causa da multidão de serpentes que ele produz em quantidade enorme. De fato, essa região é singular em algumas dessas criaturas, que outros países não geram, e que são piores que as demais em força e malícia, com uma ferocidade incomum no olhar. Algumas delas surgem do solo sem serem vistas e também voam pelo ar, atacando os homens de surpresa e ferindo-os. Moisés inventou um estratagema admirável para manter o exército seguro e ileso: fez cestos parecidos com arcas de junco, encheu-os de íbis e os levou consigo. Esse animal é o maior inimigo das serpentes que se pode imaginar, pois elas fogem quando ele se aproxima e, ao fugir, são apanhadas e devoradas por ele, como se fosse obra dos cervos. As íbis são animais dóceis e só são inimigas das serpentes. Mas sobre essas íbis não digo mais nada por enquanto, já que os próprios gregos conhecem bem esse tipo de ave. Assim que Moisés chegou à terra que gerava essas serpentes, soltou as íbis e, por meio delas, repeliu as serpentes, usando-as como auxiliares antes que o exército pisasse naquele terreno. Tendo prosseguido dessa forma em sua jornada, ele caiu sobre os etíopes antes que o esperassem. Travou batalha com eles, derrotou-os e tirou deles a esperança de êxito contra os egípcios. Continuou destruindo as cidades deles e, de fato, fez grande matança entre esses etíopes. Quando o exército egípcio provou esse sucesso favorável graças a Moisés, não afrouxou no esforço, a ponto de os etíopes correrem o risco de serem reduzidos à escravidão e a toda sorte de destruição. Por fim eles se retiraram para Sabá, cidade real da Etiópia, que Cambises depois chamou de Méroe, em homenagem ao nome da própria irmã. O lugar só podia ser sitiado com enorme dificuldade, pois era cercado por todos os lados pelo Nilo, e os outros rios, o Astapo e o Astáboras, tornavam muito difícil a travessia para quem tentasse. A cidade ficava num local isolado e era habitada como uma ilha, cercada por uma muralha forte, tendo os rios como proteção contra os inimigos e grandes diques entre a muralha e os rios. Por isso, mesmo quando as águas chegam com a maior violência, ela nunca pode ser inundada. Esses diques tornam quase impossível tomar a cidade, até mesmo para quem consegue atravessar os rios. No entanto, enquanto Moisés estava incomodado com a inação do exército (pois os inimigos não ousavam entrar em batalha), aconteceu o seguinte: Tarbis era filha do rei dos etíopes. Ela viu Moisés conduzindo o exército perto das muralhas e lutando com grande coragem. Admirou a astúcia de suas ações e passou a acreditar que ele era o autor do sucesso egípcio, quando antes os egípcios tinham perdido a esperança de recuperar a liberdade, e que ele era a causa do grande perigo em que os etíopes se encontravam, quando antes se gabavam de suas grandes conquistas. Ela se apaixonou profundamente por ele e, dominada por essa paixão, enviou-lhe o mais fiel de todos os seus servos para tratar com ele sobre o casamento. Ele aceitou a proposta com a condição de que ela conseguisse a entrega da cidade, e deu-lhe a garantia, com juramento, de que a tomaria por esposa e de que, depois de tomar posse da cidade, não quebraria o juramento feito a ela. Logo que o acordo foi firmado, ele teve efeito imediato. E quando Moisés derrotou os etíopes, deu graças a Deus, consumou o casamento e conduziu os egípcios de volta à própria terra.