Antiguidades Judaicas - Livro I 20
Livro I: da Criação a Isaque e Jacó
Sobre o encontro de Jacó e Esaú.
Enquanto Jacó seguia viagem rumo à terra de Canaã, anjos lhe apareceram e lhe deram boa esperança quanto ao seu futuro. Por isso ele deu àquele lugar o nome de Acampamento de Deus. Querendo saber quais eram as intenções do irmão em relação a ele, enviou mensageiros para trazer um relato exato de tudo, pois temia por causa da inimizade entre os dois. Ordenou aos enviados que dissessem a Esaú o seguinte: "Jacó julgou errado viver junto de você enquanto você estava irado com ele, e por isso deixou o país. Agora, achando que o longo tempo de ausência já deve ter resolvido as diferenças entre vocês, está voltando. Traz consigo as esposas, os filhos e os bens que adquiriu, e se entrega, com tudo o que lhe é mais caro, nas suas mãos. Considera que sua maior felicidade seria partilhar com o irmão aquilo que Deus lhe concedeu." Os mensageiros transmitiram essa mensagem. Diante dela, Esaú ficou muito contente e foi ao encontro do irmão com quatrocentos homens. Quando Jacó soube que ele vinha encontrá-lo com tantos homens, ficou bastante assustado. Mesmo assim, entregou a Deus sua esperança de salvação e pôs-se a pensar em como, naquela situação, poderia preservar a si mesmo e os que estavam com ele, e vencer os inimigos caso o atacassem de forma injusta. Então dividiu seu grupo em partes. Enviou alguns na frente dos demais e ordenou que os outros viessem logo atrás, de modo que, se os primeiros fossem dominados quando o irmão os atacasse, tivessem os que vinham atrás como refúgio para onde fugir. Depois de organizar assim o seu grupo, mandou alguns deles levarem presentes ao irmão. Os presentes eram compostos de gado e de grande número de animais de quatro patas, de muitas espécies, dos que seriam muito bem recebidos por quem os ganhasse, por causa da raridade. Os enviados iam separados por certos intervalos, para que, seguindo um logo atrás do outro, parecessem mais numerosos, e assim Esaú abrandasse a ira por causa desses presentes, caso ainda estivesse furioso. Também foram dadas instruções aos enviados para falarem com brandura com ele.
Depois de Jacó tomar essas providências durante todo o dia, ao cair da noite, pôs-se em marcha com seu grupo. Ao atravessarem um certo rio chamado Jaboque, Jacó ficou para trás. Ali encontrou um anjo e lutou com ele, sendo o anjo quem deu início ao combate. Mas Jacó prevaleceu sobre o anjo, que então usou a voz e lhe falou em palavras, exortando-o a se alegrar com o que lhe acontecera e a não supor que sua vitória fosse pequena, pois ele havia vencido um anjo divino. Disse-lhe que considerasse a vitória como sinal das grandes bênçãos que viriam sobre ele, que sua descendência nunca se extinguiria e que nenhum homem seria forte demais para o seu poder. Ordenou-lhe também que passasse a se chamar Israel, que na língua hebraica significa aquele que lutou com o anjo divino. Essas promessas foram feitas em resposta à oração de Jacó. Pois, quando percebeu que era o anjo de Deus, ele pediu que lhe revelasse o que lhe aconteceria no futuro. E, depois de dizer o que já foi relatado, o anjo desapareceu. Jacó ficou contente com essas coisas e deu ao lugar o nome de Fanuel, que significa A face de Deus. Como sentiu dor por causa dessa luta, no tendão largo da coxa, ele próprio se absteve depois de comer esse tendão, e por causa dele esse tendão ainda não é comido por nós.
Quando Jacó entendeu que o irmão estava próximo, ordenou às esposas que fossem na frente, cada uma sozinha, com as servas, para que vissem as ações dos homens enquanto lutavam, caso Esaú estivesse com essa disposição. Em seguida foi até o irmão Esaú e se curvou diante dele. Esaú não tinha nenhuma intenção maligna contra ele, mas o saudou e lhe perguntou sobre o grupo dos filhos e das mulheres. Depois de saber tudo o que queria a respeito deles, pediu que ele o acompanhasse até o pai. Mas Jacó alegou que o gado estava cansado, e Esaú voltou para Seir, pois ali ficava sua morada. Ele havia dado a esse lugar o nome de aspereza, por causa da própria aspereza peluda do seu corpo.